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DIREITO CIVIL IV - BEDONE

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entre o possuidor e a coisa, havendo aplicabilidade até os dias de hoje, como se vê no art. 1.196
	- Ihering: em meados do Século XIX, refutou tal dicotomização para definir a posse, afirmando que o fato exterior da posse (corpus) já englobava o fato interior (animus), porque o modo de proceder da pessoa já denota se a mesma age ou não como se dono fosse (animus domini)
	Denominada, então, teoria objetivista, mas o ganho conceitual veio com a observação abaixo
	Acrescentava, porém, que continuava havendo corpus ainda que o possuidor não estivesse exercendo poder físico imediato sobre a coisa; era uma concepção então inovadora de posse, ou seja, enquanto estado de direito, e não somente como mero estado de fato 
	Modernamente, designa-se isso como posse direta e indireta, tal como previsto no art. 1.197
	Exs.: contrato estimatório ou venda em consignação (art. 534), locação (art. 565 e Lei nº 8.245/91), comodato (art. 579), depósito (art. 627), propriedade fiduciária (art. 1.361), superfície (art. 1.369), servidões (art. 1.378), usufruto (art. 1.390), uso (art. 1.412), habitação (1.414), compromisso de compra e venda de imóvel (art. 1.417), penhor (1.431), anticrese (1.506)
Outros aplicativos: arts. 1.205, II e 1.224 (posse adquirida por terceiro e perda da posse para quem não estava presente)
	
	- O passo adiante: a teoria subjetivista experimentou uma evolução, no sentido de afirmar que tanto o corpus como o animus se estendiam também a coisas incorpóreas, o que só pode ser concebido mediante abstração conceitual, pois, do ponto de vista literal, como pode haver um fato exterior (corpus) relativamente a algo intangível?
	Evoluiu também para dizer que o corpus abrangia a possibilidade de exercer-se o contato físico sobre a coisa
	- Conclusão até aqui: as duas teorias, no final das contas, não se afastam tanto assim uma da outra, mas não se pode retirar o brilho da teoria objetivista, que verdadeiramente inovou acerca da matéria e provocou a evolução da teoria subjetivista
	- Postura do CC: adotou a teoria objetivista para conceitos fundamentais de posse (1.196 a 1.198) e a teoria subjetivista evoluída no que pertine à posse recainte sobre coisas incorpóreas (1.390 e 1.451)
B-) POSSE X PROPRIEDADE:
	- A posse, em suma, é marcada pela existência de um fato exterior revelado pela maneira como procede o possuidor, tomando a coisa como se sua fosse (1.196 c/c 1.228, caput)
	Isso significa, então, que o possuidor seja necessariamente o proprietário da coisa? Não, pois pode ser que seja ou não
	- A posse, assim, é um mero indicativo de propriedade, já que corresponde ao exercício fático de algum dos poderes atinentes à condição de proprietário
	Bem por isso é que se diz que a posse corresponde à exteriorização do domínio ou à condição de visibilidade do domínio (expressões de Ihering); exs.: locação de imóvel, comodato e usucapião
	Dizendo todas essas coisas em outros termos:
a-) através da posse pode eventualmente se chegar ao proprietário;
b-) todo aquele que é proprietário tem o direito de exercer a posse sobre a coisa, mas nem todo possuidor detém o direito de propriedade sobre a coisa;
c-) toda propriedade induz atos de posse, mas nem todos atos de posse fazem induzir a propriedade
C-) PROTEÇÃO POSSESSÓRIA:
	- Não se pode perder de vista, pois, que o exercício da posse não induz necessariamente em propriedade
Mas como a posse é condição de visibilidade do domínio, ou seja, como o possuidor aparentemente age como se dono fosse, a lei confere proteção à posse
Cumpre frisar, no entanto, que a lei protege a posse enquanto situação de fato, no intuito de gerar paz social e mitigar conflitos; a lei, desse modo, não protege o possuidor diretamente
- Instrumentos de proteção possessória:
a-) ações possessórias: reintegração de posse para o caso de esbulho, manutenção de posse para a hipótese de turbação, e interdito proibitório para a ameaça de esbulho ou turbação (art. 1.210, caput);
b-) ação de usucapião: uma vez preenchidos os requisitos legais, além de se proteger a posse, confere-se a titularidade do domínio ao possuidor ou a titularidade de servidão - prescrição aquisitiva – nos termos do art. 1.238 e ss.;
c-) ação de imissão na posse: discute-se a posse apenas indiretamente, a fim de se imitir o proprietário que jamais teve atos de posse;
d-) exercício de direito de retenção: faculdade atribuída ao possuidor de continuar na posse até ser indenizado por benfeitorias (art. 1.219)
- Todas essas figuras serão examinadas ao longo do curso de Direito das Coisas, com maior enfoque no direito material
D-) NATUREZA JURÍDICA DA POSSE E OUTROS ASSUNTOS:
	- Considera-se a mesma como direito real, em que pese não conste expressamente do rol do art. 1.225, e os fundamentos para tanto são esses:
	1-) como visto, não se cuida de mero estado de fato, mas também de estado de direito, como na posse indireta;
	2-) está disciplinada de maneira geral no Direito das Coisas;
	3-) vem prevista no art. 167, I, 21, da LRP (Lei nº 6.015/73), pelo que se apresenta cabível o registro de ações reais, aí incluídas as que discutem posse
	- Posse de direitos pessoais: ainda que reste assente a natureza jurídica da posse como sendo um direito real, a questão agora é saber-se se ela se estende também aos direito pessoais
	A resposta é afirmativa, se não houver outro meio de se proteger esses direitos pessoais
O que acontece, no entanto, é que geralmente há; o exemplo histórico advém de Rui Barbosa, que manejou ação possessória (reintegração de posse) visando ao retorno de servidor público ao seu posto de trabalho do qual houvera sido injustamente afastado
Conferiu à demanda o nome de “reintegração de posse ao emprego”, que depois se generalizou para todos os casos desse jaez, sendo denominada simplesmente de “reintegração ao emprego”, como se conhece até hoje
Seja como for, sempre existe a possibilidade conceitual de se estender a posse a direitos pessoais, como, por exemplo, a posse do estado de casados do art. 1.545, e a posse de todo o acervo hereditário até a partilha, aí incluídos direitos pessoais (art. 1.791, parágrafo único)
- Espécies de posse: um pequeno glossário acerca da mesma, o qual será utilizado durante o transcorrer do curso
1-) ius possidendi e ius possessionis: a primeira revela a relação entre a pessoa e a coisa decorrente de NJ anterior, ao passo que na segunda essa relação vem desacompanhada de NJ anterior; exs.: troca e posseiro
2-) posse direta e posse indireta (art. 1.197): apreensão física da coisa e possibilidade de a mesma ocorrer x direito à posse não perdido em virtude do contrato; exs.: locatário e locador
3-) posse simples e composse (art. 1.199): um só possuidor x mais de um possuidor; exs.: proprietário individual e cônjuges em relação a bem comum
4-) posse justa e injusta (art. 1.200): conforme não seja ou seja violenta, clandestina ou precária; assunto a ser aprofundado na próxima aula
Violenta: tomada à força
Clandestina: tomada às escondidas
Precária: não restituída a seu tempo quando decorrente de NJ anterior
5-) posse nova e posse velha (art. 924, CPC): conforme seja de menos de ano e dia, ou de mais de ano e dia
6-) posse de boa-fé e de má-fé (art. 1.201): a de boa-fé é a posse justa vista do ângulo subjetivo, ou seja, é de boa-fé a posse cujo possuidor desconheça os vícios que a acompanham (vis, clam et precario), no sentido de não saber que ela é violenta, clandestina ou precária; tal ocorre com certa freqüência quando da transmissão da posse de uma pessoa para outra
Já a posse de má-fé é a posse injusta, subjetivamente falando
7-) posse ad interdicta e posse ad usucapionem: é a posse que permite ao possuidor lançar mão dos interditos possessórios (art. 1.210) x posse que permite ao possuidor fazer uso da ação de usucapião (arts. 1.238 e 1.260 para aquisição de propriedade, e art. 1.379 para aquisição de

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