ESTAMIRA resumo
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ESTAMIRA resumo


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ESTAMIRA: ESQUIZOFRENIA X POESIA E FILOSOFIA NO LIXO E NA VIDA
ANIELLE KALINE DA SILVA ANDRADE 
CINTHIA MORGANA DE CARVALHO 
LINGEISA MATOS CAMPOS 
LUCIANA BARBOSA DA SILVA
MARIA JOSÉ CAVALCANTI 
SILVICLÉIA BARBOSA DOS SANTOS 
RESUMO: O presente texto procura explanar acerca da vida de Estamira, uma senhora esquizofrênica que vive num lixão do Rio de Janeiro e que sempre teve uma vida conturbada, correlacionando-a com a literatura psicanalítica. Para tal, fizemos estudos bibliográficos e concluímos que Estamira é tachada como louca, porém, apresenta muitos momentos de lucidez e crítica social, fazendo com que se torne possível mudar a perspectiva e visão sobre a esquizofrenia. Estamira trabalha, cozinha, pega ônibus, convive com seus filhos, sua esquizofrenia não faz dela um monstro. Falamos ainda sobre os possíveis fatores que a levaram a desenvolver seu quadro psicótico e de como a psicanálise vê esse distúrbio da ordem do delírio e da cisão entre ego e o real.
PALAVRAS-CHAVE: Estamira. Esquizofrenia. Psicanálise.
INTRODUÇÃO
Era apenas uma fotografia. Outros se recusaram a posar; aquela senhora, cuja face morena e enrugada pelo tempo justificava seus sessenta e poucos anos vividos, aceitou. Mas também pediu. Pediu que Marcos Prado, fotógrafo que estava no lixão de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias/RJ, tirando fotos com o objetivo de mostrar sua transformação de 1993, quando iniciou seu trabalho lá a 2003, dez anos após quando o finalizaria, também a escutasse, quando a encontrou lá em 2000. Precisava comunicar ao mundo sua missão: Estamira era a porta-voz da verdade. E "sua" verdade foi ouvida e Estamira foi "mirada". 
Por quatro anos, Marcos Prado usou uma câmera para desvelar a sabedoria que brotava por uma via esquizofrênica (assim define a ciência sua estrutura psíquica). Estamira não é apenas mais uma pessoa, ela apenas "é". Um lugar, uma ideia, um real que se dá na cisão da realidade, onde o "eu" não é ameaçado, não se pode perder e, portanto, é mais autêntico.
Delirante ou lúcida? Isso foi o que menos importou para quem conduzia a câmera que registrava o cotidiano da catadora de lixo. No lixão ou na humilde casa em que morava, no convívio com seus filhos e netos, Estamira mostrou uma percepção de si mesma que podia chegar a uma grandiosidade incomparável (ela era Estamira e Deus, quem é Deus? Seria o "esperto ao contrário"?) ou a simplicidade de uma batalhadora da vida diária ("No lixo não há só restos, mas também descuido", diz ela, quem sabe falando de si, resto humano deixado no bordel pelo próprio avô; não cuidada, mas traída por dois maridos e estuprada por duas vezes).
Estamira é vida. Vida que se inscreve no olhar para o outro e não enxergar apenas um portador de sintomas, mas um ser em integralidade, que deve ser visto, ouvido e falado pelo que é: homem ? mulher ? humano.
ESTAMIRA ? HISTÓRIA DE VIDA
O filme Estamira, do roteirista Marcos Prado, vem nos mostrar a vida de uma mulher chamada Estamira, uma senhora de 62 anos, nascida em 07/04/1942, com diagnóstico de quadro psicótico com evolução crônica, e apresenta sintomas esquizofrênicos tais como: alucinações auditivas, discurso místico e idéias de influência, segundo as informações do documentário.
A vida de Estamira sempre foi muito conturbada. Segundo seu relato, aos nove anos seu avô queria "deitar-se" com ela e aos 12 ele a levou para se prostituir em um bordel, onde lá conheceu seu primeiro marido, com o qual teve um filho. Este marido "judiava" muito dela, acabou por separar-se e casar novamente com outro homem, que mais uma vez "judiava" dela. A mãe de Estamira também apresentava distúrbios mentais chegando a ser internada num hospital psiquiátrico (Hospital Pedro II, sanatório psiquiátrico reconhecido, até os anos 80, pelos maus tratos aos pacientes), mesmo contra a vontade de sua filha. O pai de estamira morreu em 1943. 
Estamira tira seu sustento do lixão de Campo Grande, no Rio de Janeiro; ela gosta de trabalhar lá. Mesmo após ter sido estuprada duas vezes, uma ao sair do trabalho e outra ao chegar em casa.
Ela desenvolveu o quadro esquizofrênico tardiamente, após o segundo estupro. Com um mês depois passou a ter alucinações e a acreditar que ela mesma é o real, é abstrata e detém todo o poder. Devido ao seu transtorno, muitos a vêem como possuída por uma força maligna, até mesmo seu filho corrobora com esta premissa.
Até a ocorrência dos episódios mais traumáticos de sua vida, Estamira era temente a Deus e achava que tudo aquilo era uma provação divina, porém, certo dia na casa da sogra de sua filha, começou a delirar dizendo que os coqueiros eram o poder e o real, além dos delírios de perseguição e das vozes "astrais" que ela ouve.
Em muitos momentos são perceptíveis lapsos de lucidez em seu discurso e cotidiano, mas habitualmente ela apresenta-se agressiva, descrente em Deus e no mundo, talvez esses comportamentos ocorram como uma resposta a tudo que ela enfrentou. Estamira criou um mundo próprio no intuito de conseguir um paliativo para suas angústias e tentar ter o controle daquilo que pode acontecer. Ela é "superior", "abstrata", afinal, como ela diz: "Eu, Estamira, sou a visão de cada um, ninguém pode viver sem mim". Nesta condição, Estamira jamais terá outras angústias e sofrimentos porque ela é maior e mais poderosa que qualquer um.
Estamira tem alucinações auditivas, porém seu funcionamento cognitivo e afetivo é conservado, a exemplo do carinho que ela tem por sua filha mais nova e de seu vocabulário esdrúxulo. Seus delírios são de grandiosidade, embora haja outros delírios com outros temas, como por exemplo, sua somatização ao referir-se ao "ataque" do "controle remoto". Seus delírios são organizados acerca de um tema coerente, sempre nos fala sobre a sua superioridade, sobre o "trocadilo", sobre o "controle remoto" e sempre expressa sua repugnância a Deus. Estamira apresenta também quadros de glossolalia, onde inventa seu próprio linguajar e geralmente expressa raiva e tendências a discussões. Ela desenvolveu seu quadro de esquizofrenia tardiamente e tem um prognóstico muito bom em relação a sua ocupação como catadora de lixo, e uma capacidade para ser independente, afinal, ela vai até seu local de trabalho sozinha, cozinha e tem uma relação afetiva com seus parentes. Todas estas correlações servem para demonstrar que Estamira é portadora de esquizofrenia do subtipo paranóide, segundo as informações do DSM-IV-TR (2002).
ESTAMIRA: GENÉTICA X AMBIENTE = LOUCURA?
Após anos visitando o lixão de Jardim Gramacho, o fotógrafo Marcos Prado pretendia registrar a imagem de qualquer uma das mais ou menos 2.000 pessoas que ali catavam sua sobrevivência. Ao se deparar com uma senhora de sessenta e poucos anos e atender seu pedido de escuta, foi surpreendido com uma história de vida nada comum. Seu nome: Estamira; profissão: catadora de lixo; condição de vida: tachada como louca.
Uma fotografia jamais conseguiria captar a amplidão de uma existência singular. Marcos Prado resolveu gravar em vídeo o que se transformou no documentário "Estamira", lançado em 2006 e distribuído pela Riofilme e Zazen Produções Audiovisuais.
Estamira foi enquadrada pela família e médicos nos 1% da população que sofre de Esquizofrenia. Sobre esta patologia, diz o DSM-IV-TR:
Os sintomas característicos de Esquizofrenia envolvem uma série de disfunções cognitivas e emocionais que acometem a percepção, o raciocínio lógico, a linguagem e a comunicação, o controle comportamental, o afeto, a fluência e produtividade do pensamento e do discurso, a capacidade hedônica, a volição, o impulso e a atenção. Nenhum sintoma isolado é patognomônico de Esquizofrenia; o diagnóstico envolve o reconhecimento de uma constelação de sinais e sintomas associados com prejuízo no funcionamento ocupacional ou social.
Com base nessas pontuações, busca-se apresentar as possíveis ligações etiológicas hereditárias e biopsicossociais do quadro mental de Estamira.
Como relatado acima, a mãe de Estamira apresentava