A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
782 pág.
Gulag   Anne Applebaum

Pré-visualização | Página 9 de 50

buriatas, tungúsios e outros.
O fato de que isso não interessasse particularmente a esses revolucionários - logo
eles, de resto tão preocupados com o destino dos oprimidos - já indica algo de
seus pressupostos tácitos.
Por outro lado, para desenvolver os campos de concentração europeus,
dificilmente se faria necessário ter total ciência da história da África meridional
ou da Sibéria oriental: no início do século XX, a idéia de que alguns tipos de
pessoa são superiores a outros já era bastante comum na Europa. E isso, enfim, é
o que liga no sentido mais profundo os campos soviéticos e nazistas: em parte,
ambos os regimes se legitimavam pelo estabelecimento de categorias de
"inimigos" e "subumanos" aos quais perseguiam e destruíam em escala maciça.
Na Alemanha nazista, os primeiros alvos foram os aleijados e os retardados.
Posteriormente, os nazistas se concentraram nos ciganos, nos homossexuais e,
sobretudo, nos judeus. Na URSS, as vítimas foram primeiro a "gente de antes"
(supostos partidários do antigo regime) e depois os "inimigos do povo", termo
vago que viria a abranger não apenas os pretensos opositores políticos do regime,
mas também certos grupos nacionais e étnicos, caso eles parecessem (por
motivos igualmente vagos) ameaçar o Estado soviético ou o poder stalinista. Em
épocas diferentes, Stalin procedeu a prisões em massa de poloneses, baltas,
tchetchenos, tártaros e (às vésperas da morte) judeus.{49}
Embora tais categorias nunca fossem inteiramente arbitrárias, elas também
nunca foram inteiramente estáveis. Meio século atrás, Hannah Arendt escreveu
que tanto o regime nazista quanto o bolchevique criaram "opositores objetivos" ou
"inimigos objetivos", cuja "identidade muda conforme as circunstâncias
predominantes - de modo que, tão logo uma categoria é liquidada, se pode
declarar guerra a outra". Da mesma forma, ela acrescentava, "a função da
polícia totalitária não é descobrir crimes, e sim estar à mão quando o governo
resolve prender determinada categoria da população".{50} Mais uma vez, as
pessoas eram aprisionadas não pelo que tinham feito, mas pelo que eram.
Em ambas as sociedades, a criação dos campos de concentração foi, na
realidade, o estágio final num longo processo de desumanização desses inimigos
objetivos - processo que teve início com a retórica.
Na autobiografia Minha luta, Hitler explicou como ele de súbito percebera que os
judeus eram responsáveis pelos problemas da Alemanha e que, na vida em
sociedade, "todo empreendimento escuso, toda forma de infâmia", estava ligado
aos judeus: "ao examinar-se aquele tipo de abscesso com o bisturi, descobria-se
de imediato, qual larva num corpo putrescente, um judeuzinho que muitas vezes
ficava ofuscado pela brusquidão da luz".{51}
Lênin e Stalin também começaram culpando "inimigos" pelos inumeráveis
fracassos econômicos da URSS: tratava-se de "destruidores", "sabotadores",
agentes de potências estrangeiras. A partir do final dos anos 1930, à medida que a
onda de prisões começava a expandir-se, Stalin levava essa retórica a novos
extremos, acusando publicamente seus opositores de serem uma "imundície" que
precisava "submeter-se a limpeza contínua" - tal qual a propaganda nazista
identificaria os judeus a imagens de bichos nocivos, parasitas, doenças
infecciosas.{52}
Uma vez demonizado o inimigo, o isolamento legal dele começava para valer.
Antes que tivessem sido arrebanhados e deportados para os campos de
concentração nazistas, os judeus foram privados da condição de cidadãos
alemães. Viram-se proibidos de trabalhar no funcionalismo público, na
advocacia, na magistratura; proibidos de desposar arianos; proibidos de
freqüentar escolas arianas; proibidos de ostentar a bandeira alemã; forçados a
usar estrelas de Davi amarelo-ouro; e sujeitos a espancamentos e humilhações
na rua.{53} Antes que se tivesse chegado a prendê-los na URSS de Stalin, os
"inimigos" também eram rotineiramente humilhados em assembléias públicas,
demitidos de seus empregos, expulsos do Partido Comunista, abandonados pelos
cônjuges indignados e publicamente acusados pelos filhos furiosos.
Dentro dos campos, o processo de desumanização se aprofundava e radicalizava,
ajudando tanto a intimidar as vítimas quanto a reforçar a crença dos vitimadores
na legitimidade do que estavam fazendo. Em seu livro-entrevista com Franz
Stangl (o comandante de Treblinka), a escritora Gitta Sereny lhe perguntou por
que os prisioneiros do campo, antes de serem mortos, eram também espancados,
humilhados e privados das roupas. Stangl respondeu: "Para condicionar quem
tinha de levar as ações a cabo. Para possibilitar que eles fizessem o que faziam".
{54} Em A ordem do terror: o campo de concentração, o sociólogo alemão
Wolfgang Sofsky também demonstrou de que maneira a desumanização dos
prisioneiros nos campos nazistas era metodicamente inserida em todos os
aspectos da vida ali, desde os uniformes rotos e idênticos até a expectativa
constante da morte, passando pela abolição da privacidade e pelo regulamento
severíssimo.
Veremos que, no sistema soviético, o processo de desumanização também
começava no momento da prisão, quando os presos eram privados das roupas e
da própria identidade, viam-lhes negado o contato com gente de fora e eram
torturados, interrogados e submetidos a julgamentos farsescos, isso quando
chegavam de fato a ser julgados. Numa peculiaridade tipicamente soviética do
processo, os prisioneiros eram, de maneira proposital, "excomungados" da vida
social, proibidos de chamarem uns aos outros de "camarada" e, a partir de 1937,
proibidos de receber o cobiçado título de "trabalhador de choque", não
importando quão bem se comportassem ou quão duro trabalhassem. Segundo
muitos relatos de prisioneiros, os retratos de Stalin, que eram expostos nos lares e
repartições por toda a URSS, quase nunca apareciam no interior dos campos e
prisões.
Nada disso significa que os campos soviéticos e nazistas fossem idênticos.
Conforme qualquer leitor com algum conhecimento geral do Holocausto
descobrirá no decorrer deste livro, a vida no sistema de campos soviético diferia
de muitas maneiras (quer sutis, quer óbvias) da vida no sistema de campos
nazista. Havia diferenças na organização do cotidiano e do trabalho, diferentes
tipos de guardas e punições, diferentes tipos de propaganda. O Gulag durou
muitíssimo mais e passou por ciclos de relativa crueldade e relativa humanidade.
A história dos campos nazistas é mais curta e apresenta menos variações: eles
simplesmente se tornaram cada vez mais cruéis, até serem destruídos pelos
alemães em retirada ou libertados pelos Aliados. O Gulag também continha
variedade maior de campos, desde as letais minas auríferas da região de
Koly ma até os "luxuosos" institutos secretos nas cercanias de Moscou, onde
cientistas aprisionados projetavam armas para o Exército Vermelho. Embora
existissem diferentes espécies de campo no sistema nazista, a gama era
muitíssimo menor.
Sobretudo, duas diferenças entre os sistemas me parecem fundamentais. Em
primeiro lugar, a definição de "inimigo" na URSS sempre foi muito mais vaga
que a de "judeu" na Alemanha nazista. Nesta, com número muito pequeno de
exceções incomuns, nenhum judeu podia alterar sua condição, nenhum judeu
preso num campo podia ter esperança racional de escapar à morte, e todos os
judeus estavam cientes disso o tempo todo. Embora milhões de prisioneiros
soviéticos temessem pela própria vida - e milhões deles tenham realmente
morrido -, não havia nenhuma categoria de prisioneiro cuja morte estivesse
absolutamente garantida. Por vezes, certos presos podiam melhorar sua situação
em postos de trabalho relativamente confortáveis, como os de engenheiro ou
geólogo. Em cada campo, havia uma hierarquia de prisioneiros, na qual alguns
eram capazes de subir à custa (ou com a ajuda) de outros. Outras vezes - quando
o Gulag se via sobrecarregado de mulheres, crianças e idosos, ou