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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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e Ordem Pública
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ponder. Aqueles que se introduzem no ensino de Lacan podem situar o termo
sujeito a partir dessa dimensão de resposta, de capacidade de resposta. O sujei-
to de direito, tomado assim na vertente da resposta, é o sujeito da enunciação,
como dizemos, utilizando o termo linguístico. O sujeito que responde por seu
enunciado, para o qual é necessário não se confundir com ele.
A condição, então, para distinguir o sujeito da enunciação é que pode
tomar distância com respeito ao que ele mesmo enuncia. É o sujeito que pode
notar que disse algo, porém que não sabe por que ou que não crê no que disse,
ou sabe que é uma brincadeira ou que pensa o contrário do que diz. O sujeito
capaz de julgar o que diz e o que faz. A partir da conexão entre saúde mental e
ordem-pública-responsabilidade-direito-resposta, pode-se entender a importân-
cia, o lugar destacado que Freud deu ao conceito, tão surpreendente talvez, que
é o de sentimento de culpa.
O sentimento de culpa é, propriamente, o pathos da responsabilidade,
a patologia essencial do sujeito. E qual é seu sentido? Que me sinto responsável
por não sei o quê. E pode-se dizer que é uma pré-condição da prática analítica.
De certo modo, então, comprovar sua existência ou produzi-la é o objetivo das
entrevistas preliminares. Trata-se do sentimento de culpa enquanto afeto do
sujeito do inconsciente. E quando comprovamos que existe, podemos dizer que
há um sujeito capaz de responder. A tal ponto é assim, que Lacan define o sujei-
to, propriamente, como uma resposta. Na psicanálise podemos chegar até esse
limite de dizer que o próprio sujeito é uma resposta.
E esse é o fundamento do laço social e o que Freud inventou: o ponto
de vista psicanalítico sobre a sociedade. Freud não definiu a sociedade pela saúde
mental, mas a partir de um mito e não qualquer um: o do crime primordial na
origem da lei. É o mito que diz “todos culpáveis”. É a resposta mítica ao “eu me
sinto responsável por não sei o quê”, a resposta à morte do pai. 
E é também o que permite compreender por que Lacan aconselha
rechaçar, da experiência analítica os canalhas. Que é um sujeito como canalha? É
o que sempre inventa desculpa para tudo. E também faz ver o que Lacan desta-
cava nas entrevistas preliminares: a retificação subjetiva preliminar à análise. O
sujeito entra em análise queixando-se dos demais e essa retificação – o exemplo
clássico é a análise de Dora – leva-o a perceber que ele tem algo a ver com as
coisas das quais se queixa, isto é, que se trata também de sua culpa. Porque, ape-
sar dos fenômenos superficiais que podem manifestar-se na experiência, sabe-
mos que o sujeito do inconsciente é sempre um acusado e é nesse sentido que
Freud inventou o supereu, para demonstrá-lo.
“Não se deve retroceder frente à psicose” é uma frase de Lacan, que
se repete por todas as partes, no Brasil como na Europa ou no Canadá. Não há
que retroceder, mas com exceções. Poderíamos discuti-lo a propósito da análise
dos paranoicos, por exemplo, porque apresenta dificuldades técnicas que são
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Jacques-Alain Miller
difíceis de superar. O paranoico, precisamente, está na posição subjetiva do acu-
sante e não do acusado. Aquele a quem chamamos paranoico está nessa posição
subjetiva, perseguido por culpa dos outros; e os perversos, aqueles que enunciam
comportamentos que, segundo a classificação psiquiátrica são chamados de per-
versos, eludem essa mesma definição. Um verdadeiro perverso não vem pedir
uma análise e se por erro o faz, vai-se embora.
Mas um perverso pode pedir uma análise, se tem um sentimento de culpa
a propósito de seu comportamento; quando deixa de inventar desculpas pelo que
não pode evitar fazer. A experiência faz pensar, ademais, que se trata de pessoas de
alto sentido moral, ao contrário do retrato que normalmente se faz do perverso. Na
possibilidade de analisá-los, portanto, a presença do afeto subjetivo da culpa tem um
caráter decisivo. E, a propósito do perverso, falar daquilo que alguém não pode dei-
xar de fazer, permite-nos justificar, na análise, o conceito de pulsão.
A que chamamos pulsão – que é outro dos mitos freudianos? Falamos
de pulsão quando as coisas se apresentam nessa dimensão em que não se pode dei-
xar de fazê-las e com o problema de saber se, nesse sentido, há sujeito de direito ou
não. Lacan pôde dizer que a pulsão é acéfala e que, nessa mesma medida, há como
uma suspensão do sujeito de direito. Para falar da posição subjetiva na pulsão, pode-
mos dizer que se trata da relação do sujeito com uma demanda contra a qual não
pode defender-se. Nesse sentido há uma conexão entre a pulsão e o supereu, ao
mesmo tempo em que a palavra defesa tem também uma dimensão jurídica.
Essa perspectiva, que lhes proponho, permite localizar a articulação
entre pulsão e desejo: a pulsão como mito freudiano e o desejo, tal como nós o
vemos, como mito lacaniano. Só se diferenciam porque falamos de pulsão quan-
do o sujeito se queixa de não se poder defender, e de desejo quando o sujeito se
queixa de defender-se muito bem. A diferença está, precisamente, na defesa. No
desejo, ela é interna à própria dinâmica, enquanto que desejar e rechaçar o dese-
jo estão vinculados, fazem-se no mesmo movimento. Falamos de pulsão, ao con-
trário, quando a função subjetiva é incapaz de introduzir a defesa.
Mas vocês dirão que isso não é o sentimento de culpa. Entretanto, o
sentimento de culpa também tem defeitos. Por exemplo, no luto patológico, em
que o sujeito está aplastado pela culpa da perda. Ou na melancolia, a propósito
da qual há sempre dificuldades, mal-estar e resistências a descrevê-la no campo
próprio das psicoses, porque supõe a presença do sentimento de culpa, precisa-
mente, como dificuldade. É, pelo contrário, no caso do presidente Schreber,
onde as coisas estão claras: o culpado é Deus, do princípio ao fim; é ele quem
deveria ter um sentimento de culpa por perturbar não só a ordem pública, senão
a do mundo inteiro. Não é exatamente o mesmo que a circulação dos automó-
veis, trata-se agora, da circulação dos astros do céu.
Assim, na experiência psicanalítica, podemos notar que o sentimento
de culpa não impede a reivindicação, senão que a favorece. E há que entender a
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conexão entre ambas, porque poderiam parecer contrárias. Entretanto, só um
sujeito de direito pode ter sentimento de culpa, isto é, um sujeito que pode dizer
“tenho o direito à”. E esse é o princípio mesmo da reivindicação. Se vocês não
pensam que a reivindicação é algo essencial à prática psicanalítica, é somente
porque vocês não se apercebem que a castração somente tem sentido sobre o
fundo da reivindicação.
E nisso o estado de direito é indispensável à psicanálise. Não pode
haver uma sem o outro, ou então há psicanálise clandestinamente, como J. P.
Klotz nos explicou recentemente, ao voltar da União Soviética. A psicanálise
pode entrar, à medida que esse grande país se transforma em estado de direito.
Pode-se ver a conexão: ao mesmo tempo em que os direitos humanos, entra
também a psicanálise. Há que ter o direito de calar-se, não se pode psicanalisar
onde só existe o direito de falar e, além do mais, o dever.
Assim, para continuar nessa linha, é necessário que o analista, por sua
própria saúde mental, tenha sido curado do sentimento de culpa. É perigoso, de
outro modo, dirigir-se a um analista. E isso poderia responder à pergunta de
ontem sobre a formação. A formação dos analistas poderia se resumir em curá-
los do sentimento de culpa.
É perigoso, portanto, porque a formação dos analistas está próxima da
formação de canalhas, e por isso deve-se distinguir: há que curá-los do sentimen-
to de culpa enquanto dirigem a cura e ao mesmo tempo – o que é o mais difícil
– não curá-los dele enquanto sujeitos.

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