Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer


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São Paulo: Atlas, 1989, p. 9, Preâmbulo). 
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 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Trad. João Pedro Gomes. 
Lisboa: Avante; Moscovo: Progresso, 1985, p. 228, (Coleção obras escolhidas). 
naturais de sua formação, mas sim condições econômicas, exemplificada 
 
nomeadamente na vitória da propriedade privada sobre a originária propriedade 
Comum natural. Dominação do homem na família e procriação de filhos que só 
pudessem ser seus e que estavam destinados a tornar-se herdeiros da sua riqueza 
eram os únicos objetivos do casamento singular, conforme os gregos exprimiam sem 
rodeios. De resto, o casamento singular era para eles um fardo, uma obrigação para 
com os deuses, o Estado e os seus antepassados.
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A história para Marx e Engels não se prende à simples análise das idéias, das 
atitudes e mudanças que ocorrem com detenninados governos, regimes políticos e Estados. 
Ela é um processo complexo da luta de classes, do desenvolvimento das forças produtivas, 
das relações de produção e das forças políticas da dominação. O lugar onde se "desenrola" a 
história não está restrito ao ambiente das elites, do governo ou do Estado, mas alcança a 
sociedade civil, aqui entendida num sentido amplo de relações sociais em que ocorre o 
processo de reprodução das condições materiais de existência. 
Para Marx e Engels, em A ideologia alemã, as formas de propriedade estão em 
relação direta com as diferentes fases da divisão do trabalho, \u201cou seja, cada uma das fases da 
divisão do trabalho determina também as relações dos indivíduos entre si no que respeita ao 
material, ao instrumento e ao produto do trabalho\u201d.22 
A divisão do trabalho manifesta-se de diversas fonnas; ocorre entre o homem e a 
mulher, com o trabalho industrial e comercial do trabalho agrícola, cidade x campo, entre 
trabalho intelectual e material, mais tarde entre trabalho industrial e trabalho comercial e, 
concomitantemente, entre outras tantas formas de propriedade. 
Com a divisão social do trabalho tem-se a propriedade privada, o Estado, a 
alienação da atividade social. Marx e Engels creditam à divisão do trabalho o surgimento das 
contradições. As contradições já estão presentes na divisão natural do trabalho nas primitivas 
famílias, quando estas estão separadas e a família é, em essência, o poder do homem sobre a 
mulher, os filhos, os escravos. A propriedade tem aí sua origem, ou seja, a escravatura no seio 
da família é a expressão dela. 
Para os autores em discussão, tanto a divisão do trabalho como a propriedade 
privada são expressões idênticas. A divisão do trabalho enuncia-se em relação à atividade 
desenvolvida pelos homens, enquanto a propriedade privada refere-se ao produto desta 
atividade. 
Resumidamente as formas de propriedade para Marx e Engels são: (1) 
 
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 ENGELS, Friedrich. Op. cit., p. 269. 
22
 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Moraes, p. 17. 
propriedade tribal; (2) propriedade comunal e estatal antiga; (3) propriedade feudal, ou de 
Estados, ou de ordens sociais; e (4) propriedade moderna burguesa. 
À primeira forma da propriedade corresponde uma fase não desenvolvida da 
produção, em que a divisão do trabalho pouco está desenvolvida, limitada à divisão natural do 
trabalho existente na família. Pressupõe uma grande área de terra ainda não cultivada e o 
sistema de escravidão. 
Na segunda forma de propriedade, o ponto de partida para sua caracterização é a 
cidade (união de várias tribos que a compõem), na qual continua a escravatura e germina a 
propriedade privada móvel e mais tarde a imóvel, como forma anormal e subordinada à 
propriedade comunal. Aqui já se tem uma divisão do trabalho num nível mais avançado, com 
o antagonismo cidade-campo instaurado, bem como o das classes senhores-escravos. 
Como na segunda forma de propriedade, na terceira tem-se também uma 
associação da classe dominante em face da classe produtora dominada, com diferenças apenas 
no tocante às condições de produção, e o ponto de partida para sua caracterização é o campo. 
A forma de propriedade feudal, que tem no campo sua origem, arrasta para a cidade a sua 
estrutura. Enquanto no campo a propriedade por excelência é a fundiária e o trabalho do servo 
preso a ela, na cidade, a propriedade que se manifesta é a propriedade do próprio trabalho 
com um pequeno capital- corporações - a dominar o trabalho dos oficiais. 
Por fim, tem-se a propriedade burguesa moderna, reflexo de uma grande divisão 
do trabalho. 
Para Marx e Engels, há uma relação entre os instrumentos de produção e as 
formas de propriedade. Os instrumentos de produção podem ser divididos em: (1) 
instrumentos de produção naturais; e (2) instrumentos de produção criados pela civilização, 
dos quais fazem parte tanto as máquinas como o próprio homem, pois ele se encontra como 
criador dos instrumentos de produção e também como um deles. 
No caso dos instrumentos de produção naturais, em que os indivíduos estão 
subordinados à natureza, a propriedade da terra manifesta-se como domínio natural direto. 
Nesse caso, em que a divisão entre o trabalho material e intelectual ainda não ocorreu, o 
domínio do proprietário sobre os não-proprietários tem como base relações pessoais num 
contexto comunitário. Já com os instrumentos de produção criados pela civilização, os 
indivíduos estão subordinados a um produto do trabalho, em que a propriedade da terra surge 
como domínio do trabalho, do trabalho acumulado, do capital; e o domínio que o proprietário 
exerce adquire uma forma concreta - o dinheiro. 
Partem, Marx e Engcls, dos instrumentos de produção para mostrar a necessidade 
da propriedade privada para certas etapas industriais, ou seja, que no caso dos instrumentos de 
produção criados pela civilização a indústria existe apenas na e pela divisão do trabalho. Uma 
avançada divisão do trabalho e a fonna moderna de propriedade privada viabilizam a grande 
indústria, que é a expressão de todo esse processo. 
Nas etapas industriais, a propriedade manifesta-se de diferentes formas. Na 
indústria extrativa, a propriedade privada ainda está ligada apenas ao trabalho desenvolvido. 
Na pequena indústria e na agricultura, "a propriedade é conseqüência necessária dos 
instrumentos de produção existentes". 
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Uma das discussões que surgem é saber se a propriedade privada da terra do 
pequeno agricultor é, ou não, semelhante à grande propriedade da terra ou ao capital 
industrial, visto que, na agricultura, em todos os tempos, para Marx e Engels, a propriedade é 
conseqüência necessária dos instrumentos de produção de uma determinada época. 
O pequeno proprietário fundiário, por mais que seja proprietário, nada possui se 
não tiver capital suficiente para desenvolver sua atividade. Sem capital para o cultivo, a 
propriedade privada da terra - do pequeno produtor - não configura nada diferente do simples 
proprietário urbano, detentor apenas da sua força de trabalho - proletariado. O pequeno 
proprietário também, produzindo ou não, está inserido no complexo processo de produção do 
modo de produção capitalista. O isolamento destes, como fator limitador de sujeitos da 
história, não é muito maior que o do proletariado urbano.
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Marx e Engels afirmam que a divisão social do trabalho é uma das principais 
forças da história, e mostra várias faces no seu decorrer. Na transição da barbárie para a 
civilização, da tribo para o Estado, ocorre a maior divisão do trabalho material e intelectual 
que se manifesta pela separação da cidade e do campo. Com a cidade cria-se toda uma 
estrutura urbana em oposição ao campo, que vive em condições de um maior isolamento,
Rafael
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