A abordagem existencial humanista na psicoterapia (Tereza Cristina Erthal)
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A abordagem existencial humanista na psicoterapia (Tereza Cristina Erthal)

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A ABORDAGEM EXISTENCIAL-HUMANISTA NA PSICOTERAPIA

Tereza Cristina S. Erthal

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Resumo

Este artigo apresenta as bases e os aspectos mais relevantes da psicoterapia existencial-humanista. São destacados os conceitos de existência e liberdade da filosofia existencial e a base fenomenológica desta. A ênfase do humanismo na valorização da condição humana é descrita através do exame das noções de tendência atualizante e individualização. A comparação entre as duas vertentes identifica diversos pontos de convergência e divergência que são em parte superados na aplicação às questões da prática psicoterapêutica. Esta se qualifica como uma orientação voltada para a pessoa enquanto totalidade concreta, para a relação autêntica entre terapeuta e cliente, para o estímulo ao auto-conhecimento como instrumento de crescimento individual. A psicoterapia existencial-humanista surge, pois, como uma importante alternativa terapêutica capaz de se apresentar como uma opção atraente às psicoterapias psicanalíticas e behavioristas.

	Discorrer sobre a abordagem existencial humanista em psicoterapia não é uma tarefa fácil, pois é o experienciar, o viver a experiência no aqui-e-agora, o seu principal objetivo. Transformar isso em linguagem não é o mesmo que revê-la, em sua forma mais autêntica. Alguém que pretenda descrevê-la, está fora como observador, e não como participante ativo.

	O objetivo do presente artigo, entretanto, é a descrição do que vem a ser o processo psicoterápico nessa orientação, esperando ampliar o espectro de alternativas para uma forma mais aberta de tratamento, apoiado na relação pessoa-pessoa.

	O modo de atuar terapêutico necessariamente reflete a filosofia sobre a qual a psicoterapia se apoia. O modo como o ser humano é visto dirige todo o trabalho terapêutico. Dessa forma, é apresentada, inicialmente, uma descrição sumarizada da psicologia humanista e da filosofia existencial que juntas formam o ponto de vista Existencial-Humanista. Posteriormente, são apresentados os pressupostos teóricos da referida abordagem e, finalmente, a terapia em si, enfatizando o papel do terapeuta e a resposta do cliente a esse tipo de atuação.

Abordagem existencial

	O vocabulário da psicologia existencial já está impregnado na linguagem cotidiana; termos como “crise existencial”, “ansiedade existencial”, “medo do não-ser”, etc., são algumas expressões usadas livremente por pessoas e que mostram a ampla difusão que essa abordagem tem tido. Não sendo uma real escola psicológica, é uma atitude que tem influenciado quase todas as formas de terapia que surgiram em oposição à psicanálise ortodoxa. Aliando-se à chamada 3ª força em psicologia, a Psicologia Humanista, passou a ser considerada psicologia Existencial Humanista.

	Estando intimamente relacionada com a filosofia existencial, é necessário recorrer a ela e a alguns dos seus conceitos considerados básicos para alcançar uma compreensão mais precisa de seus contornos.

	Por existencialismo entende-se “o conjunto de doutrinas segundo as quais a filosofia tem como objetivo a análise e a descrição da existência concreta, considerada como ato e como uma liberdade que se constitui afirmando-se e que tem unicamente como gênese ou fundamento esta afirmação de si” (Jolivet). Não se trata de uma única doutrina, uma vez que cada filósofo existencial defende uma idéia que lhe é própria. Entretanto, existe algo de comum entre eles, que é a preocupação em compreender e explicar a existência humana. O existencialismo moderno surgiu na França e na Alemanha há mais de 40 anos. Parece não haver dúvida em que o pensamento filosófico existencial procede das meditações de Kierkegaard, mas Heidegger, Sartre, Jaspers, Nietzche e Bubber são também nomes importantes na expressão da convicção de que a realidade última somente pode ser encontrada na existência individual e concreta.

	O existencialismo caracteriza-se, primeiramente, pela afirmação de que a “existência precede a essência”, muito enfatizada por Sartre. Até o século XIX, o pensamento predominante era intelectualista, já que a ambição era descobrir um meio de tornar a existência analiticamente inteligível. O pensamento racional deveria chegar à existência de forma transparente. A essência ficava, pois, em primeiro plano. E o que são essência e existência? A essência de uma coisa é o que resta despojando-se-lhe de todo o contingente. É a coisa em si sem precisar de algo que a qualifique. A existência, por outro lado, é algo concreto, definida por suas características peculiares. Dependendo da primazia de uma sobre a outra, a doutrina recebe o nome de existencialismo ou essencialismo.

	E o que é “existência preceder a essência”? Com isso, Sartre diz que cabe ao homem criar a essência, dentro de sua própria existência. O homem é aquilo que ele escolhe ser e não uma procedência de uma essência comum a todos os homens. O que importa, primeiramente é que ele existe, surge no mundo e só depois se define. A idéia que o homem poderá ter de si próprio dependerá dessa existência. Mais precisamente, é a série de atos expressos durante sua existência que define o ser e sua essência. Portanto, é ao ser que cabe dar sentido a sua existência, através de seu projeto de vida. Essa é uma característica predominantemente humana, porque só o homem é livre, afirma Sartre. Segundo ele, o homem existe e as coisas ou objetos são. O homem precisa escolher a cada momento o que será no momento seguinte.

	Embora os existencialistas em geral concordem com essa afirmação, alguns divergem quanto a sua interpretação. Heidegger, por exemplo, diz que existência e essência são na verdade uma mesma coisa. O ser constrói a sua essência de tal forma que a essência não é senão a própria existência. Assim, existência é simultaneamente existência e essência. Esta reside na sua existência e as suas características ao modos possíveis do existente e não potências que precisam ser atualizadas.

	Outro aspecto relevante para caracterizar a abordagem existencial é o seu suporte na fenomenologia de Husserl, que vem a ser uma forma de descrever objetos tal como são vistos, sem nenhuma idéia prévia a respeito deles. Os objetos se manifestam na consciência de forma precisa, irredutível e imediata. Chamou de fenômeno esse dado imediato. A fenomenologia busca chegar à essência das coisas, preocupando-se em descrever a experiência tal como acontece. O objetivo é atingir a realidade tal como é. O mundo objetivo é colocado entre parênteses pondo na consciência apenas aquilo que não pode ser negado. Consciência e fenômeno são inseparáveis, ou seja, não é possível se conhecer um objeto separado do sujeito que o conhece.

	O pensamento existencial foi usado na psiquiatria e psicoterapia por V.Frankl, L.Binswanger, K.Jaspers e outros. Já, entre os psicólogos, o primeiro realmente a caracterizar esse pensamento foi W. James. Acreditando na vontade, no imediatismo da experiência e verdade enquanto forma de comprometimento com ação, pensamento já expresso por Kierkegaard, compartilhava do pensamento existencial.

	Já Rollo May introduziu a abordagem existencial na moderna psicologia norte-americana, cujos psicólogos buscavam compreender o homem a partir da descrição de sua essência. Um exemplo de abordagens baseadas nesse raciocínio é aquele cuja análise reduz o homem a condicionamentos, instintos, etc. Embora não se possa negar a essência, não é através dela, de princípios e verdades imutáveis colocadas acima de qualquer existência, que se possa chegar ao ser. Na verdade, o homem transcende um determinado mecanismo e o adota de uma forma muito peculiar. Se seu significado aparece em função da pessoa é este ser existente que escolhe a sua própria existência através da relação que mantém com a verdade e realidade interpretados por ele. A.Maslow, R.May, C.Rogers, são alguns dos psicólogos que compartem desse mesmo ponto de vista.

Abordagem humanista

	O Renascimento foi assim desenvolvido em decorrência