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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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precoce na puberdade, ou até antes dela, com as drogas e o álcool.
Faz-se necessário, entretanto, que se estabeleçam algumas ressalvas no
tocante aos números relativos aos problemas do álcool e de outras drogas lícitas
ou ilícitas. A mesma pesquisa revela que, desses encontros esporádicos com dro-
gas e álcool, a grande maioria das pessoas pode sair ilesa dessa experiência, pois
menos de 2% tornam-se dependentes. Faz-se necessário, consequentemente, dis-
tinguir o uso esporádico de drogas, relacionado estritamente aos tempos da ado-
lescência, da toxicomania propriamente dita.
A pesquisa do CEBRID mostra ainda que, dentre aqueles declarados
dependentes (portanto incluídos na cifra dos 2% que se tornam dependentes)
que procuram as internações e as diversas modalidades de tratamentos ofereci-
dos aos pais e responsáveis como promessa de “cura”, a preços exorbitantes,
diga-se de passagem, somente 30% dos casos têm sucesso na recuperação, res-
tando, para muitos, tornarem-se usuários crônicos ou morrer precocemente de
overdose, por suicídio, acidentes ou envolvimento com traficantes.
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A exuberância dos dados apresentados confirma a dimensão fenome-
nal que o uso abusivo de drogas ganhou no mundo contemporâneo, e ressalta a
precariedade de ações concretas e eficazes na abordagem do problema. Cabe rea-
firmar, sobretudo, as dificuldades na abordagem clínica desse sintoma contem-
porâneo e a falta de respostas clínicas efetivas, colocando para o psicanalista,
interpelado por tais questões, a necessidade imperiosa de interrogar e buscar, na
teoria psicanalítica, orientações para uma clínica da toxicomania, bem como do
sujeito adolescente e sua condição. A adolescência, como um fenômeno cultu-
ral, encontra-se inscrita na interseção entre os discursos médico e jurídico que
buscam, sem êxito, delimitar a entrada e a saída do sujeito nesse tempo interme-
diário entre a infância e a vida adulta. As tentativas de circunscrição desse fenô-
meno falham, por esbarrarem na dimensão singular que caracteriza a subjetivi-
dade humana.
A psicanálise, ao levar em conta o sujeito, nomeia a adolescência como
um tempo de despertar. O despertar do sujeito desejante frente ao relançamen-
to da pulsão sexual, engendrado pelas metamorfoses da puberdade, tratando-se,
portanto, do ato de inscrição do sujeito como sexuado, podendo-se efetuar,
nesse tempo, a consumação de um ato inédito, o ato sexual. Desse fato decorre
a afirmação de Hugo Freda de que a adolescência, do ponto de vista da psicaná-
lise, não se constitui em uma fase, mas sim em uma passagem do pensamento ao
ato, havendo, dessa forma, a exigência de uma atividade, dado o imperativo do
encontro com o objeto sexual, assinalado por Freud em As transformações da puber-
dade (1905).
Freud é herdeiro de uma clínica espontânea das tormentas da puber-
dade, tomando a adolescência pelo caráter sintomático da relação do sujeito com
o sexo nessa época. Esse viés será seguido por Lacan ao se valer da metáfora
freudiana de um túnel perfurado dos dois lados, afirmando que, mais do que
fazer sentido, o encontro do sujeito com o outro sexo faz furo no Real, já que o
parceiro sexual em jogo é o objeto a, caracterizando a adolescência como o
momento do reencontro com o objeto e com sua função de separação para o
sujeito.
É a partir desse objeto que o sujeito deverá se separar do Outro, o Outro parental,
social, e de todos os semblantes encarnados pelo Outro familiar e social. Há crise, por-
que há queda dos semblantes. Por isso há crise em relação ao pai, já que há crise em
relação a todos os semblantes que serviam como Nomes-do-Pai. E é por isso que há
encontro com o pior – o pior contra o pai, ou seja, encontro com o objeto mais-de-
gozar, que faz com que se espatifem as figuras do Outro e se soltem todos os tampões
como insígnias do pai (SOLANO, 1997, p. 14).
Abre-se, então, a dimensão de mal-estar sexual que associa à condição
adolescente nomes tais como luto e catástrofe, dentre tantos outros que desig-
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Lilany Vieira Pacheco
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nam o sujeito que está confrontado, nesse ponto preciso, à “inexistência da rela-
ção sexual”, ou seja, à falta que se abre ao sujeito por não haver, no inconscien-
te, a inscrição de significantes que promovam um saber sobre a relação entre um
homem e uma mulher, cabendo ao sujeito a tarefa de construção do parceiro
sexual. Ao mesmo tempo, a função de separação do objeto a reitera a distinção
entre objeto sexual e amoroso e o objeto da pulsão. A palavra separação adqui-
re, assim, uma função primordial no que tange a uma discussão em torno desses
dois termos propostos: o adolescente e o ato de se drogar. Nessa direção, pode-
mos apontar as coordenadas do encontro com as drogas fornecidas pela teori-
zação psicanalítica: 1) o toxicômano se droga para esquecer o corpo; 2) o recur-
so à droga tem por função liberar o sujeito do seu compromisso face ao ser
sexuado; 3) a droga como um modo de resposta aos impasses decorrentes do
confronto do sujeito com o outro sexo e as vicissitudes da construção do par-
ceiro sexual, e, por fim, 4) o artifício da droga como aquilo que permite ao sujei-
to separar-se do Outro.
Diz-se, a partir de Freud e Lacan, que a adolescência tem o sentido de
separação do Outro para a assunção do sujeito desejante, ou seja, localiza-se a
adolescência como uma crise da confrontação com o “Outro da lei”. Diz-se, ao
mesmo tempo, que “a passagem ao ato tem a função de separar o sujeito do
Outro”, bem como “o ato de se drogar tem como função separar o sujeito do
Outro”, e, ainda mais, “a droga permite ao sujeito separar-se do corpo”, o corpo
sexuado, e, por fim a máxima lacaniana de que “a droga é o que obtém êxito em
separar o sujeito do gozo fálico”. Penso que não seria demais resgatar, aqui, as
metáforas “casamento” e “divórcio” usadas, respectivamente, por Freud e
Lacan, para articular a relação do sujeito com a droga.
Embora haja proximidades entre a “passagem ao ato” e o “ato toxicô-
mano” como função de separação, é preciso interrogar se podemos fazer equiva-
ler esses dois termos. A proposição lacaniana da droga como o artifício que obtém
êxito em romper o casamento com o falo sustenta-se, a partir da discussão da cas-
tração, como um gozo. Lacan comenta, na “Ata das Jornadas”, que a angústia foi
precisamente localizada por Freud no ponto em que “o homenzinho, ou a mulher-
zinha, percebe que está casado com seu pau”. Lacan se desculpa por utilizar essa
expressão para se referir à percepção da diferença entre os sexos. Ele o faz, entre-
tanto, enfatizando a dimensão Real da irrupção sexual no corpo do sujeito.
O exemplo do Pequeno Hans torna-se paradigmático para Lacan por
demonstrar como Freud introduz a “angústia de castração”, bem como os mati-
zes imaginários que ela ganha na constituição do sintoma infantil; daí as expres-
sões “pequeno peruzinho” ou “o faz-pipi” utilizadas por Lacan. 
Lacan (1998) sublinha que a angústia se refere àquele que está aflito e,
portanto, “tudo o que permite escapar desse casamento é evidentemente bem-
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O adolescente e as drogas
vindo, daí o êxito da droga. Não há nenhuma outra definição da droga que não
seja esta”, afirma Lacan; “o que permite romper o casamento com o peruzinho”.
Para a psicanálise, a linguagem introduz a dimensão sexual no huma-
no e, portanto, a inscrição da função fálica, descrita por Freud como o primado
do falo, é o indício de que o sujeito tomou posse da linguagem. A existência do
falo, como significante especial, explica-se por sua capacidade de encarnar o jogo
de ausência e de presença a partir da castração. O falo é o que falta. O falo falta
à mãe, o falo falta ao sujeito que não o possui; ele pertence ao pai. Ao pai é
suposto ser

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