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Abordagem ao diagnóstico da síncope cardiogénica em cães e gatos

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Os episódios de síncope podem ser semelhantes a convulsão ou a narcolepsia/cataplexia, ou 
podem até ser confundidos com um episódio de fraqueza muscular. 
Quando um animal chega à consulta com uma história de síncope não se deve tomar por certo 
que será um verdadeiro episódio de síncope, é necessário realizar uma história pregressa 
exaustiva, com as perguntas correctas, de forma a perceber qual o verdadeiro sintoma que o 
animal apresenta. 
 
Tabela 1 - Diagnóstico diferencial de síncope (Adaptado de Davidow, Woodfield & Proulx, 
2001). 
Factor Síncope Convulsão Fraqueza Narcolepsia 
Perda de 
consciência 
Sim Sim Não 
Sim 
(sono REM) 
Sinais antes do 
evento 
Ocasionalmente 
(ataxia, cambalear) 
ou sem aviso 
Normalmente 
nenhum 
Pode 
cambalear 
antes do 
colapso 
Nenhum 
Eventos anteriores 
Ocasionalmente 
exercício, 
excitação, tosse 
Normalmente 
nenhum 
Normalmente 
com exercício 
Nenhum 
Movimentos 
clónicos 
Não Talvez Não Não 
Defecar e urinar 
involuntariamente 
Talvez Talvez Não Não 
Fase pós-ictus Não Sim Não Não 
Duração do 
movimento 
Segundos 
(pode ser mais 
longo) 
Segundos a 
minutos 
Variável 
Segundos a 
minutos 
Movimentos 
tónicos 
Talvez 
(fim do episódio) 
Normalmente Não Não 
Mariana de Magalhães Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, FMV- UL 
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2.1.1. Síncope e episódio de fraqueza 
 
Episódio de fraqueza é um estímulo iatrotrópico frequente na clínica de pequenos animais e 
está relacionado com inúmeras doenças (Schulman, 2005). Este episódio consiste numa 
fraqueza muscular que pode ser generalizada ou parcial, como a fraqueza dos membros 
posteriores. Quando esta é generalizada o animal pode ou não cair. Na situação em que o 
animal cai de forma súbita, em decúbito, assemelha-se a síncope. Contudo, neste caso, não 
existe perda de consciência em nenhum momento. É assim importante perguntar ao 
proprietário se houve ou não perda de consciência do animal. 
O veterinário deve ter atenção se o episódio ocorreu sem perda de consciência e, neste caso, 
considerar as causas de episódio de fraqueza e não de síncope. Este episódio, de forma 
semelhante à síncope, pode ocorrer por doença cardíaca ou hipoglicémia (Davidow et al., 
2001). Contudo, outras causas também devem ser consideradas: doenças metabólicas, 
alterações electrolíticas e de ácido-base, doenças inflamatórias (ex. imunomediadas e 
infecciosas), anemia, doenças endócrinas, doenças respiratórias, doenças neuromusculares 
(ex: Myasthenia Gravis), neoplasia, dor, nutrição inadequada ou fármacos. 
 
2.1.2. Síncope e narcolepsia/cataplexia 
 
Narcolepsia e cataplexia são raras em animais de companhia contudo, quando surgem, são 
semelhantes a síncope. A narcolepsia (sonolência diurna excessiva) e a cataplexia (períodos 
de hipotonia muscular aguda) são episódios presentes quando o ciclo sono/vigília está 
alterado (Bagley, 2005). São assim caracterizados por "ataques de sono" em que o animal 
perde repentinamente a tonicidade muscular e fica em decúbito. 
Neste episódio há perda de consciência em que o animal entra em sono REM (Rapid Eye 
Movement) repentinamente. A causa certa é desconhecida mas normalmente acontece após 
uma estimulação, como após a refeição ou excitação. Durante o sono REM os cães 
(normalmente não acontece em gatos) podem ter movimentos de pedalar com os membros, o 
que pode ser semelhante a convulsão (Bagley, 2005). Contudo a queda repentina por perda de 
tonicidade muscular e perda de consciência assemelha-se a síncope. Esta situação está 
normalmente associada a determinadas raças e os sinais clínicos começam precocemente: 
Doberman Pinscher, Labrador Retriever, Daschund, Poodle Miniatura [Minors (2005) e 
Bagley, (2005)], Beagle e São Bernardo (Bagley, 2005). Este episódio deve ser considerado 
na diferenciação de síncope, tendo em conta que é uma situação rara e apenas associada a 
determinadas raças. Nesta situação pode-se também diferenciar de síncope por ser de duração 
mais longa e pelo animal não defecar nem urinar involuntariamente. 
Mariana de Magalhães Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, FMV- UL 
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2.1.3. Síncope e convulsão 
 
Tabela 2 – Diagnóstico diferencial entre síncope e convulsão. (Adaptado de Minors, 2005) 
 Síncope Convulsão 
Eventos anteriores Esforço, dor, micção, 
defecação, tosse, stress 
- 
Pródromo 
Duração de segundos 
Fraqueza aguda, súbito, 
vocalização, estimulação 
autonómica 
Duração de minutos a dias 
Comportamento atípico 
(ex. ansiedade, mais 
retraído, procura de 
atenção) 
(+/-) vómito 
Aura 
Nenhuma 
Nenhuma (na convulsão 
epiléptica) 
Marca o início de 
convulsão parcial, muitas 
vezes com generalização 
secundária 
Características do evento 
Sem movimentos 
Extensão flácida ou rígida 
dos membros 
Opistótonos 
Duração inferior a um 
minuto 
Excepção: síncope 
convulsiva 
 
Hipersalivação 
Movimentos tónico-
clónicos dos membros 
Actividade motora 
temporal ou acinético 
Duração de 1 a 2 minutos 
(mais de 5 minutos sugere 
convulsão vs. síncope) 
Excepção: convulsão focal 
e convulsão parcial simples 
ou complexa 
Recuperação Rápida recuperação sem 
repercussões 
Capaz de andar em 
minutos 
Excepção: síncope 
neuromediada pode ter 
uma recuperação mais 
prolongada 
Recuperação lenta da 
consciência 
Desorientação 
(normalmente 10 minutos 
ou mais) 
Excepção: recuperação 
pode ser rápida 
 
 
Distinguir síncope de convulsão pode ser muito difícil. Num estudo de medicina humana 7 
em 433 indivíduos (1,6%) acreditaram que tiveram um episódio de síncope que acabou por 
ser diagnosticado como convulsão (Davidow et al., 2001). Este estudo demonstra que mesmo 
sendo o próprio indivíduo a experienciar o episódio nem sempre é óbvia a sua diferenciação. 
Já o veterinário depende da descrição do proprietário e não do próprio doente. Pode ser assim 
vantajoso, na presença de um episódio, o proprietário filmar o comportamento do animal. A 
sua visualização permite ao clínico perceber exactamente como este ocorreu. 
Mariana de Magalhães Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, FMV- UL 
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Na síncope há sempre uma perda repentina da consciência que na convulsão pode ou não 
existir, no entanto, na mais comum, a convulsão generalizada, esta perda está presente. É 
neste tipo de convulsão que se torna difícil diferenciar da síncope. A perda de consciência na 
síncope deve-se a uma diminuição da chegada de nutrientes ao cérebro, enquanto na 
convulsão é devido a uma actividade eléctrica excessiva ou a uma hipersincronia do córtex 
cerebral. 
Um episódio precipitado por exercício, stress, tosse, dor, deglutição, vómito, micção e 
defecação é normalmente associado a síncope. Este, de um modo geral, tem uma duração de 
segundos e o animal, salvo excepções, apresenta-se com os membros flácidos, sem 
movimentos e tem uma recuperação rápida, podendo voltar a andar em minutos. Pelo 
contrário, a convulsão é normalmente conhecida por não ser consequência das situações como 
as referidas anteriormente e ter uma duração de um a dois minutos. De um modo geral ocorre 
espontaneamente ou durante o repouso ou o sono (Skrodzki & Trauvetter, 2008). No entanto, 
no período anterior ao episódio convulsivo, pode ocorrer vómito ou defecação, apesar destes

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