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A crise no Sistema Penitenciário   René Ariel Dotti

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José Carlos Moreira Alves e Benjamin de Moraes Filho. Também 
na quadra dos anos 70 surgiu a Lei n° 6.416, de 24. 5. 1977, que trouxe importantes 
alterações no campo da execução das penas privativas de liberdade, inclusive 
instituindo os regimes de progressão, as autorizações de saída e outros benefícios. 
 
 11. Uma reforma legislativa 
 Essa perspectiva do direito positivo se ampliou com a edição da Lei n° 
7.210, de 11. 7.1984, que pela primeira vez em nosso País instituiu um diploma 
específico e abrangente para regular os problemas da execução penal com a natureza 
e as características de uma codificação. E a Constituição de 1988 dedicou várias 
disposições referentes à proteção dos direitos da pessoa presa. Não há, portanto, 
lacuna legislativa no panorama dos direitos humanos do presidiário. Existe, entanto, 
uma persistente e intolerável resistência branca de entes e órgãos públicos que são 
indiferentes quando não hostis à causa dessa categoria jurídica. O contraponto à 
letargia e à omissão surge através de ações individuais ou de grupos que além de 
difundir o regime jurídico do preso desenvolvem atividades visando à sua 
implementação. Muitos deles atuam no próprio sistema penal e penitenciário, 
exercendo os mais variados papéis, como os profissionais do Direito Criminal e do 
Direito de Execução Penal, enquanto outros integram equipes de assistência moral, 
social ou religiosa. 
 O nosso País vive intensamente a contradição entre as regras do 
sistema positivo e o seu descumprimento crônico. A primeira Constituição (1824), 
promulgada pelo Imperador Dom Pedro I, já declarava que as “cadeias serão 
seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réos, 
conforme suas circunstâncias e natureza de seus crimes” (art. 179, XXI). 
 Na verdade, as sucessivas crises penitenciárias não resultam da 
ausência de leis mas, sim, da desobediência secular do poder público e seus agentes em 
 
9 Idem, p. 201. 
 
René Ariel Dotti 
 
 
 
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torná-las efetivas. Existem antigos princípios, antigas regras cuja atualidade é 
marcante.10 
 Afinal, é preciso mudar essa antiga cultura da resistência tão bem 
ilustrada por uma passagem do Código Criminal do Império, quando desobedecia 
aconselhando: “Emquanto se não estabelecerem as prisões com as commodidades e 
arranjos necessarios para o trabalho dos réos, as penas de prisão com trabalho serão 
substituidas pela de prisão simples accrescentando-se em tal caso a esta mais a sexta 
parte do tempo porque aquellas deveriam impôr-se” (art. 49). 
 
 12. A crise das codificações 
 
 A. Para que serve um Código? 
 Ao manifestar a sua postura crítica frente ao Anteprojeto da Reforma da 
Parte Especial do Código Penal, elaborado às pressas sob a gestão do Ministro da 
Justiça Íris Rezende (1998), o Conselho Diretivo do Instituto Brasileiro de Ciências 
Criminais emitiu um editorial através do Boletim correspondente ao mês de agosto 
do ano passado. O documento, analisa os vícios e as incertezas do disegno di legge sob 
o sugestivo título: “Para que serve um Código?” e declara como suas grandes 
finalidades as seguintes: a) garantidora, que se realiza da sistematização racional da 
lei como exigência do princípio da legalidade; b) ordenadora, que consiste no 
balanceamento dos bens jurídicos para destacar aqueles de maior relevo social 
visando reprovar as condutas que os ofendam; c) compiladora, pois deve sintetizar 
“todas as leis em um único corpo, organizando-as e sistematizando-as”; d) 
reorientadora, porque precisa fazer um equacionamento dogmático frente às 
realidades factuais e as modernas tendências em outros países que tiverem reforma 
contemporaneamente; e) transformadora, para permitir a reformulação “como motivo 
 
10 DOTTI, René Ariel, “Textos antigos: crise permanente”, em Casos criminais célebres, p. 393 e s. 
 
René Ariel Dotti 
 
 
 
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de superação das referências penais tradicionais para a adequação a uma sociedade 
do presente com perspectivas de futuro”11. 
 
 B. Consolidação e codificação 
 A consolidação (do latim, consolidatio, de consolidare), significa fortalecer, 
unir, tornar sólido, é a reunião das leis esparsas em um só corpo legislativo, 
dispostas numa ordem uniforme. A codificação é também uma reunião organizada de 
leis, num único texto ou corpo, em forma de código e relativa a determinado ramo 
jurídico ou relações jurídicas da mesma natureza, criando princípios harmônicos 
segundo critério objetivo. Porém, diferentemente da simples consolidação, o objetivo 
da codificação é a sistematização de princípios e regras relativos à matéria que faz de 
um ramo de direito. 
 No sistema positivo brasileiro, tivemos a Consolidação das Leis Penais, 
aprovada pelo Decreto n.º 22.213, de 14.12.1932, e promovida pelo Desembargador 
Vicente Piragibe. Ela consistiu na reunião das disposições do Código Penal de 1890 
(Dec. n.º 847, de 11.10.1890) e das demais leis posteriores em 410 artigos. 
 Poucos anos mais tarde, em 1940, surgiu o Código Penal (Dec.-lei n.º 
2.848, de 7.12.1940). Percebe-se muito bem a nítida diferença entre esses dois 
documentos. Enquanto o primeiro limita-se à simples organização dos textos 
normativos da Parte Geral e da Parte Especial, o segundo, além da compilação, 
também cuida de introduzir os princípios e as regras necessários para a 
interpretação e a aplicação da lei penal. 
 
 C. A inviabilidade dos monossistemas 
 Antes do advento dos Códigos chamados decimonónicos12, regia-se a 
sociedade pelas consolidações. Estas procuravam reproduzir o Direito sem 
modificá-lo, visando somente a sua conservação e melhoria em um proceder 
 
11 Editorial, Boletim, cit. 
12 O adjetivo, em espanhol, significa pertencente ou relativo ao século XIX. (Diccionario da la lengua 
española, Madri: Real Academia Espanhola, 19ª edição, 1970, p. 423). 
 
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11 
histórico. As obras legislativas totalizadoras constituíam inventários da regulação 
existente, como as da Índia, ou uma seleção de textos escolhidos como no Digesto. O 
Código, ao contrário, não é continuidade, é ruptura. Procura criar uma nova 
regulação, substitutiva; “ao invés de compilar, ordena, baseando-se na 
racionalidade. Tem um caráter constituinte”, como ensina Lorenzetti.13 
 Mestres de notável prestígio e, por coincidência, redatores de 
anteprojetos de Código Civil como Orlando Gomes (1963) do próprio Código Civil, 
como Antunes Varella, em Portugal (1966), reconhecem a inviabilidade de um 
monossistema. O primeiro admitiu que a multiplicação das leis especiais está 
causando a agonia do Direito Civil em face da quebra do sistema que, assim, deixou 
de condensar e exprimir os princípios gerais do ordenamento. E o segundo conclui 
que “o novo jurista, sob a pressão dos fatos, passou a venerar as lei especiais, como 
uma espécie de deuses domésticos, mais próximas das realidades concretas da vida, 
mais acessíveis às preces de cada cenáculo político, mais permeáveis às idéias-forças 
do mundo contemporâneo”.14 
 
 D. O desprestígio da codificação como instrumento de segurança 
 Não se poderá mais afirmar, como seria possível no começo do século, 
que os códigos (civil, penal, comercial,

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