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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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que o mais importante na vida, com respeito à
saúde mental, é andar bem pela rua. E ainda atravessá-la, cruzá-la, sem ser atro-
pelado. No uso comum que temos em Paris – o senso comum, ademais, sempre
tem razão – a maneira de expressá-lo é dizer que não se poderia confiar em
determinada pessoa para atravessar a rua com uma criança. Parece-me um ver-
dadeiro critério de saúde mental.
Podemos ver assim, por exemplo, que no campo, quando não havia ruas
e menos ainda automóveis, os modelos da saúde mental eram muito mais relaxados
do que hoje nas cidades, onde há uma circulação automobilística intensa. E quanto
mais intensa, mais exigente é a saúde mental. Não sei se isso teria comprovação
estatística; é um tema que poderíamos propor aos nossos amigos cientistas: a cor-
relação entre os modelos da saúde mental e o estado da circulação dos veículos.
Sabe-se, também, que existem aqueles que já não tornam a sair de casa.
Mas isso molesta também a ordem pública, no âmbito da família. Pode ser um
signo importante que um adolescente, por exemplo, fique encerrado em seu
quarto. Isso pode fazer suspeitar algo desde o ponto de vista da saúde mental. E
se não tem família, uma pessoa que nunca sai à rua incomoda o porteiro –
importante personagem da vida na cidade. Todo mundo sabe que há de se ter
boas relações com o porteiro. É uma brincadeira, mas é verdade que, em relação
à saúde mental, trata-se sempre do uso, do bom uso da força.
Parece-me, ademais, um fato de experiência, segundo o testemunho
daqueles que trabalham nas instituições correspondentes, que a saúde mental é,
fundamentalmente, uma questão de entrar, de sair e também de voltar. De outro
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modo trata-se de fugas. Voltar, depois de haver saído, é essencial à ordem públi-
ca. Voltar para casa para dormir, por exemplo, pode evitar um divórcio. O pro-
blema central, na prática da saúde mental, é quem se pode deixar sair e que,
podendo sair, volte para tomar a medicação. Os trabalhadores da saúde mental
são aqueles que decidem se alguém pode circular entre os demais pelas ruas, em
seu país, entre os países, ou se, pelo contrário, não pode sair de casa, ou se só
pode sair para ir ao hospital-dia, ou se não pode sair do hospital psiquiátrico. E
fica por decidir se há de estar amarrado, porque, em alguns casos, a periculosi-
dade é rebelde à medicação.
Os trabalhadores da saúde mental se reconhecem próximos aos da
polícia e aos da justiça, que são trabalhadores também. E essa proximidade os
ofusca, tratam de alinhar-se em outro lado, mas isso é também uma confissão. A
saúde mental tem, portanto, como objetivo – não posso imaginar outro – o de
reintegrar o indivíduo à comunidade social.
Mas, ao mesmo tempo, conformar-nos em estabelecer a equivalência
entre saúde mental e ordem pública não é suficiente como, de fato, demonstra a
diferença entre essas categorias de trabalhadores. Há perturbações das quais se
incumbe à saúde mental e outras que concernem à polícia ou à justiça. Devemos
nos perguntar qual é o critério que situa o indivíduo de um ou outro lado – da
saúde mental e da ordem pública.
Esse critério operativo é a responsabilidade. É o castigo. Lacan escre-
ve que a responsabilidade como castigo é uma das características essenciais à
ideia do homem que prevalece numa sociedade dada. E talvez possa parecer sur-
preendente que, em seus Escritos, haja um texto sobre Criminologia e Psicanálise.
Mas, ao contrário, Lacan acentua a responsabilidade como um conceito essencial
na distribuição da saúde mental, a ordem pública e a psicanálise.
A noção crucial, então, para o conceito de saúde mental, é a decisão
sobre a responsabilidade do indivíduo. Isto é, se é responsável e se pode castigá-
lo ou, pelo contrário, se é irresponsável e se deve curá-lo. Parece-me bastante evi-
dente que a melhor definição de um homem em boa saúde mental é que se pode
castigá-lo por seus atos. É uma definição operativa, não ideal. Ceaucescu, por
exemplo, não tem boa saúde mental, não se pode castigá-lo. Se alguém o chama
de paranoico, será preso em seu lugar. É o tema a que pretendo aludir quando a
encarnação, o próprio poder de castigar, está em posição de escapar ao diagnós-
tico da saúde mental.
E, o que significa irresponsabilidade? Significa que os demais têm
direito de decidir por alguém, isto é, que se deixa de ser um sujeito de pleno
direito. O termo sujeito, portanto, não se introduz a partir do mental, mas a par-
tir do direito. E pode-se ver, aí, a imagem mesma do totalitarismo: que outro
decide sempre e que, em um Estado semelhante, são todos os demais que estão
loucos. A prova é que não podem sair do país.
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Jacques-Alain Miller
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Mas centremo-nos nessa ideia de irresponsabilidade. É irresponsável
quem não pode dar razão a seus atos, quem não pode responder por eles. A pró-
pria palavra “responsabilidade” inclui resposta, é a mesma raiz. A responsabili-
dade é a possibilidade de responder por si mesmo. Se, para a psicanálise, é tão
interessante a Criminologia é porque coloca o problema de se a enfermidade
mental chega a suspender o sujeito de direito. 
E aqui podemos corrigir nossa primeira equivalência, para dizer que a
saúde mental é parte do conjunto da ordem pública, uma subcategoria. Por
exemplo, pode-se notar que a neurose obsessiva é perfeitamente compatível com
ela. Até o ponto, inclusive, de podermos nos perguntar se os inventores da
ordem pública não foram neuróticos obsessivos. Um juiz que pensa todo o
tempo no ato sexual nem por isso deixa de atuar como juiz. Pode julgar perfei-
tamente e, entretanto, não ter outra coisa em seu pensamento que obsessões
sexuais. Também a paranoia, às vezes, é perfeitamente compatível com a ordem
pública, mais em umas profissões que em outras. Somente de um paranoico
pude escutar dizer, em meu consultório, que estava em perfeita saúde mental.
Não sei se isso poderia dizê-lo alguém que não fosse paranoico.
Creio, então, que, nesse ponto, já podemos tomar uma posição unívo-
ca a respeito da relação da psicanálise e a saúde mental: o psicanalista, como tal,
não é um trabalhador da saúde mental e talvez seja esse, precisamente, o segre-
do da psicanálise. Apesar do que se possa pensar e dizer para justificar esse papel,
em termos de utilidade social, o segredo da psicanálise é que não se trata de
saúde mental. O psicanalista não pode prometer, não pode dar a saúde mental.
Só pode dar saúde: saudar2 o paciente que vem ao consultório. Ademais, quan-
do funciona bem, é ele que fica ali, encerrado como se retirasse a si mesmo de
circulação.
Em psicanálise tem muita importância saudar bem. Diz-se, por exem-
plo, que em sua última época, a sessão lacaniana se reduzia a uma saudação.
Talvez a saudação analítica seja o essencial. Poderíamos, então, opô-la à saúde
mental. Vi isso recentemente porque alguém, a quem não havia saudado bem,
pediu-me uma análise muito pouco tempo depois. Trata-se de que a saudação
incide na própria prática, sem que se possa antecipar o resultado imediatamente.
Nisso radica a diferença entre psicanálise e saúde mental. E nisso se
pode interrogar a utilidade da psicanálise, porque, do ponto de vista da ordem
pública, segundo se diz, a gente que se analisa tem boa saúde. A diferença e, tal-
vez, o paradoxo desse ponto de vista, é que a psicanálise é um tratamento que se
dirige ao sujeito de direito como tal, ao sujeito de pleno direito. Isto é, nosso tra-
balho se dirige a enfermidades mentais – se querem chamá-las assim – nas quais
há um sujeito de pleno direito. Um sujeito que responde pelo que faz e pelo que
diz até o ponto de saber que, se não pode fazê-lo, as coisas não vão bem. Não
lhe parece que seja uma bobagem dizer e fazer coisas pelas quais não pode res-
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Saúde Mental

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