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Apostila Teorias da Comunicacao

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Estudos frankfurtianos centravam-se mais nos aspectos teóricos de suas 
análises do que na verificação empírica de suas teses (o que levou, dentre 
outros motivos, a antagonismos entre Adorno e Lazarsfeld, quando da 
estada do alemão nos EUA nos anos 40). 
Radicalidade do pensamento frankfurtiano, para alguns (como Jesús 
Martín-Barbero), deve-se ao contexto em que foi produzido: Alemanha 
nazista + Estados Unidos da [pretensa] democracia de massas. 
Problemas do pensamento frankfurtiano: 
1) visão elitista da arte, baseada na Aufklärung (“estado social oposto à 
barbárie dos povos selvagens”). A arte não pode “rebaixar-se”, tornar-se 
“ligeira”, nem ir ao encontro das massas; deve buscar a comoção, não a 
emoção; buscar a experiência estética, não a diversão. Adorno: “a arte 
permanece íntegra precisamente quando não participa da comunicação”. 
Em suma: arte e massas seriam pólos distantes, opostos; experiência 
estética e prazer são termos inconciliáveis. 
2) enxergar indústria cultural como “sistema” (conceito esse criticado pelos 
próprios frankfurtianos quando se referiam ao modo como os funcionalistas 
norte-americanos se referiam à sociedade). Não enxergam indústria 
cultural como palco de contradições, conflitos e dilemas, nem como 
reprodutora de aspectos culturais da esfera social na qual ela é gerada. 
Isso implica em visão totalizante / totalitária da realidade construída pelos 
MCM (alguns desses aspectos serão rebatidos tanto por Estudos Culturais 
quanto por pensadores pós-modernos). Exemplo: afirmação de Adorno de 
que todos os filmes, de Charles Chaplin a Orson Welles, dizem a mesma 
coisa, relativa ao triunfo do capitalismo invertido. 
3) percebem sujeito receptor como alguém acrítico, não dotado de 
capacidade crítica diante da realidade e do que lhe é imposto/sugerido 
pelos MCM. Para frankfurtianos, individualidade é na verdade uma pseudo- 
individualidade, baseada em estereótipos que balizam tanto o tempo 
produtivo quanto o tempo livre (lazer) das pessoas. 
Benjamin e Kracauer: frankfurtianos, ma non troppo 
Se frankfurtianos enxergavam tecnologia quase que totalmente com 
restrições (dentro da visão iluminista que não se concretizou e por causa 
do potencial exploratório do capitalismo), Benjamin e Kracauer percebem a 
tecnologia como algo que pode (não necessariamente deve) revolucionar a 
arte; ou seja, percebem um potencial revolucionário nela. 
 
 
Cidade + tecnologia = novas possibilidades estéticas e culturais. Privilégio 
cultural deixava de ser apenas da burguesia para se “espraiar” para as 
massas. 
Kracauer: via cinema, por exemplo, como esfera na qual sonhos/desejos/ 
devaneios reprimidos em outras esferas eram expressos “livremente”. 
Benjamin: acreditava que a arte, livre da aura, podia tornar-se objeto 
cultural, reprodutível e ao alcance das massas, que dificilmente teriam 
acesso à obra de arte de um outro modo. Sensibilidade dava lugar à 
aproximação. Essa nova experiência era fundamental para entender as 
massas, para entender sua recepção. E isso era possível graças às novas 
tecnologias (fotografia, cinema etc.). 
Para Benjamin, atividade crítica e prazer artístico podem estar juntos. 
Massa que “de retrógrada diante de um Picasso se transforma em progres- 
sista diante de um Chaplin” (Benjamin). Pensamento benjaminiano terá 
influências nos Estudos Culturais. 
Edgar Morin - um frankfurtiano à francesa 
Pensamento da Escola de Frankfurt deixou algumas marcas na França, 
com Edgar Morin, que introduziu no país o conceito de “indústria cultural”, 
a qual, para ele, não é onipotente, mas produtora de mudanças culturais. 
Diferente de Adorno, Morin não crê na morte da criação artística, mesmo 
com as esferas de planejamento, divisão de trabalho e mediação 
existentes dentro da indústria cultural (criação tende a se tornar produção). 
“A cultura de massa é uma cultura: ela constitui um corpo de símbolos, 
mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um 
sistema de projeções e de identificações específicas. Ela se acrescenta à 
cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em 
concorrência com estas culturas” (MORIN, 1975: 11). A cultura de massas 
se torna a “primeira cultura universal da história do homem” (idem: 12). 
Análise leva a Morin a dizer que indústria cultural se apóia numa dualidade: 
burocracia-invenção x padrão-individualidade 
Ou seja, ao mesmo tempo em que se produz/oferta sempre o mesmo 
produto, ele deve também ter algo de novo, de diferente, a fim de produzir 
um mínimo de originalidade. 
 
 
 
O que vai possibilitar tal “paradoxo” é o fato de que existe uma estrutura do 
imaginário, que é “esqueletado” conforme determinados arquétipos 
(figurinos-modelo). Ambos (indústria cultural e imaginário), por serem 
estruturas, podem “dialogar” entre si, ainda que haja tendência para a 
transformação dos arquétipos em estereótipos. 
Grandes temas do imaginários viram arquétipos e estereótipos constituídos 
em padrão da indústria cultural: “fórmula substitui forma” (C. W. Mills). 
Aspecto em comum entre Edgar Morin e os frankfurtianos: retomada de 
categorias de Freud (psicanalíticas) usadas pelos frankfurtianos, como os 
mecanismos de identificação e projeção, para dar conta da demanda de 
mitos e heróis. 
Paradoxo: cultura de massas contemporânea tende a virar cultura de elite. 
PARA LER MAIS: 
ADORNO, Theodor W. Intervenciones - nueve modelos de critica. Cara- 
cas, Monte Avila, 1969. 
ADORNO, Theodor W. “A Indústria Cultural”. In: COHN, Gabriel. Comuni- 
cação e Indústria Cultural. 5. ed., São Paulo, T. A. Queiroz, 1987, pp. 287- 
295. 
ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. “A Indústria Cultural - o 
iluminismo como mistificação de massas”. In: LIMA, Luiz Costa (org.). 
Teoria da Cultura de Massa. 4. ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990, pp. 
159-204. 
BENJAMIN, Walter. “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade 
Técnica”. In: LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da Cultura de Massa. 4. ed., 
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990, pp. 209-40. 
MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX - O Espírito do Tempo I 
- Neurose. 3. ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1975. 
MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX - O Espírito do Tempo II 
- Necrose. 2. ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1986. 
RÜDIGER, Francisco. “A Escola de Frankfurt”. In: HOHLFELDT, Antonio, 
MARTINO, Luiz C. & FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da Comunicação. 
Petrópolis, Vozes, 2001, pp. 131-47. 
STRINATI, Dominic. Cultura Popular - uma introdução. São Paulo, Hedra, 
1999, pp. 61-91. 
 
 
 ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO 
 
 Desdobramento natural dos questionamentos envolvendo o papel da 
comunicação de massa na sociedade contemporânea e também 
desdobramento natural da visão marxista-frankfurtiana, onde MCM são vistos 
como aparato ideológico, seja do Estado (Louis Althusser), seja de grupos 
econômicos e sociais específicos (Herbert Schiller). A visão, aqui, é de que há 
uma indústria cultural. 
 
Desdobramento também da visão de MCM como aparato imperialista 
norte-americano (num primeiro momento), depois como aparato mantenedor do 
capitalismo (pois ajuda a enfrentar as crises cíclicas do capitalismo) e, por fim, 
analisando o impacto da cultura e da visão de mundo dos EUA nos diferentes 
países. Nessa visão, os MCM consolidam e ampliam o capitalismo 
norte-americano; assim, o imperialismo cultural levava ao surgimento de idéias 
como a “teoria da dependência” (Schiller, Noam Chomsky, Armand Mattelart – 
vide Para Ler o Pato Donald – e Luiz Beltrão). 
 
Visão contemporânea – leva em conta os atuais processos de globalização, 
fusão de empresas de diferentes áreas (comunicação de massa, informática, 
entretenimento