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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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tos enunciados definidos como funções proposicionais. São enunciados que,
embora apresentem uma estrutura constante, possuem furos que podem ser
preenchidos por argumentos ou variáveis.
Sabemos que, para o Lacan da assim chamada primeira clínica, a uni-
dade mínima da estrutura de linguagem é o significante. O termo que vem inde-
xar o diagnóstico diferencial das estruturas clínicas refere-se à eficácia ou à falên-
cia da função significante da metáfora, o que nos leva a pensar a estabilização da
psicose a partir da metáfora delirante, que encontramos descrita na análise do
texto de Schreber. É em razão da ausência de qualquer esboço de metáfora ou
de construção delirante, no caso de Davi, que proponho recorrer aqui a uma clí-
nica da frase. Trata-se de um dispositivo que nos faculta pensar os fenômenos
de desencadeamento e de estabilização não mais a partir de uma operação sobre
o significante, mas sobre os modos de enodamento, numa sentença do simbóli-
co, do imaginário e do real. Se Frege é para nós bem-vindo, é porque esse autor
se baseia na convicção, explicitada em sua conceitografia (Begriffsschrift), de que a
menor unidade linguística é a frase ou a sentença. As palavras só possuem signi-
ficado no contexto da proposição.
Mas Frege vai ainda mais longe, sugerindo-nos diferenciar a proposi-
ção, definida como uma frase ou forma linguística que exprime algo falso ou ver-
dadeiro (por exemplo, “Sócrates é mortal”), do esqueleto lógico da proposição
ao qual ele dá o nome de função, e que Russel preferirá chamar de função pro-
posicional3. Afirmações do tipo “O rei da França é calvo”, ou então: “sejam
quais forem os valores de a e b, (a + b)² = a² + 2ab + b²”, são proposições, posto
que elas exprimem um valor de verdade passível de ser verificado. Já a fórmula
“(a + b)² = a² + 2ab + b²”, tomada isoladamente, não é nem verdadeira nem
falsa, a menos que atribuamos valores às variáveis. Trata-se, pois, de uma função
proposicional que tem um sentido, mas não tem um significado, por não admi-
tir um valor de verdade. Os objetos que se inscrevem como variáveis são, assim,
as instâncias de verdade que transformam a função proposicional numa proposição.
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Vê-se claramente que Frege institui uma lógica que rompe fundamen-
talmente com a perspectiva aristotélica, cuja estrutura baseada na fórmula “sujei-
to cópula predicado”, serve-se indevidamente de categorias gramaticais. Em sua
exigência de estabelecer, de maneira definitiva, o calculus ratiocinatur desejado por
Leibniz, Frege não admite equívocos que permitem fórmulas contaminadas pela
gramática, que por vezes enunciam o mesmo significado de dois modos diferen-
tes (por exemplo: “Todo P é S” equivale a “Todo S é P”). Para pensar a lógica
numa perspectiva totalmente interna, sem incorrer na ambiguidade provocada
pelas categorias gramaticais da linguagem, Frege propõe substituir as relações
lógicas de sujeito e predicado pelos termos de argumento e função. Em que pese
o relativo fracasso do programa de Frege, cuja estabilidade se verá irremediavel-
mente abalada pelo paradoxo de Russel, vejamos o que podemos extrair da fun-
ção proposicional concebida como uma “phrase à trous”, um esqueleto lógico
como forma constante dotada de sentido, mas não de significado. Segundo pro-
põe G. Morel, se o sujeito, como falta a ser, é susceptível de ser pensado como
o próprio furo da função assinalada, a variável x seria o argumento que o repre-
senta na relação com o gozo que a frase determina. Se considerarmos os efeitos
catastróficos de um surto psicótico ao modo de um gozo deslocalizado, não
deixa de ser interessante conceber a estabilização como efeito de atribuição de
uma variável que converte essa frase com furos, que rege o destino do sujeito,
numa proposição contendo um valor de verdade ou significado. Eis porque, ao
que nos parece, quando alguém sofre uma desgraça, ele se precipita em procu-
rar o conteúdo concreto de uma culpabilidade para justificar o que lhe ocorreu.
O pecado solicitado nada mais é do que a variável requerida pelo sujeito, para
estabilizar a frase que o implica num efeito de significado. Só Deus sabe o quan-
to o discurso religioso se serve dessa estratégia para consolar nossas pobres
almas! A frase, que isolamos nos “actings-out” em que se precipita violentamente
Davi – “ser um x que instaura uma ordem y num espaço z” – corresponde assim,
a nosso entender, à sua tentativa de sair do estado de exclusão absoluta no qual
ele se viu marcado. Davi procura criar um espaço de inclusão, cuja consistência
é dada por uma lei de sustentação imaginária, como se deduz pela maneira como
seu culto ao corpo lhe confere a imagem necessária para se apresentar como
garantidor da ordem. Trata-se, sem sombra de dúvida, de uma solução extrema-
mente precária, como tal fadada ao fracasso, sendo até ilegítimo chamá-la de
estabilização. Seu sistema rui completamente ao menor desvio, sem admitir
nenhuma ruptura ou remanejamento. Não há, no domínio do imaginário, qual-
quer meio termo entre o caos e a boa forma. Se o hospital psiquiátrico corres-
ponde ao espaço x em que Davi diz se sentir em casa, e no qual ele busca ser o
garantidor da ordem, cabe refletir sobre o fato de ter sido num hospício que
Davi perdeu sua mãe, e que ele acredita ter nascido nesse local no mesmo
momento em que ela faleceu. Quanto ao período de estabilização atual, tudo o
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A colisão da frase: observações sobre um relato clínico de psicose
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que constatamos é que a ele corresponde, como bem notou Frederico Feu, um
alongamento do período de depressão, intercalado entre o estado inicial de agi-
tação e o momento do acting-out. Sabemos, igualmente, que, nesse período de
depressão, Davi medita sobre a sua difícil vida familiar e que isso o entristece
profundamente. Não me arrisco a supor o que nesse momento acontece, mas
algo mudou em sua relação com a lei, poupando-o, como sugere seu analista, da
necessidade imperiosa de ter de encarná-la. Talvez, de fato o período de interna-
ção na Pinel, com suas normas mais rígidas, tenha efetivamente presentificado
para Davi uma lei sem desvios, assim como o limite das outras instituições em
suportar suas atuações. Mas, o mais importante parece-me ter sido o fato de seu
analista, contrariando o contínuo movimento de exclusão que Davi provoca, ter
reconhecido a sua persistência em se fazer valer.
NOTAS
1 SILVESTRE, M. Um psicótico em análise. In: Amanhã a Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1991, p. 141.
2 MOREL, G. O sintoma em uma frase. In: Opção lacaniana, São Paulo: Eólia, Dezembro 1998, n.
23, pp. 25-28.
3 FREGE, G., Fonction et concept. In: Écrits logiques et philosophiques, Paris, Seuil, 1971, p. 80 et sq.,
assim como RUSSEL, B. Les fonctions propositionnelles, In: Introduction à la philosophie mathéma-
tique, Paris, Payot, 1991, p. 293 et sq.
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