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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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Deve se assinalar, tam-
bém, o direito ao gozo na experiência. O ponto de vista que tomei, a partir da
saúde mental, acentua, por assim dizê-lo, a dimensão jurídica da experiência. Mas
do ponto de vista da justificação, por exemplo, poderíamos explicar por que o
sentimento de culpa, de que falamos, é inconsciente, porque se pode manifestar
no que Freud chamou o rochedo mesmo. Isso introduziria a necessidade de arti-
cular melhor o sentimento de culpa e o complexo de castração.
P. – A propósito do que disse sobre o perverso, que vai ver o analista porque não
se pode desculpar ou porque se desculpa do que não pode deixar de fazer: vem para descul-
par-se ou vem para que o desculpem? A posição que o perverso coloca é problemática pela
desculpa que, a meu entender, estaria pedindo.
J-A. Miller – Creio haver empregado exatamente a expressão pedir des-
culpas. Não se pode dar uma resposta típica sobre o que o perverso busca. Já é
uma pergunta, por exemplo, o que é que busca no saber e nas obras da cultura.
Conhecemos o lugar eminente que têm tido os homossexuais na cultura. Mas há
que pensar que, do gozo que o perverso obtém, obedecendo à pulsão, segue-se
para ele uma insatisfação, quer dizer, que se trata também para ele, de que seu gozo
não seja completamente acéfalo. A análise, apesar dos comportamentos perversos
em seu caso, poderia manter-se no plano mesmo do gozo que ele sabe obter muito
melhor que o neurótico. Em algum lugar, houve uma defesa. E há muitas homos-
sexualidades, como dizia André Gide. Falamos grosseiramente de homossexuali-
dade quando o objeto é do mesmo sexo, mas as práticas são suficientemente diver-
sas para localizar os estigmas da defesa contra outro gozo. André Gide, por exem-
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plo, amava os jovenzinhos, os pequenos jovens que ainda não tinham, ou quase
não tinham barba. Sua prática homossexual consistia na masturbação mútua e sen-
tia horror da penetração, a que assistia em ocasiões com Lord Douglas, amante de
Oscar Wilde. Por isso, talvez, teria sido analisável; ele mesmo foi ver um médico
psiquiatra antes e depois de se casar – pensava que o casamento podia curá-lo – e
chegou a fazer-se analisar, ainda que não tenha durado muito. Mas, pode-se seguir
o caminho de sua produção literária, ano após ano, e pensar se não se tratava, nela,
de uma cura pela escrita. Na própria obtenção de gozo, apesar do desmentido, da
denegação da castração, há um lugar para a defesa. Não creio que, no caso dos per-
versos, se trate da “normalização” da vida sexual, mas que nesse caso, como em
outros, trata-se de estabelecer o desejo do sujeito que pode ser desarmônico com
seu gozo. Não somos, portanto, e segundo isso, os guardiões da ordem pública. E
é apaixonante seguir os fatos clínicos: uma vez descrito o ato a que tende o sujei-
to, uma vez localizado os encontros infantis que marcaram para sempre, para toda
a vida, seu modo de obter o gozo, uma vez feito isto, o trabalho analítico se detém
e o sujeito não tem outra ideia que buscar essas situações.
P. – Você afirmou, de maneira muito bonita, que a paranoia é compatível com a
ordem pública, o que modificaria, segundo me parece, o tratamento possível das psicoses.
Também, que o paranoico pode dizer que tem um perfeito estado de saúde mental, o que
suporia a existência do mental no psicótico. Outro paradoxo que se coloca é, se pelo fato
mesmo da castração, pode-se dizer que o psicótico é o homem livre desse cheque ao porta-
dor, ao mesmo tempo em que é um sujeito dividido pela linguagem – porque o psicótico fala.
J-A. Miller – Falei do paranoico precisamente porque é, na psicose,
quem se apresenta como sujeito de pleno direito. Isto é, que se apresenta para
pedir justiça ou para fazê-la. Nesse sentido é o criador da ordem pública, inven-
tor de novas ordens. A paranoia permite uma conexão muito estreita com o pro-
blema do laço social e do semelhante; há muitas coisas na cultura que devemos
à grande paranoicos. E o paranoico é, até tal ponto, o sujeito de direito que pare-
ce saído da análise. É, alem disso, um direito sem culpa.
P. – Gostei da metáfora da casa. E em uma casa onde há um porteiro que julga
a saúde mental, há também vários inquilinos. E pode-se entender que falem a mesma lingua-
gem e que, talvez, haja um mal-entendido no sentido de que, na hora da prática, as boas rela-
ções com o porteiro criam uma confusão imaginária. Talvez haja, aí, limites por marcar entre
a teoria e a prática, pela confusão entre a prática e o excesso de saber. Não é o motivo des-
sas jornadas?
J-A. Miller – Pode haver, além disso, vários outros motivos e também o
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Jacques-Alain Miller
desejo de discutir com outros praticantes para os quais a palavra saúde mental
tem o peso de nomear o lugar onde trabalham. Há muitas práticas, agora, que se
podem chamar de saúde mental enquanto se dirigem à harmonia do mental e do
físico. Em razão de sua própria estrutura, a psicanálise não está nessa categoria,
porque agrega a isso o pensamento. Isto é, agrega o pensamento inconsciente
que não o mental nem o físico, mas que tem a eficácia de desordená-los. É ver-
dade que, nesse sentido, Lacan e Freud estão na mesma linha dos filósofos e
escritores do século XIX, que propiciaram a psicanálise por haver revelado que
o homem, como tal, é um enfermo. É uma generalização, mas essa frase se
encontra tanto em Hegel como em Nietzsche e forma parte de tudo o que pre-
para e acompanha o descobrimento freudiano. Isso tem permitido à psicanálise
tomar sua orientação, porque se é assim, se o homem é um animal enfermo, é
nossa tarefa curá-lo. Como disse, nos EUA não há nenhuma dificuldade em
incluir a psicanálise dentro das práticas da saúde mental. Nós temos uma posi-
ção não de simples exclusão, mas de complexa dialética com a saúde mental.
Mas, é certo que, na prática, não é operativa, não permite uma discriminação
mais além de se poder ou não atravessar uma rua com uma criança.
Tradução: Jorge A. Pimenta Filho
Revisão: Márcia Mezêncio
NOTAS
1 Conferência de Encerramento da II Jornada do Campo Freudiano em Andaluzia, Sevilha,
Espanha, 1988. Publicada In: Uno por Uno, Set/Nov 1993, p. 5-10.
2 Jogo de palavra sem correspondência em português: Saludar tem em espanhol o sentido de sau-
dar (cumprimentar) e também o de dar saúde, curar. (NT).
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O ADOLESCENTE E AS DROGAS
Lilany Vieira Pacheco1
A proposta deste trabalho envolve dois termos que se tornaram par-
ceiros em nosso mundo contemporâneo: adolescência e drogas. A articulação
desses termos exige, necessariamente, uma contextualização.
Os resultados da última pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de
Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID)2 mostram que um quarto
dos estudantes brasileiros entre 10 e 18 anos já provou alguma droga ilegal.
Pesquisa realizada na Universidade de São Paulo revela que um, em
cada três estudantes, já apertou um cigarro de maconha, cabendo ressaltar, ainda,
o uso de bebidas alcoólicas que aparece, quase sempre, nas pesquisas de com-
portamento publicadas em revistas, associado ao uso de outras drogas.
A partir dos anos 80, verificou-se uma grande difusão de novos e dife-
rentes tipos de drogas, dentre as quais figuram o ácido lisérgico – LSD, a cocaí-
na, a heroína, o crack e o ecstasy, além das drogas antigas, constituindo um verda-
deiro arsenal químico, oferecido todos os dias no “mercado”. A pesquisa já cita-
da aponta que, diariamente, no Brasil, cerca de dois milhões de pessoas conso-
mem algum tipo de psicotrópico.
A discussão de casos clínicos, nas quais se verifica uma relação privilegia-
da do sujeito com a bebida ou outras drogas, aponta como um dos elementos deci-
sivos, o encontro

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