Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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imortalidade era essencialmente uma prerrogativa real, mas acabou-se por considerar 
que a imortalidade seria conferida a todos que pudessem imitar esses ritos.\u201d WHITROW, G.J. O tempo na história - 
concepções do tempo da pré-história aos nossos dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, p. 38-39. 
previsível: ao contrário do fenômeno verificado no Egito, os rios da Mesopotâmia \u201ctêm com-
portamento muito menos uniforme que o Nilo. Os habitantes da antiga Mesopotâmia eram 
obrigados a enfrentar variações climáticas, ventos cortantes, chuvas torrenciais e enchentes 
devastadoras, que escapavam a seu controle\u201d.21 Disso decorria a impossibilidade de credo em 
um ritual de fundo cíclico quanto à vida e à morte. Enquanto no Egito \u201co faraó simbolizava o 
triunfo de uma ordem divina inabalável sobre as forças do caos, na Mesopotâmia a monarquia 
representava a luta de uma ordem humana, com todas as suas ansiedades e fragilidades, para 
se integrar ao Universo\u201d.22 
Essa variação no sistema de crenças terá reflexos na política e na economia desses 
povos do Oriente próximo. 
 
3.2 Política 
 
A principal característica comum da organização política das civilizações aqui 
analisadas consiste no fato de que ambas desenvolveram a monarquia como forma de 
governo. As diferenças, entretanto, neste terreno, são muito mais evidentes. 
A primeira dessas distinções diz respeito à dicotomia fragmentação/ unidade do 
poder político. No Egito, desde a consolidação da unificação dos reinos do Sul e do Norte (c. 
3100 a.C.) até o final dos períodos de predomínio persa (525-404 e 343-332 a.C.) e início da 
dominação romana (30 a.C.), consolidou-se uma monarquia unificada, com um poder central 
bastante definido, titularizado pelo faraó, e com uma capital instalada em determinada cidade 
do reino (que podia ser Mênfis, Tebas, Sais, entre outras). Ainda que alguns períodos de 
instabilidade interna ou invasão externa possam ter abalado a vida política do reino, é notável 
a durabilidade da estrutura centralizada do antigo Egito.
23
 Num período de aproximadamente 
3000 anos - observa José das Candeias Sales -, é extraordinário \u201co fato de, durante todo esse 
tempo, a tendência de concentração política ter sempre conseguido sobrepor-se à tendência de 
fragmentação favorecida pela própria configuração longitudinal do país\u201d.24 Conclui, então, o 
 
21
 Idem, p. 43. No mesmo sentido, CARDOSO, Ciro Flamarion. Antigüidade oriental- política e religião. Op. cit., p. 40. 
22
 WHITROW, G.J. O tempo na história - concepções do tempo da pré-história aos nossos dias. Op. cit., p. 44. 
23
 Havia, convém notar, uma divisão administrativa no reino egípcio. O território era dividido em \u201cnomos\u201d, 
expressão que pode ser traduzida como \u201cdistrito\u201d, ou \u201ccircunscrição administrativa\u201d. Cada nomo preservava ritos 
e divindades próprias, sua extensão territorial variava em razão das fronteiras externas do reino e havia um 
governador (nomarca) designado pelo poder central. Mesmo quando o nomarca possuía, eventualmente, certa 
liderança política e autonomia administrativa, a regra, no Egito antigo, era a centralização do poder. Não havia, 
ao menos de forma duradoura, questionamento e desafio do poder do faraó pelos representantes dos nomos. Cf.: 
ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade - a literatura no Egito faraônico. Op. cit., p. 408. 
24
 SALES, José das Candeias. A ideologia real acádica e egípcia - representações do poder político pré-
clássico. Lisboa: Estampa, 1997, p. 19. 
mesmo autor: \u201cmais extraordinário ainda é o fato de, durante os mais de três milênios, a 
realeza egípcia nunca ter sido verdadeiramente posta em questão\u201d.25 
Evidentemente, a experiência política na Mesopotâmia era diversa; desde seus 
primórdios, essa civilização optou pela fundação de cidades - comumente designadas cidades-
estado - com alto grau de independência. Cada cidade tinha seu governante, seus órgãos 
políticos, e, muitas vezes, seu próprio exército. Logo, na região da Suméria havia as cidades 
de Ur, Uruk, Lagash e Larsa, entre outras; na Babilônia, além da cidade do mesmo nome, 
podem ser mencionadas Kutha, Kish, Borsipa; na região da Acádia, além da capital 
homônima, as cidades de Esnunna e Sippar. E, por fim, na Assíria, as cidades de Nínive, 
Assur e Nuzi tinham algum destaque. Todas essas cidades possuíam soberanos e divindades 
próprios. É nítido, então, o contraste entre unidade do exercício do poder político, no antigo 
Egito, e a fragmentação desse poder entre as várias cidades da Mesopotâmia.
26
 
Uma segunda distinção deve ser citada, e diz respeito ao papel conferido aos 
soberanos. Talvez por influência da regularidade nas manifestações da natureza - 
especialmente das águas do Nilo -, e a criação de um rito de imortalidade a ser cumprido pelo 
faraó (imitando o deus Osíris), consagrou-se, no Egito, a concepção de que o monarca não era 
um simples representante divino na Terra. Ele era o próprio deus. Trata-se do fenômeno 
intitulado teofania. Como descrito por Ciro Flamarion Cardoso, \u201cO rei, chamado faraó (per-
aa: a \u201egrande casa\u201f ou \u201epalácio\u201f), rei-deus, encamação do deus Hórus e - sistematicamente a 
partir da V dinastia, embora o título apareça antes - filho do deus solar Ra, entre muitos outros 
títulos, era o mais absoluto dos monarcas\u201d.27 
De modo absolutamente contrário - e cabe recordar, aqui, as diferenças no 
comportamento das águas dos rios que ocupam papel central nas duas civilizações -, na 
Mesopotâmia, com a instabilidade natural já descrita e a fragmentação do poder político entre 
vários monarcas (os quais, freqüentemente, guerreavam entre si), era simplesmente impos-
sível fundar a dominação do rei com base na assunção de uma divindade. Na verdade, a 
monarquia, nas cidades do Tigre e do Eufrates, assumiu um caráter mais humano. O rei era, 
tão-somente, um representante de deus (a divindade escolhida pela cidade) na terra. E, nesse 
contexto, estava também submetido a limitações e contingências típicas de qualquer ser 
 
25
 SALES, José das Candeias. Op. cit. 
26
 Ver, a esse respeito, BRAUDEL, Fernand. Memórias do Mediterrâneo \u2013 Pré-história e Antigüidade. Trad. 
Teresa Antunes Cardoso et. al. Lisboa: Terramar, 2001, p. 86-87. 
27
 CARDOSO, Ciro Flamarion. Sete olhares sobre a Antigüidade. Op. cit., p. 79. Vale transcrever, ainda, um 
excerto de uma das obras mais antigas da literatura, uma ode fúnebre intitulada \u201cTextos das pirâmides\u201d: \u201cO rei 
dá ordens, o rei concede dignidades, o rei distribui as funções, o rei dá oferendas, o rei dirige as oblações - pois 
tal é, de fato, o rei: o rei é o único do céu, um poderoso à frente dos céus!\u201d. In: CARDOSO, Ciro Flamarion. 
Antigüidade oriental - política e religião. Op. cit., p. 43. 
humano. Um interessante ritual praticado na Babilônia ressalta essa característica.
28
 
 
3.3 Economia 
 
No plano da economia, há dois aspectos comuns que são essenciais, até mesmo 
como elementos distintivos entre a evolução dos povos que habitavam a Mesopotâmia e o 
Egito e daqueles que estavam além de suas fronteiras: a utilização do solo para plantio e o 
crescente emprego da navegação como meio de transporte de mercadorias. No entanto, é 
fundamental ressaltar que o Egito era rico em vários produtos de origem mineral - ouro, 
cobre, sílex, ametista e granito para construção -, mas pobre em madeira, que era importada 
da região da Fenícia, por meio do porto de Biblos.
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 Além disso, as condições de irrigação e 
drenagem do solo eram bastante favoráveis na extensão do Rio Nilo,
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 ao passo que na 
Mesopotâmia havia carência, em regra, de minerais (com exceção do cobre) e o solo, ainda 
que bastante