A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
125 pág.
A construção do caso clinico- Revista Curinga

Pré-visualização | Página 12 de 42

e na mídia, partici-
pam, também, desse mesmo desaparecimento da clínica – no sentido clássico do
termo – em benefício de novas categorias de gozo, sem, no entanto, aceitar indi-
car em que elas consistem.
Para nós, esses termos não são noções totalmente novas. Encontra-mos
em Freud e em Lacan algumas referências úteis para situá-las corretamente e mui-
tos dos nossos colegas do Campo Freudiano tentam tirar suas consequências disso.
É preciso, sem dúvida, desenvolvê-las mais. Esse é, aliás, o projeto das próximas
Jornadas da ECF sobre a depressão, e leremos com interesse a apresentação de P.
Skriabine na Lettre Mensuelle da ECF. Ali, onde uma certa clínica recente promove
um desenvolvimento massivo, literalmente um desenvolvimento de massa (quem
ainda pode dizer que não está com depressão, a partir do momento que esse é o
próprio nome da falta-a-ser do sujeito?), Skriabine se propõe questionar, em oposi-
ção ao termo depressão, os elementos diferenciais de que dispomos a partir de
Freud e Lacan: luto, melancolia, tristeza, inibição..., como respostas variadas do
sujeito a essa falta radical. Poderiam, esses termos, tornarem-se sintomas no senti-
do analítico do termo? Sem dúvida que não. É preciso lembrar que, em Freud, e no
primeiro tempo do ensino de Lacan, o sintoma em psicanálise é, antes de mais nada,
uma formação inconsciente, ou seja, ele é determinado pelo processo de recalque e
retorno do recalcado, o que Lacan lê com o seu uso da metáfora. Ele é também,
logo de início, dissimulado do resto de um gozo primário, pulsional, que o fixa
como tal. Isso pode ser lido desde a escrita feita por Freud do caso Dora e precisa-
do numa nota de 1923. Lacan o escreve em seu matema do discurso do mestre, que
é também o do inconsciente: S1 S2
$ a
Revista Curinga | EBP - MG | n.13 | p.32-38 | set. | 1999
Psicanálilse e Saúde Mental
|34|
O sintoma do sujeito ($) encontra suas significações a partir da cadeia
significante (S1 S2), dos deslocamentos e condensações, metonímia e metá-
fora que traçam seu destino particular. Mas ele somente encontra seu valor sig-
nificante de gozo para o sujeito naquilo que escapa, como queda e produção
desse discurso num resto de gozo: (a).
Com isso, o que podemos dizer das novas formas de patologia? Várias
observações se impõem aqui. Primeiramente, é preciso dizer que uma certa
moda ou até mesmo uma facilidade médica influem no debate. As perturbações
do humor vêm após a onda, sobretudo americana, da esquizofrenia e do autis-
mo.
Isso não traz um novo interesse pelo debate, mas é preciso que o cons-
tatemos. Em segundo lugar, anorexia, depressão, personalidade narcísica e toxi-
comania aparecem mais como comportamento que como sintomas. A questão
não é comer ou vomitar, estar triste e cansado, produzir uma demanda insaciá-
vel ou querer gozar imediatamente, sem a difícil aparelhagem dos sexos. O sin-
toma analítico interroga o ser e apresenta-se como resposta do sujeito, enquan-
to que essas patologias não se apresentam como uma questão colocada a partir
da falta-a-ser e sim, como uma maneira de ser e até mesmo de viver, ou seja, de
gozar. O que não é a mesma coisa. A esse respeito, digamos que o autismo se
apresenta, sobretudo, como uma situação grave que é uma maneira de não ser.
Quanto à psicossomática, ela é do domínio de fenômenos que surgem no corpo,
sem que nada demonstre que se possa imputar responsabilidade ao sujeito. É
mais uma resposta (de gozo localizado noutro lugar) cuja pergunta inexiste
(recalcada) e da qual não sabemos muito bem quem a formula. 
Em terceiro lugar, a nossa própria clínica psicanalítica se modificou.
As grandes histerias de conversão são raramente vistas. Os obsessivos certamen-
te evoluíram menos, mas talvez eles precisem de mais tempo. Essas modificações
desorientaram os psicanalistas da IPA e os levaram à invenção da clínica dos
boderlines. Mas, será que, do nosso lado, nós as levamos suficientemente em
conta? Como reintegrar, então, em nossa clínica, esses comportamentos, essas
situações graves ou esses fenômenos?
A anorexia talvez seja a mais próxima do sintoma analisável. Servir-se
de uma recusa (de comer) como de um desejo (em oposição à papinha sufocan-
te que empanturra), como se exprime Lacan na Direção do tratamento e os princípios
de seu poder a inscreve no processo do recalque e das falhas da demanda. No
mesmo texto, Lacan nos dá também a fórmula pulsional, a expressão do gozo:
trata-se menos de não comer que de comer “nada”. Devemos hoje fazer valer,
nas sobras dessas confusas clínicas pós-psiquiátricas, uma clínica da diferença:
protestação ou oposição temporária não são recusas que valem “como” um
desejo; delírio de envenenamento ou catatonia esquizofrênica, que podem levar
o sujeito a parar de se alimentar, formam destinos diferentes; desejo de emagre-
Revista Curinga | EBP - MG | n.13 | p.32-38 | set. | 1999
|35|
Alexandre Stevens
cer que leva o sujeito a se submeter a diversas formas de regime alimentar, para
alcançar a forma ideal na imagem que é dada pelos nossos suportes mediáticos;
dificuldades da alimentação do lactente; ou ainda a autêntica anorexia, da qual
nos lembra Lacan, num texto publicado em Ornicar?, que não é um privilégio dos
sujeitos femininos. A anorexia (autêntica) é, sem dúvida, para nós, sintoma de
uma histeria que fracassou ao se instalar num desejo insatisfeito.
O boderline, ou estados limites, muito próximo das personalidades nar-
císicas desenvolvidas especialmente na IPA pelos teóricos do self – Kohut e
Kernberg –, indica menos uma nova forma de sintoma que uma impotência dos
analistas da IPA com relação à entrada em análise.
Poderíamos quase dizer que se trata de uma patologia fabricada pelas
posições dos últimos tempos da obra de Ferenczi. A demanda de amor sempre
se encontrou no centro do tratamento analítico. A partir do momento em que a
obra freudiana e a invenção lacaniana do Sujeito-Suposto-Saber como motor da
transferência suspeitam do valor do amor3, o trabalho da análise se torna possí-
vel. Se o psicanalista deixa de suspeitar disso – tal foi o caso do último Ferenczi,
ele é levado a responder à demanda de amor sob a forma desse holding em voga
em certas correntes da IPA. Com isso ele não pode mais sair da sua resposta.
Com a “retificação das relações do sujeito com o real”, formulada por Lacan na
Direção do tratamento e os princípios do seu poder como entrada em análise, temos, sem
dúvida, uma melhor orientação de trabalho, o que não impede que questões
tenham que ser colocadas, especialmente, talvez, na clínica em instituições de
saúde mental, a propósito de sujeitos cujo diagnóstico entre neurose e psicose
permanece difícil por um certo tempo. A questão induzida por essa nova “cate-
goria” se mantém, assim, bastante real e nova, pois os psicanalistas se interessam
hoje por patologias e situações que outrora tornavam a psicanálise contraindica-
da. De toda maneira, a demanda de amor não é um sintoma no tratamento ana-
lítico; ela é, antes, resistência à elaboração da questão do sujeito.
A depressão, tornada hoje, sob a forma de perturbações do humor, o
funil por onde passa toda a clínica psiquiátrica atual, merece, sem dúvida, uma
clínica diferencial que lhe renove o interesse. Lembremos que, em Televisão,
Lacan a define como covardia moral, o que não é insulto a nenhum paciente: a
covardia é uma questão do discurso onde a situamos. A ECF escolheu fazer
disso o tema das suas próximas Jornadas, onde talvez encontremos respostas.
Mas a questão permanece aberta: o termo convém para situar um sintoma ana-
lítico? Podemos certamente dizer ao deprimido: você se apega ao seu cansaço –
ou à sua tristeza ou ao seu tédio – mais do que a você mesmo. Mas, podemos
fazer disso um sintoma? Não sem uma clínica diferencial, ou seja, sem valorizar
as declinações desse afeto no discurso dos sujeitos considerados um a um.
Na toxicomania, há,

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.