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Região   desafios e embates contemporâneos

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Texto REGIÃO: DESAFIOS E EMBATES CONTEMPORÂNEOS (Meri Lourdes Bezzi)
INTRODUÇÃO 
Segundo Paviani (1992, p. 372), “falar de região é caminhar em um terreno cheio de labirintos e de armadilhas epistemológicas. 
A preocupação central deste trabalho é demonstrar que o conceito de região persiste, embora enfrente desafios significativos frente aos imperativos impostos pela globalização.
Acredita-se que a noção de região contém um sentido político. Possui essa característica como um constituinte inerente, relacionado a mecanismos de dominação, fruto sempre de uma situação de hegemonia.
O CONCEITO DE REGIÃO NA GEOGRAFIA TRADICIONAL 
O conceito de região surge no cenário científico com a preocupação de designar poder/ governo.
O termo advém do latim regere, que denotava área, extensão espacial, soberania e unidade administrativa, entre outras denominações.
A contribuição da corrente positivista para o estudo do mesmo foi muito significativa, culminando com o conceito de região natural e região geográfica.
Se percebe que as regiões eram definidas tendo como base as características físicas, ou seja, as diferenças fisiográficas foram a base até mesmo para a formação das distintas regiões geográficas humanas.
Não conseguiram, no entanto, definir, com a região, um objeto único de estudo da Geografia Tradicional. 
Pode-se dizer, então, que a revolução industrial eliminou as noções clássicas de região e, assim, a região perdeu seu lugar de conceito relevante na Geografia Tradicional.
Região natural: para a ciência geográfica, somente o ambiente e as condições físicas não são capazes de explicar o todo e, portanto, de se caracterizar como um estatuto do conhecimento geográfico.
Região humana ou região geográfica: Por outro lado, admite-se que são de maior relevância as regiões geográficas nas quais ocorre e se reproduz a ação humana, com sua cultura, suas atividades, sua economia. Não há dúvida, pois, de que um recorte espacial deverá expressar as características peculiares do trabalho humano
O CONCEITO DE REGIÃO NA NOVA GEOGRAFIA E O PLANEJAMENTO REGIONAL 
A Nova Geografia procurou aprofundar a investigação geográfica, buscando a relação existente entre os fenômenos.
A abordagem regional, determinada pelas inter-relações dos fenômenos naturais e sociais sobre a unidade territorial, enfatizava os estudos de área.
A abordagem do conceito de região adquiriu uma conotação de área classificada de acordo com um ou mais critérios, o(s) qual(is) obedecia(m) à aptidão, à localização, à acessibilidade e à produção, entre outras variáveis. 
Assim, o conceito de região, intimamente relacionado à categoria espaço, tem suas particularidades e personalidades investigadas e valorizadas. 
Ou seja, o mundo é reconhecidamente integrado e diferente espacialmente. Há hierarquias e papéis diferenciados, isto é, funções individualizadas em um sistema que tende a se homogeneizar.
A Nova Geografia trouxe para o conceito de região, duas abordagens tiveram especial destaque: a das regiões homogêneas e a das regiões funcionais ou polarizadas (IBGE).
Regiões homogêneas: classificadas em torno de características consideradas como fixas, eram constituídas por uma extensão territorial definida a partir da agregação de áreas que apresentassem características estatísticas semelhantes, em relação às variáveis consideradas. são aquelas cuja identidade sempre se relacionará com características físicas, econômicas, sociais, políticas e culturais, entre outras, em uma determinada área. Entretanto, para sua delimitação, é necessário que essa uniformidade seja contígua no espaço.
Regiões funcionais: eram associadas aos diversos fluxos que percorrem o espaço. Constituía-se, então, em áreas definidas a partir de fluxos de pessoas, de mercadorias, de comunicação etc., também definidos estatisticamente. Ela é fruto das relações do capital sobre o espaço, pelo viés econômico, e o geógrafo incorporou essa terminologia, principalmente, nos estudos que buscavam definir as regiões urbanas. Nesse contexto, a estruturação do espaço não é vista sob o caráter da uniformidade espacial, mas sim das múltiplas relações que circulam e dão forma a um espaço que é internamente diferenciado
O CONCEITO DE REGIÃO NA GEOGRAFIA CRÍTICA E NAS NOVAS TENDÊNCIAS 
A Geografia Crítica se estabelece e se manifesta alimentada da Nova Geografia, através das discordâncias feitas às novas concepções teórico metodológicas daquela escola geográfica, como também condena muitos aspectos da Geografia Tradicional.
Esse novo direcionamento na Geografia Crítica, nasce paralelamente com outras tendências geográficas: a Geografia Humanística e a Geografia Cultural.
As razões da ruptura com a Nova Geografia devem-se à concepção de que a Geografia deveria ser uma ciência preocupada com os problemas sociais e, por isso, deveria aprofundar as relações sociedade versus natureza, tendo como objeto a realidade social.
A Geografia Crítica interessa-se pela análise dos modos de produção e das formações socioeconômicas como base para a explicação ou estruturação das distintas formações socioeconômicas espaciais, que devem ser analisadas e compreendidas para o melhor entendimento das regiões.
A Geografia Crítica descobre o Estado e os demais agentes de organização espacial (os proprietários rurais, os industriais, os banqueiros, os incorporadores imobiliários, entre outros) como importantes agentes ou atores na estruturação dos recortes regionais.
Gilbert (1988) aborda diferentes maneiras de conceituar geograficamente a região, apresentando, especificamente, três direcionamentos básicos para o entendimento desse conceito: (a) a região como resposta local aos processos capitalistas; (b) a região como foco de identidade cultural e, (c) a região como interação social.
Lipietz (1988) constata que o desigual desenvolvimento geográfico é fruto da articulação entre o modo de produção capitalista (dominante) e os diferentes modos de produção, surgindo daí “espaços” ou “regiões” dominantes e dominados. O agente responsável por essa desigualdade seria a divisão internacional e inter-regional do trabalho, estabelecida diferentemente, e que, ao mesmo tempo, se baseia em uma polarização do tipo centro-periferia do espaço inter e intranacional, que dinamiza o circuito de mercadorias.
Nesse contexto, a permanência de modos de produção distintos em um mesmo espaço dependeria da capacidade e competência do Estado em proporcionar o avanço do capitalismo monopolista através de uma nova divisão do trabalho e, pela intervenção política e social, evitar a manifestação de conflitos, garantindo, ao mesmo tempo, a modernização e o controle social.
Santos salienta que a região não pode ser vista hoje isoladamente, uma vez que o processo de globalização que comanda o mundo torna-o “menor” e cada vez mais interligado. 
Não faz, pois, sentido falar-se de regiões isoladas. Os fluxos, as redes, as dinâmicas espaciais fazem com que as regiões percam sua autonomia.
A segunda maneira de direcionar o entendimento do conceito de região enfatizado por Gilbert (1988) é apreender a região como um foco de identificação cultural, nas relações sociais, a cultura é o objeto principal das abordagens regionais. Para essa abordagem, duas fontes principais são consideradas. A primeira é a Geografia Humanista, que se apóia nas filosofias do significado e que, em última instância, concebe a região como um espaço vivido.
De acordo com Tuan (1980): a qualidade da ligação emocional dos objetos físicos, as funções dos conceitos e símbolos são primordiais na criação da identidade do lugar.
Ricq (1982), o regionalismo é uma postura ativa, tem como ponto de partida a cultura local vivida e serve-se da identidade para encaminhar as aspirações do grupo. 
Já a regionalização se traduz em uma fraca coesão e unidade do grupo, facilitando e aceitando a ingerência de técnicos do governo nas decisões regionais, pois esses desenvolvem programas, políticas e planos para as regiões, ignorando, muitas vezes, os problemas cotidianos
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