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TERAPIA GÊNICA juri popular

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Júri Popular: TERAPIA GÊNICA
JUIZ: Consta nos altos que Antônio Clementino da Silva e Clotilde Maria da Costa Silva, um casal que sonhava em formar uma família, tiveram uma filha a qual chamaram de Ana Cecília da Silva. O tempo passou e após completar 8 anos, Cecília é diagnóstica com anemia de Fanconi, “uma doença genética de herança autossômica recessiva que faz com que a medula óssea perca aos poucos as suas funções. A falência da medula leva não apenas à anemia, mas a distúrbios hemorrágicos. A causa mais frequente de morte é a leucemia”. A partir de então, seus pais procuraram orientação médica e foram informados de que a única solução seria um transplante de medula óssea. Contudo, o que os pais não sabiam era que a lista de espera era tão grande e tão concorrida. Anos se passaram e o caso de Cecília só se agravava. Visto as complicações da doença, o médico sugeriu ao casal uma fertilização in-vitro para que por meio da terapia gênica a vida da primogênita fosse poupada e então deu-se início aos procedimentos clínicos. Porém, a cunhada de Clotilde, uma mulher muito religiosa, tendo conhecimento do caso se opôs ao procedimento e entrou na justiça para impedir que a fertilização in-vitro seja realizada. Enfim, a ré Sra. Clotilde Maria da Costa Silva foi pronunciada como inclusa no “Art 38 do PROJETO DE LEI Nº 2855, DE 1997 que diz: é proibido “fecundar óvulos com finalidade distinta da procriação humana.” Cuja pena é de um a três anos de reclusão, e multa.
Agora chamo a testemunha de acusação. 
O que você tem a dizer a respeito da Sra. Clotilde?
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (cunhada): Esta mulher nunca manifestou o desejo em ter outros filhos, mas agora que percebe que sua filha está doente quer brincar com a vida e trazer ao mundo uma “criança remédio”. Isso é inadmissível! E se algum dia ela tiver de conceber uma criança, que seja pelo método natural.
JUIZ: Senhores advogados vocês têm alguma pergunta?
AD. DEFESA E PROMOTOR: Não.
JUIZ: Ok. Obrigado! Que entre agora a testemunha de defesa.
O que você tem a dizer a respeito da Sra. Clotilde?
TESTEMUNHA DE DEFESA (vizinha): Clotilde é uma mulher determinada, uma mãe inspiradora e responsável. Ama Cecília e porque a ama deseja que ela viva de forma saudável. Afinal, qual mãe não deseja o mesmo para seus filhos? E mais: ela sempre foi uma mãe exemplar. Tenho certeza que cuidará muito bem desta criança que haverá de nascer.
JUIZ: Senhores advogados vocês têm alguma pergunta?
AD. DEFESA: Eu tenho. Há quanto tempo você conhece a ré?
TESTEMUNHA DE DEFESA: Faz um bom tempo. Em média de 15 à 20 anos.
AD. DEFESA: Obrigado!
JUIZ: Ok. Obrigado! Que entre agora a ré.
RÉ (mãe): Meritíssimo, eu não sou nenhuma maluca. A decisão de fazer a fertilização in-vitro será um bem em dose dupla. Além de salvar minha filha, esta criança nascerá saudável, sem risco algum de apresentar a mesma doença que tem trago tanto sofrimento para a vida de Cecília. Eu, perante a lei, juro que cuidarei desta criança da mesma forma que cuidei e cuido de Cecília. 
JUIZ: Senhores advogados vocês têm alguma pergunta?
PROMOTOR (João): Eu tenho. Você já pensou em como se sentirá esta criança ao saber que nasceu apenas para salvar sua irmã?
RÉ: Senhor, embora esta criança salve a vida de Cecília ela não nascerá apenas para esse objetivo, ela será também fruto do nosso amor.
PROMOTOR: Se é fruto do amor, então porque não deixar que ela venha ao mundo de forma natural?
RÉ: Ter um filho é uma grande dádiva! Ter a oportunidade de ter ajuda médica para que esse filho seja saudável e ainda seja compatível com a irmã é uma bênção maior ainda.
JUIZ: Ok. Obrigado! Agora teremos um minuto para cada advogado fazer uso da palavra.
PROMOTOR (João): Excelentíssimo, de acordo com o Art 7º projeto de lei Nº 2855/97 ”é proibida a fecundação de oócitos com qualquer outra finalidade que não seja a procriação humana”. Como podemos perceber o objetivo da fertilização in-vitro é de fato a concepção humana, contudo no caso da Sra. Clodilte, o objetivo principal do nascimento dessa criança é a retirada de suas células troncos e a coleta do material presente no seu cordão umbilical para ajudar na cura da enfermidade de Cecília. Portanto, ela está infringindo a lei.
ADVOGADO DE DEFESA (Mateus): Senhoras e senhores, a terapia gênica, como o próprio nome sugere, é um procedimento de transferência de gene funcional para o organismo portador de uma doença genética, de modo a reparar o gene defeituoso. Esse procedimento é realizado após a fertilização in-vitro também conhecida como reprodução humana assistida. Nesta perspectiva, o Art 6° projeto de lei Nº 2855/97, veda a utilização de técnica de RHA com as seguintes finalidade:
I - clonagem, entendida como a reprodução idêntica do código genético de um ser humano;
II - seleção de sexo ou de qualquer outra característica biológica;
III - eugênica.
Contudo, o parágrafo único diz: A vedação prevista no inciso II deste artigo não se aplica nas situações em que se objetive prevenir doenças. 
Portanto, a ré não está cometendo nenhuma infração. 
JUIZ: Um minuto para a tréplica.
PROMOTOR (João): É aí que você se engana senhor advogado. No Art 24 consta que os pré-embriões não selecionados para a implantação no útero materno serão crio conservados nos bancos autorizados, por até cinco anos e o Art 25 continua: Após cinco anos, os gametas ou pré-embriões deverão ser descartados, salvo para ser utilizado em experimentação. Se isso não é de fato brincar com a vida, então diga-me o que é.
AD. DEFESA: Se pensarmos que a vida é o oposto da morte bem como a ciência considera, então ela se inicia quando começam as atividades cerebrais, por volta do 2º mês de gestação. Sendo assim, está claro que os pré-embriões ainda não possuem vida. Então o que é melhor, trazer ao mundo uma vida que salve outra, ou deixa que uma vida se perca por pura ignorância?
PROMOTOR: Então Senhor, você está afirmando que essa criança nascerá apenas para salvar Cecília?
AD. DEFESA: Eu não quis dizer isso. Apenas quis ressaltar que além de ser gerada uma vida ela ainda proporcionará a salvação de outra vida já existente, havendo duas crianças saudáveis. 
RÉ: Enquanto vocês discutem por um motivo banal, minha filha está sofrendo e correndo contra o tempo para continuar vivendo.
JÚRI: É verdade senhor juiz!
JUIZ: Silêncio no tribunal!
AD. DEFESA : Meritíssimo, posso mais uma vez fazer uso da palavra? 
JÚRI: Ele já falou demais senhor Juiz!
JUIZ: Ordem! Silêncio! Palavra concedida senhor advogado.
AD. DEFESA: Senhores jurados. Coloquem-se no lugar desta mãe. Imaginem ter um filho aparentemente saudável e depois descobrir que ele é acometido de uma grave doença genética e está correndo risco de vida. O que vocês fariam: deixariam que ele morresse numa fila de espera?
JUIZ: Senhor promotor você ainda tem um minuto.
PROMOTOR: Senhores jurados, agora coloquem-se no lugar da criança que nascerá apenas por uma necessidade. Vocês se sentiriam bem ao saber que foram manipulados em laboratório e vieram ao mundo apenas para uma finalidade? Reflitam!
JUIZ: Atenção. Encerrado este momento, cabe ao júri votar e decidir o futuro da ré. 
...
Senhoras e senhores presentes, de acordo com a votação do júri, declaro hoje, 16 de abril de 2018, que a Sra. Clotilde Maria Costa da Silva:
SIM: É inocente e então poderá fazer uso das técnicas oferecidas pela terapia gênica.
NÃO: É culpada e assim não poderá fazer uso das técnicas oferecidas pela terapia gênica.
Declaro encerrado o presente trabalho relativo à primeira seção do Tribunal Superior de Itapipoca. Agradecemos à todos que contribuíram. 
FIM

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