Apostila   Psicopatologia na Aprendizagem
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Apostila Psicopatologia na Aprendizagem

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PSICOPATOLOGIA NA APRENDIZAGEM 1

Psicopatologia na Aprendizagem

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Psicopatologia na Aprendizagem

Concepções de aprendizagem

Para tratarmos da psicopatologia da aprendizagem é necessário, primeiramente,

abordarmos as diferentes concepções de dificuldade de aprendizagem ao longo do

tempo.

De acordo com Baptista (2008, p. 175-176), a história da educação daqueles que

apresentavam alguma diferença:

“Conta-se com seis palavras: exclusão, segregação,

institucionalização, normalização, integração e inclusão.

Numa análise global desse campo lexical e do universo

semântico, cada um desses termos é menos chocante que

o anterior e deixa a impressão de que o superou. Mas

diríamos que as palavras mudam mais do que as práticas,

ou mesmo que a mudança dos significados é bem mais

lenta que a dos significantes”.

Como podemos ver, a exclusão das pessoas que apresentavam diferenças era uma

prática legitimada pelo modelo médico. Não havia sequer qualquer diferenciação entre

dificuldade de aprendizagem e déficit cognitivo.

Ao longo do tempo, as formas de diagnosticar foram mudando e, com elas, também

as práticas de inserção das pessoas com necessidades especiais. Os métodos

quantitativos de avaliação da inteligência deram lugar aos métodos qualitativos, ou

seja, a mensuração da capacidade intelectual a partir do quociente ou coeficiente de

inteligência deu lugar à avaliação dos níveis de suporte que uma pessoa precisa para

estar incluída em sua comunidade.

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Esta visão mais qualitativa de avaliação da inteligência lançou luz sobre a importância

das atividades lúdicas na primeira infância. A ausência de situações de

brincadeira no desenvolvimento inicial causa prejuízos na esfera cognitiva difíceis de

serem revertidos. O exemplo do menino selvagem mostra que ele não desenvolveu

linguagem oral, somente pôde se tornar um pouco sociável, depois de tanto tempo

apartado do seu grupo, devido aos esforços de um professor em humanizá-lo,

oferecendo-lhe alguns suportes necessários.

O que aconteceu com o menino foi o que podemos chamar de uma deficiência

intelectual circunstancial ou contextual, devido à privação aguda de cuidados e

de uma língua. Se ele não tivesse sido estimulado, provavelmente teria sido mantido

no asilo para loucos, onde não teria desenvolvido aprendizagem alguma.

Há, portanto, dois grandes grupos de problemas de aprendizagem: aqueles

orgânicos/constitucionais – ou estruturais – e aqueles circunstanciais – ou contextuais.

Se um ambiente hostil é capaz de produzir uma dificuldade de aprendizagem, podemos

considerar como verdadeiro também que este mesmo ambiente é capaz de minimizá-

la ou mesmo superá-la. Desta forma, e de acordo com Fonseca (2009, p. 132), um

ambiente facilitador para a aprendizagem é aquele que:

1) Promove perguntas capazes de ajudar a criança a focar a sua atenção nos seus

próprios processos de pensamento e encorajam-nas a “ocuparem-se em ‘pequenas

conversas’ similares com elas próprias”. Exemplo: “Como podemos encontrar uma

solução para este problema? O que devemos fazer primeiro? Como você descobriu

isso?”.

2) Promove atividades que exijam que conceitos, princípios e estratégias que são

aplicados aos contextos mais habituais sejam aplicados em uma variedade de

situações. Ao ensinar aos alunos da Educação Infantil os conceitos de muito e

pouco a partir de materiais concretos, a professora poderá fazer perguntas sobre

quantidades no momento em que estiverem no refeitório, por exemplo.

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3) Promove provocações ou solicita justificações. Um ambiente facilitador para a

aprendizagem deve ser capaz de comparar respostas corretas com incorretas.

Exemplo: “Como é que você sabe que esta deveria ser a resposta correta? Porque

esta é melhor resposta do que qualquer outra?”.

4) Ensina regras. Compreender regras permite a generalização e a transferência dos

conhecimentos aprendidos para outras situações similares. Os alunos devem ser

constantemente solicitados a generalizar. Exemplo: “Se os pássaros vermelhos

têm penas, os pássaros azuis têm penas (...) os pardais têm penas, você consegue

pensar em uma regra para os pássaros?”. (FONSECA, 2007, p. 135)

5) Enfatiza a ordem, a previsibilidade, a sistematização, a sequenciação e o uso de

estratégias. O mediador (professor ou qualquer pessoa que conduza um processo

de aprendizagem) deve levar o aluno a observar que os acontecimentos do mundo

estão normalmente ordenados em sistemas. Exemplo: inicialmente, para os

pequenos da Educação Infantil, os movimentos da Terra podem ser ensinados a

partir das evidências de dia e noite; posteriormente, pode-se apresentar os

conceitos de translação e rotação e, num momento, adiante ensinar as ideias de

latitude e longitude.

Desta forma, devemos levar em consideração que crianças e jovens com problemas

de aprendizagem são mais capazes de raciocínio lógico do que pensamos, já que,

como vimos anteriormente, possuem inteligência para se beneficiar das intervenções

e mediações.

Adaptações Curriculares

Interferências no processo de aprendizagem, consideradas aqui “mediatizações”,

podem ser realizadas tanto em uma relação diádica – isto é, que envolvam um adulto

e uma criança –, quanto podem ser realizadas em grupos – ou seja, em ambientes

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formais, como a escola. Neste contexto, as mediatizações são denominadas

“adaptações curriculares”. As adaptações curriculares podem ser entendidas como um

conjunto de modificações que se realizam nos objetivos, conteúdos, critérios e

procedimentos de avaliação, atividades e metodologia. (BRASIL, 1999)

Elas também podem ser de grande porte ou significativas e de pequeno porte ou não

significativas.

Apesar da terminologia adotada oficialmente, as adaptações de pequeno porte ou não

significativas são aquelas que realmente fazem a diferença na prática pedagógica. É a

partir da existência de adaptações de pequeno porte que identificamos se uma escola

é verdadeiramente inclusiva.

Para você refletir melhor sobre este tema, imagine uma escola que receba um aluno

com uma dificuldade específica de leitura e escrita – como é o caso da dislexia –, ou

seja, a escola garante a matrícula e o acesso, insere este aluno no ano de escolaridade

referente ao seu grupo de origem, de acordo com a idade cronológica, incentiva a

participação do aluno nos diversos momentos pedagógicos, mas não elabora

adaptações curriculares que respeitem as particularidades trazidas pela dificuldade que

ele apresenta.

O aluno, então, não terá disponíveis os materiais adaptados que permitem que os

procedimentos didáticos e as avaliações sejam realizados de forma justa.

No que se refere à questão da avaliação escolar, que é normalmente burocrática e

normativa, devemos prestar especial atenção. Se não houver uma avaliação

condizente com aquilo que o aluno é capaz de aprender, haverá dificuldade para o

professor ter uma visão ampla sobre o seu funcionamento cognitivo. No caso dos

alunos com dificuldade de aprendizagem, seja a dislexia ou qualquer outra, o tipo de

avaliação que qualifica e mensura a produção do aluno no dia a dia – a avaliação

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processual – deve ser a escolhida. Esta seria uma adaptação curricular do tipo

avaliativa.

A avaliação processual, mesmo nas escolas em que está presente, parece, porém, não

ser prioritária nos casos de dificuldade