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Trabalho Direito Internacional Gisela

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Dissertação
Princípios do Direito Internacional (artigo 4º da CF)
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
 I - independência nacional;
 II - prevalência dos direitos humanos;
 III - autodeterminação dos povos;
IV - não intervenção;
 V - igualdade entre os Estados;
 VI - defesa da paz;
 VII - solução pacífica dos conflitos;
 VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
 IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
 X - concessão de asilo político.
 Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.
Agora analisaremos um a um.
Independência nacional
A República Federativa do Brasil não se submeterá a nenhum outro ordenamento jurídico.
 Prevalência dos direitos humanos
Os direitos humanos têm de estar em posição hierárquica acima do que qualquer outro bem jurídico local.
Autodeterminação dos povos
Esse princípio pode ser interpretado como o respeito à soberania dos outros países.
Não intervenção
Pode ser entendida como a não aceitação de invasão armada de outros países a nossa República.
Igualdade entre os Estados
Não chega ser uma igualdade absoluta, mas relativa, na medida de suas desigualdades, que se mostram mais específicas no plano econômico, sendo que é uma tentativa de diminuir essa distância entre uns e outros Estados. Como premissa fundamental de Direito Internacional Público, a igualdade está intimamente associada ao princípio da reciprocidade.
Defesa da paz
É status quo estabelecido de respeito à ordem.
Solução pacífica dos conflitos
Complementa o princípio anterior, pois busca solução pacífica e repudia a guerra para que ocorram mudanças nos países.
Repúdio ao terrorismo e ao racismo
O terrorismo internacional não encontrará refúgio aqui e qualquer tipo de terrorismo em solo nacional sofrerá as penas da lei.
Cooperação entre os povos para o progresso da humanidade
A interação pelo progresso da humanidade baseia-se no dever de solidariedade e de auxílio mútuo entre as nações.
Concessão de asilo político
Esse asilo é concedido a quem esteja sendo perseguido por motivos políticos ou de opinião em seus países ou em outros países que estejam habitando.
Analise de Recurso Especial 466.343/SP
Este recurso vem debater a questão do depositário infiel, mas o que vem a ser isso?
Depositário infiel é um indivíduo que ficou responsável pela guarda de um bem que não lhe pertence e deixou que este bem desaparecesse ou que tenha sido roubado, etc. De depositário fiel passou a ser depositário infiel.
O Recurso Extraordinário nº 466.343/SP trata-se de uma decisão histórica do Supremo Tribunal Federal, pela qual a Corte Suprema posicionou-se pela inconstitucionalidade da prisão civil do depositário infiel. Ainda, a referida decisão traça criação jurisprudencial, qual seja a "norma supralegal", que revoluciona o entendimento acerca da hierarquia normativa dos tratados internacionais de direitos humanos no Estado Brasileiro.
Nesse contexto, será analisado o posicionamento do STF pertinente ao RE nº 466.343/SP e suas implicações no ordenamento jurídico pátrio. A análise realizar-se-á por meio de uma pesquisa de caráter bibliográfico e documental.
Dentre os principais resultados, citam-se: a) A Suprema Corte obedece à supremacia constitucional, já que os tratados internacionais de direitos humanos foram hierarquicamente postos abaixo da Constituição e acima da legislação ordinária; b) No entanto, trata-se de ativismo judicial a criação da norma supralegal, a qual não tem qualquer suporte constitucional para existir; c) Apesar da discordância quanto à interferência do Judiciário na seara do Legislativo, aplaude-se a decisão que declara inconstitucional a prisão civil do depositário infiel.
Concluiu-se que a referida decisão harmoniza-se com as disposições internacionais acerca dos direitos humanos, em destaque a Convenção Americana, a qual repele a prisão civil que não tenha por respaldo a dívida de alimentos. No entanto, há o que se questionar quanto à notória atuação legiferante que adotou o Supremo Tribunal Federal, o qual, criando nova hierarquia na pirâmide normativa, afronta à própria Constituição, a quem tem o dever de resguardar.
1. A PRISÃO CIVIL DO DEPOSITÁRIO INFIEL E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS
A prisão civil do depositário infiel encontra disposição na Constituição Federal, especificamente no art. 5º, inc. LXVII, bem como na legislação infraconstitucional frente ao Dec. 911/69 e ao art. 652 do novo Código Civil. Desta feita, vê-se que a expressividade de tais normas encontra-se em afronta ao Pacto San José da Costa Rica – também denominado Convenção Americana de Direitos Humanos –, bem como do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, os quais afastam qualquer hipótese de prisão civil por dívidas, ressalvando-se a do devedor de alimentos.
É o que se constata da literalidade dos artigos 7º, da Convenção Americana e artigo 11 do PIDCP, veja-se: "Ninguém deve ser detido por dívidas. Este princípio não limita os mandados de autoridade judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar" (CONVENÇÃO AMERICANA). Assim como, art.11: "Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual.”. 
Nesse sentido, cumpre, a priori, indagar: a) Qual a representatividade de tal conflito? b) Como a Corte Suprema Brasileira tem se posicionado e qual seu impacto jurídico?
O conflito em comento reporta-se a uma primeira reflexão, qual seja a da importância dos tratados internacionais de Direitos Humanos frente ao ordenamento jurídico brasileiro. Nessa perspectiva, cite-se que o Brasil ratificou o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção Americana no ano de 1992, subordinando-se às normas deles provenientes. Nessa linha, Piovesan (2008, p. 284) leciona:
[...] o Brasil assume, perante a comunidade internacional, a obrigação de manter e desenvolver o Estado Democrático de Direito e de proteger, mesmo em situações de emergência, um núcleo de direitos básicos e inderrogáveis. Aceita ainda que essas obrigações sejam fiscalizadas e controladas pela comunidade internacional, mediante uma sistemática de monitoramento efetuada por órgãos de supervisão internacional.
A ratificação de inúmeros tratados de Direitos Humanos pelo Estado Brasileiro faz parte do processo de democratização vivenciado a partir de 1988, a partir do qual se torna imperativo ao Brasil a harmonização de sua legislação interna com as disposições internacionais. Pode-se dizer que se trata de um fruto constante do cenário internacional, o qual, após as atrocidades cometidas na Segunda Guerra, volta a atenções à dignidade da pessoa humana. Segundo Piovesan (2006, p. 408):
Observa-se que, na experiência brasileira e mesmo latino-americana, a abertura das Constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão a feição das Constituições promulgadas ao longo do processo de democratização política.
Antes disso, os tratados tradicionais eram celebrados visando os interesses entre os Estados, relegando a matéria da proteção dos direitos humanos às competências internas de cada país (PIOVESAN, 2008). Nesse sentido, observa-se a passagem da jurisdição interna da proteção dos direitos humanos para a internacional. O indivíduo passa a estar também imerso em um ordenamento internacional, que compartilha ações e aspirações com fins de protegê-lo.
Em um segundo momento, urge atentar para a questão da hierarquia que tais tratados ratificados pelo Brasil passam a deter frente ao ordenamento jurídico pátrio. É mais pertinente o questionamento se levado ao caso concreto: Na situação da prisão civil do depositário infiel, diante da existência de disposiçãointernacional que afronte a legislação ordinária interna, será aquela capaz de revogar esta? Quanto à norma do art. 5º, inc. LXVII - por certo detentora da qualidade de cláusula pétrea - poderá ser abolida por norma alienígena? Ou seja, no que toca à Constituição e à legislação ordinária, qual o status hierárquico dos tratados internacionais de direitos humanos?
Segundo o voto proferido pelo Ministro Gilmar Ferreira Mendes quanto à apreciação do RE 466.343/SP, observa-se a indicação de quatro correntes concernentes à hierarquia normativa dos tratados:
a) a vertente que reconhece a natureza supraconstitucional dos tratados e convenções em matéria de direitos humanos;
b) o posicionamento que atribui caráter constitucional a esses diplomas internacionais;
c) a tendência que reconhece o status de lei ordinária a esse tipo de documento internacional;
d) por fim, a interpretação que atribui caráter supralegal aos tratados e convenções sobre direitos humanos.
Quanto à primeira, os tratados de direitos humanos teriam papel preponderante às normas constitucionais, o que está de acordo com o pensamento do Ministro Celso de Mello. A segunda corrente, defendida por Piovesan (2008), equipara os tratados e as normas constitucionais, de forma que os eventuais conflitos deveriam ser resolvidos pelo princípio da norma mais favorável. A terceira reporta-se a um entendimento ultrapassado do Supremo Tribunal Federal, esposado no RE nº 80.004/SE, Rel. Xavier de Albuquerque, DJ 29.12.1977, entendendo que os tratados estariam vulneráveis à derrogação por lei posterior. A quarta, hodiernamente adotada pelo STF, apresenta a "supra legalidade", pela qual as normas constantes de tratados internacionais de direitos humanos submetem-se hierarquicamente à Constituição, entretanto gozam de qualificação especial em relação à legislação ordinária, sendo superiores a estas. (STF)
2. O POSICIONAMENTO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – VOTO DO MINISTRO GILMAR FERREIRA MENDES
Far-se-á uma análise do posicionamento do STF a partir, precipuamente, do voto do Ministro Gilmar Mendes no que concerne aos tratados internacionais de Direitos Humanos. Veja-se o objeto do litígio:
O recurso extraordinário foi interposto pelo Banco Bradesco S.A [...], contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo que, negando provimento ao recurso de apelação nº 791031-0/7, consignou entendimento no sentido da inconstitucionalidade da prisão civil do devedor fiduciante em contrato de alienação fiduciária em garantia, em face do que dispõe o art. 5º, inciso LXVII, da Constituição. 
Segundo o Ministro, há disposições na Constituição de 1988 que demonstram a abertura constitucional para as normas de direito internacional. O art. 4º da CF, pelo qual se depreende que "A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações", relata a disposição do Estado Brasileiro frente um movimento de integração na ordem internacional.
Uma segunda cláusula seria a que está tipificada no §2º do art. 5º da CF, segundo a qual "Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte". Destaque-se que essa norma representa a ampliação dos direitos fundamentais, no sentido de que estes não se encerram na taxatividade exposta no artigo 5º, mas "acompanham as evoluções, políticas, sociais e jurídicas da sociedade, quanto ao surgimento de novos direitos e garantias fundamentais, em prol da defesa da dignidade humana, princípio fundamental do Estado Democrático de Direito." (LOPES; MARQUES, 2007, p. 53).
As terceira e quarta cláusulas são as constantes do §3º e §4º do art. 5º, quais sejam, respectivamente: "os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais", e "o Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão." (CF, 1988).
Nessa perspectiva, o Ministro prossegue na defesa de que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal - frente ao entendimento de prevalência dos direitos humanos e fundamentais - não poderia permanecer creditando aos tratados internacionais status de lei ordinária, obedecendo, em caso de conflito, à regra da norma posterior. Desta feita, a posição é de que "os tratados sobre direitos humanos não poderiam afrontar a supremacia da Constituição, mas teriam lugar especial reservado no ordenamento jurídico.", destacando-se, logo mais: "É necessário assumir uma postura jurisdicional mais adequada às realidades emergentes em âmbitos supranacionais, voltadas primordialmente à proteção do ser humano.”. 
Portanto, no que toca à hierarquia, os tratados internacionais de direitos humanos, desde que não aprovados sob o quórum de emenda, estão submetidos à supremacia constitucional, gozando de privilégio frente à legislação ordinária. Denomina-se norma "supralegal", a que se põe abaixo da Constituição e acima da lei pátria.
O Ministro prossegue na assertiva de que a internalização dos tratados internacionais de Direitos Humanos "tem o condão de paralisar a eficácia jurídica de toda e qualquer disciplina normativa infraconstitucional com ela conflitante”.
É cediço que se saiba, pois, que a prisão civil do depositário infiel, até então admitida no ordenamento jurídico brasileiro, passa a não ter qualquer sustento legal, vez que a norma supralegal paralisa a aplicação de toda norma infraconstitucional que possa instrumentalizar a prisão. Sendo assim, ainda que a norma constante do art. 5º, inciso LXVII, não tenha sido revogada, apresenta-se sem qualquer aplicabilidade.
Observe-se a Ementa do julgamento do RE nº 466.343:
PRISÃO CIVIL
. Depósito. Depositário infiel. Alienação fiduciária. Decretação da medida coercitiva. Inadmissibilidade absoluta. Insubsistência da previsão constitucional e das normas subalternas. Interpretação do art. 5º, inc. LXVII e §§ 1º, 2º e 3º, da CF, à luz do art. 7º, § 7, da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica). Recurso improvido. Julgamento conjunto do RE nº 349.703 e dos HCs nº 87.585 e nº 92.566. É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade do depósito.
Por fim, destaquem-se as três modalidades de tratamento dos tratados internacionais:
1. Hierarquia supralegal: os tratados internacionais aprovados sem o quórum de emenda à Constituição possuem status supralegal, o qual autoriza a invalidade da legislação infraconstitucional conflitante.
2. Hierarquia de emenda à Constituição: aprovados de acordo com o art. 5º, §3º, CF/88.
3. Hierarquia Ordinária: os tratados internacionais que não sejam pertinentes à temática dos direitos humanos detêm hierarquia semelhante à legislação ordinária.
2.1. LEGITIMIDADE DO STF NA CRIAÇÃO DA NORMA SUPRALEGAL
A decisão acerca da prisão civil do depositário infiel traz impactos jurídicos ao ordenamento brasileiro, os quais merecem alguns questionamentos. É oportuna a comemoração frente à posição do Estado Brasileiro - atuando no sentido de afastar a possibilidade de prisão civil por dívidas, ressalvado o devedor de alimentos – que se coaduna com o apelo internacional de direitos humanos. Cabem, entretanto, dúvidas quanto ao modo como se deu o referido afastamento das disposições constitucionais e legais que autorizam a prisão.
O artigo 59 da Constituição Federal dispõe:
O processo legislativo compreende a elaboração de: I - emendas à Constituição; II - leis complementares; III - leis ordinárias; IV - leis delegadas; V - medidas provisórias; VI - decretos legislativos; VII - resoluções.
Nesse sentido, como conceber a existência de uma norma dita "supralegal",sem que a Constituição, expressão da vontade popular preveja tal possibilidade? Como entender legítima uma disposição legal que afronta a democracia, ao escusar-se dos meios constitucionais para a aplicação do Direito, estando fundada na interpretação-criadora-legiferante do Judiciário?
Por certo, a Constituição Federal de 1988 previa meios para a decretação de inconstitucionalidade da prisão civil do depositário infiel, tanto a partir da interpretação do Supremo através do §2º do art.5º, pelo qual poderia dotar de status constitucional o Tratado, quanto pela atuação do Legislativo de acordo com o §3º.
É de bom alvitre citar a posição de Feracin (2011, p.81):
[...] a Carta Magna prevê os instrumentos hábeis e legais para recepcionar um tratado internacional de forma material e formalmente constitucional, com base no §3º do artigo 5º. Nesse caso, bastaria a atuação do Poder Legislativo para que o Pacto de São José da Costa Rica tivesse status de emenda constitucional.
Desta feita, assiste-se à inobservância do princípio fundamental da separação dos poderes, onde se vê o órgão responsável por resguardar a Constituição, colocá-la em risco.
3. CONCLUSÃO
A experiência da Segunda Guerra Mundial fez com que a atenção internacional se voltasse para a questão dos Direito Humanos. Desta feita, surgiram inúmeros tratados a fim de sistematizar direitos que deveriam ser respeitados pelos Estados-partes.
O Estado Brasileiro adere a grande maioria desses tratados, a partir do seu processo de democratização em 1988, ratificando, por exemplo, a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.
Nesse sentido, ao tempo em que se submete à legislação internacional, vê-se o surgimento de conflitos com as normas de âmbito interno. Assim, verificou-se que a prisão civil do depositário infiel é disposta no ordenamento pelo Constituinte Originário a partir do art. 5º, inc. LXVII, bem como na legislação ordinária; o que se conflita com as disposições constantes na Convenção Americana e no PIDCP, os quais afastam a possibilidade da prisão civil por dívidas, ressalvada a do devedor de alimentos.
O Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RE 466.343/SP, afastou a prisão civil do depositário infiel, a partir de um novo entendimento acerca da internalização dos tratados internacionais de Direitos Humanos.
Entendeu o Supremo que os referidos tratados, in casu, a Convenção Americana e o PIDCP, detêm status hierárquico inferior à Constituição, entretanto superior à legislação ordinária. Tal status é denominado de norma supralegal.
Desta feita, diz-se que a prisão civil do depositário infiel não sofreu revogação, mas a eficácia das normas que lhe possibilita foi paralisada, tornando-a ineficaz.
Por fim, questiona-se a legitimidade do Supremo Tribunal Federal frente à modificação da pirâmide normativa, entendendo-se que a referida tarefa caberia tão somente ao Poder Legislativo, a quem efetivamente compete modificar a Constituição Federal.
Ainda que se concorde com o afastamento da prisão civil do depositário infiel, já que se trata de afronta aos direitos da pessoa humana, não se adere ao entendimento de que o Supremo possui competência para criações legislativas, o que, por certo, fere o cerne do que se entende por democracia.
Questões
Exceção à coisa julgada.
 Uma das incongruências colocadas entre as disposições do Estatuto de Roma e a Constituição Federal brasileira se refere à ofensa à coisa julgada material, definida pelo art. 467 do CPC, como sendo “a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.
A Constituição, em seu art. 5º, inciso XXXVI, impõe respeito à coisa julgada nacional, garantia essa já posta a salvo pelo art. 6º da LINDB.
Preliminarmente impende fazer uma abordagem do conceito de coisa julgada entendido como tal.
Cintra (2009, p. 328) define coisa julgada como “a sentença não mais suscetível de reforma por meio de recursos transita em julgado, tornando-se imutável dentro do processo”.
Para Theodoro Júnior (2000, p. 462) “apresenta-se a res iudicaia, assim, como qualidade da sentença, assumida em determinado momento processual. Não é efeito da sentença, mas a qualidade dela representada pela "imutabilidade" do julgado e de seus efeitos”.
Em suma, coisa julgada é a imutabilidade da sentença ou acórdão para a (o) qual se efetuou o trânsito em julgado, quer pelo esgotamento das vias recursais, quer pela não interposição do recurso cabível no prazo estipulado pela lei. Desta forma, a coisa julgada pode sobrevir tanto de uma sentença/acórdão transitada (o) em julgado, quanto do transcurso do prazo recursal in albis.
O Art. 20 do Estatuto regula as exceções ao princípio da Coisa Julgada.
Dentro desse contexto, tema interessante seria o caso de uma pessoa já ter sido julgada e condenada ou absolvida pelo Judiciário brasileiro, em razão da prática de crime afeto à jurisdição do TPI. Observa-se que, caso o julgamento tenha sido conduzido de maneira imparcial, uma vez operando-se o trânsito em julgado da sentença, formar-se-á a coisa julgada, a qual deve ser respeitada.
Neste sentido, o Estatuto, no art. 20, §3º, veda o bis in idem, ou seja, ser o agente punido duas vezes pelo mesmo fato, salvo na hipótese do julgamento do acusado lhe ter subtraído a sanção, ou tenha se realizado eivado de parcialidade ou, ainda, frustre a finalidade da atuação estatal. Assim, “o fato de a sentença interna produzir coisa julgada não impede a atuação complementar do Tribunal Internacional, quando ocorrida uma das hipóteses de favorecimento do acusado previstas no art. 20, §3º, do Estatuto de Roma”.
No mesmo sentido Comparato (2010, p. 481) leciona que:
As exceções ao princípio da coisa julgada, estabelecidas no art. 20 do Estatuto, justificam-se plenamente, pois elas dizem respeito a situações em que a coisa julgada ocorrida no Brasil estaria viciada pelo fato de o processo-crime ter sido realizado no intuito de fraudar a aplicação do Estatuto em relação ao réu.
A jurisdição do Tribunal Penal Internacional é subsidiária à jurisdição estatal. O Tribunal, portanto, somente atuará quando o julgamento local tiver sido forjado para absolver o autor dos crimes definidos pelo Estatuto, ou então quando a investigação e o processamento desses acusados demorar injustificadamente.
A respeito Gomes (2007) se posiciona:
Não há qualquer ofensa ao instituto da coisa julgada quando o nacional é submetido a julgamento no Brasil e absolvido, e, depois, julgado pelo TPI e condenado: trata-se de esferas diferentes, uma interna e outra internacional e, entre elas, não se pode reconhecer a ocorrência da coisa julgada.
A decisão de mérito proferida pelo TPI (seja ela pela absolvição ou pela condenação) fará coisa julgada, não podendo ser revista pela jurisdição interna do Estado-parte. Igualmente, uma decisão de mérito proferida pelo Poder Judiciário do Estado-membro do Estatuto, sobre crimes da competência do TPI, fará coisa julgada perante o Tribunal, salvo se ficar demonstrada fraude ou favorecimento do acusado no julgamento.
Portanto, é também equivocado o entendimento de que o Estatuto de Roma desrespeita a coisa julgada material, visto que somente dá ensejo à possibilidade de reforma no julgamento quando inquinado em fraude o ato ou, excepcionalmente, ante a possibilidade de o TPI reanalisar a coisa já anteriormente julgada em último grau pelo Judiciário nacional. Neste último caso em específico a norma erigida a nível constitucional que impõe respeito à coisa julgada deve ceder perante a jurisdição do TPI. No caso do Brasil, embora seja signatário do Tratado de Roma, muitos pontuam que a ratificação do referido Estatuto estaria a desrespeitar um dos fundamentos que alicerçam a Constituição Federal Brasileira, qual seja, a soberania nacional (art. 1º, inciso I, da CF/88[24]) quando, por exemplo, prevê exceções à coisa julgada(art. 20 do Estatuto de Roma), em contraponto à imposição constitucional que lhe confere respeito (art. 5º, inciso XXXVI).
O respeitado doutrinador André Ramos Tavares salienta que essas incongruências são insanáveis, posto que não se possa mudar a Constituição Federal nesses aspectos, por conta das chamadas cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, da CF/88).
Por sua vez, uma parcela significativa da doutrina, formada por nomes de peso (Flávia Piovesan, Valério de Oliveira Mazzuoli e Luiz Flávio Gomes) defende que se trata de um conflito de normas (antinomia) apenas aparente, vez que os critérios para solucioná-lo são normas integrantes do ordenamento jurídico, pelos motivos delineados nos parágrafos seguintes.
Como com propriedade se posiciona Steiner (PRR-3, 2009):
Os dois sistemas - o nacional e o do TPI - não se misturam, não se confundem, não interferem um com o outro. Portanto, não vejo como possível alegar-se incompatibilidade entre sistemas que não se tocam que são paralelos.
 Em que pese a possível antinomia que pode surgir em um primeiro momento, uma análise hermenêutica pormenorizada do assunto conclui ser cediço que o conflito de normas é apenas aparente.
Chayes (1995 apud PIOVESAN, 2000) entende:
 [...] que a soberania não pode mais consistir na liberdade dos Estados de atuarem independentemente e de forma isolada à luz do seu interesse específico e próprio. A soberania hoje consiste, sim, numa cooperação internacional em prol de finalidades comuns. Um novo conceito de soberania, diz o autor, aponta a existência de um Estado não isolado, mas membro da comunidade e do sistema internacional. Os Estados, conclui, expressam e realizam a sua soberania, participando da comunidade internacional, ou seja, participar do sistema internacional é sobretudo um ato de soberania por excelência. Prenuncia-se, desse modo, o fim da era em que a forma pela qual o Estado tratava os seus nacionais era concebida como um problema de jurisdição doméstica decorrente da sua soberania. Nesse contexto, pode-se afirmar que uma das principais preocupações desse movimento de internacionalização dos direitos humanos é justamente convertê-los em tema de legítimo interesse da comunidade internacional.
Com relação à soberania, mostra-se acertada a afirmação do doutrinador Mazzuoli (2011, p. 973/974), para quem:
Não existe restrição ou diminuição da soberania para os países que já aderiram, ou aos que ainda irão aderir ao Estatuto de Roma. Ao contrário: na medida em que um Estado ratifica uma convenção multilateral como esta, que visa trazer um bem estar que a sociedade internacional reivindica há anos, ele não está fazendo mais do que, efetivamente, praticando um ato de soberania, e o faz de acordo com a sua Constituição, que prevê a participação dos poderes Executivo e Legislativo (no caso brasileiro: CF, arts. 84, inc. VIII e 49, inc. I, respectivamente) no processo de celebração de tratados internacionais.
Neste sentido esse monitoramento realizado pelo TPI, mediante o consentimento prévio do Estado que a ele se submeteu por intermédio da ratificação, não configura uma intromissão indevida no exercício da soberania desse mesmo Estado soberano. Afinal, a jurisdição do TPI é complementar, se coaduna com a jurisdição doméstica, conforme amplamente enfatizado ao longo deste artigo.
É sob esse enfoque que deve ser compreendido o TPI. Consoante preceitua Piovesan (2000), “o Tribunal Internacional Penal surge como um aparato complementar a jurisdição penal nacional. O Estatuto de Roma reitera a idéia de que o Estado tem a responsabilidade primária, o dever jurídico de emprestar a sua jurisdição. No entanto, se isso não ocorrer, a responsabilidade subsidiária é da comunidade internacional,” acionável quando as instituições nacionais mostrarem-se falhas ou omissas na proteção dos direitos humanos.
 A mesma Piovesan (2003, p.151) continua:
A jurisdição do Tribunal é adicional e complementar à do Estado, ficando condicionada à incapacidade ou à omissão do sistema judicial interno. O Estado tem o dever de exercer sua jurisdição penal contra os responsáveis por crimes internacionais, tendo a comunidade internacional à responsabilidade subsidiária. [...] A jurisdição do Tribunal Penal Internacional não substitui a jurisdição local, mas é a ela complementar e subsidiária.
 E, por fim, conclui (Ibid., p. 151/152) que: 
O reconhecimento da jurisdição do Tribunal Penal Internacional, em si mesmo, é ato de soberania do Estado brasileiro, não cabendo ao Estado, a posteriori, valer-se desta mesma soberania para afastar a jurisdição Internacional.
No mesmo sentido são as lições de Mazzuoli (2005, p. 55):
Sua jurisdição, obviamente, incidirá apenas em casos raros, quando as medidas internas dos países se mostrarem insuficientes ou omissas no que respeita ao processo e julgamento dos acusados, bem como quando desrespeitarem as legislações penal e processual internas.
Destarte, a jurisdição do Tribunal Penal Internacional terá caráter excepcional, sendo que somente será cabível a aplicação desse Estatuto quando o Estado se mostrar manifestamente falho, omisso, incapaz de responder às violações de direitos humanos.
Outrossim, uma violação aos direitos humanos não se trata apenas de uma afronta a direito fundamental tutelado na órbita dos limites territoriais de um determinado País, mas de toda a humanidade em conjunto, independentemente de estarem positivados ou não no ordenamento jurídico de uma determinada Nação. Nesta toada, a tutela dos direitos humanos não se restringe ao campo de atuação de um determinado Estado, por tratar de direito inerente aos seres humanos, cuida-se de matéria cuja competência recai sobre um âmbito global (campo de atuação de cada Estado competente para punir a violação perpetrada) e, subsidiariamente, o juízo internacional (TPI), sendo que a competência deste último somente será trazida à voga ante a falha, omissão ou incapacidade daquele de responder às violações de direitos humanos, por força do princípio da Complementaridade, sem que essa intromissão fira a soberania do Estado no qual se deu o desrespeito aos direitos humanos, quer do Estado cujo perpetrador seja nacional. Por isso, não há que se falar em incompatibilidades entre o quanto disposto no Estatuto de Roma e a Constituição Federal Brasileira, pelo contrário, ambas as normas se complementam na busca incessante pelo bem comum, qual seja, a proteção dos direitos humanos em escala planetária tendente a preservar a paz mundial.
Até porque o TPI é um tribunal de última instância, cuja atuação somente estará legitimada em caso de inação (omissão ou incapacidade) dos Estados. Assim, trata-se de situações excepcionais, nas quais o Estado não atuou porque não quis ou não pôde atuar a contento. Portanto, não há que se falar em perda da soberania, já que a competência primária para o exercício da jurisdição pertence ao Estado, apenas diante da falha ou omissão dele que será acionada a competência subsidiária do TPI às jurisdições nacionais.
Por derradeiro, a ratificação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional pelo Brasil é absolutamente compatível e consonante com a ordem constitucional brasileira, “não havendo como argumentar que esse Tribunal seria uma intervenção indevida no exercício da soberania nacional”, vez que nele há a conjugação da ordem interna e da ordem internacional, à luz do princípio da prevalência dos direitos humanos, mediante providências tendentes a punir e retirar do convívio coletivo mundial, não apenas criminosos genocidas ou ditadores, mas também os responsáveis pela prática de crimes internacionais, em relação aos quais não se admite esquecimento.
Desconsideração da imunidade.
A imunidade de jurisdição é entendida como “o privilégio reconhecido a certas pessoas estrangeiras, em virtude dos cargos ou funções que exercem, de escaparem à jurisdição, tanto civil quanto criminal, do Estado em que se encontram”. Tem como fundamento a necessidadede ser assegurado o respeito à independência do Estado a que essas pessoas pertencem.
As Convenções de Viena sobre relações diplomáticas (1961) e consulares (1963), promulgadas no Brasil pelos Decretos 56.435/1965 e 61.078/1967, estabelecem prerrogativas e imunidades às pessoas e bens ali indicados.
Quanto aos Estados, como pessoas jurídicas de Direito Público externo, a imunidade de jurisdição decorre de norma costumeira, sabendo-se que o costume é importante fonte do Direito nas relações internacionais.
O art. 114 da Constituição da República, seja em sua redação originária, seja após a Emenda Constitucional 45/2004, estabelece que a competência da Justiça do Trabalho também abrange os entes de Direito Público externo, isto é, os entes de Direito Internacional Público.
Logo, se a demanda é oriunda da relação de trabalho, mesmo figurando ente de Direito Público externo na relação processual, compete à Justiça do Trabalho a solução do conflito.
Frise-se que o mencionado dispositivo constitucional é regra de competência, não disciplinando a imunidade de jurisdição propriamente.
Aliás, é necessário saber o ramo do Poder Judiciário competente até mesmo para decidir a respeito de sua aplicação, ou não, em favor do ente de direito público externo.
Em outras palavras, no caso, a imunidade de jurisdição surge como questão posterior à definição da competência.
Portanto, se o conflito decorre da relação de trabalho mantida com o ente de Direito Internacional Público, a ação deve ser ajuizada perante a Justiça do Trabalho, competindo, na solução da controvérsia, decidir, entre outras matérias, a respeito da imunidade de jurisdição.
Essa conclusão não é alterada pelos arts. 109, incisos II e III, e 105, inciso II, c, da Constituição Federal de 1988, pois esses dispositivos estabelecem regras genéricas, enquanto o atual art. 114, inciso I, é norma especial, que afasta a aplicação daqueles para as situações específicas das ações oriundas da relação de trabalho.
A jurisprudência, inclusive do Supremo Tribunal Federal, tem entendido que a imunidade de jurisdição não se aplica em questões trabalhistas, ao menos no processo (ou fase) de conhecimento, acompanhando a evolução da legislação estrangeira e da doutrina.
Nesse sentido, destaca-se o seguinte julgado:
“IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO. RECLAMAÇÃO TRABALHISTA. LITÍGIO ENTRE ESTADO ESTRANGEIRO E EMPREGADO BRASILEIRO. EVOLUÇÃO DO TEMA NA DOUTRINA, NA LEGISLAÇÃO COMPARADA E NA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: DA IMUNIDADE JURISDICIONAL ABSOLUTA À IMUNIDADE JURISDICIONAL MERAMENTE RELATIVA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO CONHECIDO. OS ESTADOS ESTRANGEIROS NÃO DISPÕEM DE IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO, PERANTE O PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO, NAS CAUSAS DE NATUREZA TRABALHISTA, POIS ESSA PRERROGATIVA DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO TEM CARÁTER MERAMENTE RELATIVO. O ESTADO ESTRANGEIRO NÃO DISPÕE DE IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO, PERANTE ÓRGÃOS DO PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO, QUANDO SE TRATAR DE CAUSA DE NATUREZA TRABALHISTA. DOUTRINA. PRECEDENTES DO STF (RTJ 133/159 E RTJ 161/643-644). PRIVILÉGIOS DIPLOMÁTICOS NÃO PODEM SER INVOCADOS, EM PROCESSOS TRABALHISTAS, PARA CONTESTAR O ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA DE ESTADOS ESTRANGEIROS, EM INACEITÁVEL DETRIMENTO DE TRABALHADORES RESIDENTES EM TERRITÓRIO BRASILEIRO, SOB PENA DE ESSA PRÁTICA CONSAGRAR CENSURÁVEL DESVIO ÉTICO-JURÍDICO, INCOMPATÍVEL COM O PRINCÍPIO DA BOA-FÉ E INCONCILIÁVEL COM OS GRANDES POSTULADOS DO DIREITO INTERNACIONAL. O PRIVILÉGIO RESULTANTE DA IMUNIDADE DE EXECUÇÃO NÃO INIBE A JUSTIÇA BRASILEIRA DE EXERCER JURISDIÇÃO NOS PROCESSOS DE CONHECIMENTO INSTAURADOS CONTRA ESTADOS ESTRANGEIROS. A IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO, DE UM LADO, E A IMUNIDADE DE EXECUÇÃO, DE OUTRO, CONSTITUEM CATEGORIAS AUTÔNOMAS, JURIDICAMENTE INCONFUNDÍVEIS, POIS – AINDA QUE GUARDEM ESTREITAS RELAÇÕES ENTRE SI – TRADUZEM REALIDADES INDEPENDENTES E DISTINTAS, ASSIM RECONHECIDAS QUER NO PLANO CONCEITUAL, QUER, AINDA, NO ÂMBITO DE DESENVOLVIMENTO DAS PRÓPRIAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS. A EVENTUAL IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DE ULTERIOR REALIZAÇÃO PRÁTICA DO TÍTULO JUDICIAL CONDENATÓRIO, EM DECORRÊNCIA DA PRERROGATIVA DA IMUNIDADE DE EXECUÇÃO, NÃO SE REVELA SUFICIENTE PARA OBSTAR, POR SI SÓ, A INSTAURAÇÃO, PERANTE TRIBUNAIS BRASILEIROS, DE PROCESSOS DE CONHECIMENTO CONTRA ESTADOS ESTRANGEIROS, NOTADAMENTE QUANDO SE TRATAR DE LITÍGIO DE NATUREZA TRABALHISTA. DOUTRINA. PRECEDENTES” (STF, 2.ª T., AGREG RE 222.368-4/PE, REL. MIN. CELSO MELLO, J. 30.04.2002).
A imunidade de execução do Estado estrangeiro ou de organismo internacional, por seu turno, alcança apenas os bens afetos à representação diplomática ou consular.
Dessa forma, segundo ressalta Sergio Pinto Martins, a “imunidade de execução pode deixar de ser aplicada caso existam bens em território brasileiro que não tenham vinculação com as atividades essenciais do ente de direito público externo”.
É relevante salientar, no entanto, a existência de posicionamento diferenciado, especificamente quanto às organizações internacionais, constituídas por meio de tratados, quando ratificados pelo Brasil e, com isso, inseridos no ordenamento jurídico nacional.
Nesses casos, como os tratados normalmente preveem a imunidade de jurisdição, em sentido amplo, da organização internacional, inclusive quanto à esfera trabalhista, há entendimento de que assim deve ser observado, por se tratar de previsão normativa expressa.
A respeito do tema, a Orientação Jurisprudencial 416 da SBDI-1 do TST dispõe da seguinte forma:
“IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO. ORGANIZAÇÃO OU ORGANISMO INTERNACIONAL. AS ORGANIZAÇÕES OU ORGANISMOS INTERNACIONAIS GOZAM DE IMUNIDADE ABSOLUTA DE JURISDIÇÃO QUANDO AMPARADOS POR NORMA INTERNACIONAL INCORPORADA AO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO, NÃO SE LHES APLICANDO A REGRA DO DIREITO CONSUETUDINÁRIO RELATIVA À NATUREZA DOS ATOS PRATICADOS. EXCEPCIONALMENTE, PREVALECERÁ A JURISDIÇÃO BRASILEIRA NA HIPÓTESE DE RENÚNCIA EXPRESSA À CLÁUSULA DE IMUNIDADE JURISDICIONAL”.
Como se pode notar, apesar dessa importante diferenciação, a presença do ente de Direito Público externo, como parte na relação de trabalho, não altera a competência da Justiça Laboral, ainda que seja para decidir, preliminarmente, sobre a existência de imunidade de jurisdição.
Imprescritibilidade dos crimes internacionais.
Os Estados Membros na presente Convenção,
Lembrando as Resoluções nº3 (I) e 170 (II) da Assembléia Geral das Nações Unidas, datadas de 13 de fevereiro de 1946 e 31 de outubro de 1947, sobre a extradição e o castigo dos criminosos de guerra, e a Resolução n.º 95 (I) de 11 de dezembro de 1946, que confirma os princípios de direito internacional reconhecidos pelo Estatuto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg e pelo julgamento deste tribunal, bem como as resoluções n.º 2184 (XXI) de 12 de dezembro de 1966 e 2202 (XXI) de 16 de dezembro de 1966, nas quais a Assembléia Geral condenou expressamente como crimes contra a humanidade, por um lado, a violação dos direitos econômicos e políticos das populações autóctones e por outro, a política de "Apartheid".
Lembrando as Resoluções n.º 1074 D (XXXIX) e 1158 (XLI) do Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas, datadas de 28 de julho de 1965 e 5 de agosto de 1966, sobre o castigo dos criminosos de guerra e dos indivíduos culpados de crimes contra a humanidade.
Constatando que em nenhuma das declarações solenes, atas e convenções que visam a perseguição e repressão dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade se previu a limitação no tempo.
Considerando que os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade se incluem entre os crimes de direito internacional mais graves.
Convencidos de que a repressão efetiva dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade é um elemento importante da prevenção desses crimes da proteção dos Direitos do Homem e das liberdades fundamentais, que encorajará a confiança, estimulará a cooperação entre os povos e irá favorecer a paz e a segurança internacionais.
Constatandoque a aplicação aos crimes de guerra e aos crimes contra a humanidade das regras de direito interno relativas à prescrição dos crimes comuns inquieta profundamente a opinião pública mundial porque impede que os responsáveis por esses crimes sejam perseguidos e castigados.
Reconhecendo que é necessário e oportuno afirmar em direito internacional, por meio da presente Convenção o princípio da imprescritibilidade dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade e assegurar sua aplicação universal.
Acordam no que segue:
ARTIGO 1º
São imprescritíveis, independentemente da data em que tenham sido cometidos, os seguintes crimes:
§1. Os crimes de guerra, como tal definidos no Estatuto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg de 8 de agosto de 1945 e confirmados pelas resoluções nº3 ( I ) e 95 ( i ) da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 13 de fevereiro de 1946 e 11 de dezembro de 1946, nomeadamente as "infrações graves" enumeradas na Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949 para a proteção às vítimas da guerra
§2. Os crimes contra a humanidade, sejam cometidos em tempo de guerra ou em tempo de paz, como tal definidos no Estatuto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg de 8 de agosto de 1945 e confirmados pelas Resoluções nº3 ( I ) e 95 ( i ) da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 13 de fevereiro de 1946 e 11 de dezembro de 1946; a evicção por um ataque armado; a ocupação; os atos desumanos resultantes da política de "Apartheid"; e ainda o crime de genocídio, como tal definido na Convenção de 1948 para a prevenção e repressão do crime de genocídio, ainda que estes atos não constituam violação do direito interno do país onde foram cometidos.
ARTIGO 2º
Sendo cometido qualquer crime mencionado no "Artigo 1º" as disposições da presente Convenção aplicar-se-ão aos representantes da autoridade do Estado e aos particulares que nele tenham participado como autores ou como cúmplices, ou que sejam culpados de incitamento direto à sua perpetração, ou que tenham participado de um acordo tendo em vista cometê-lo, seja qual for o seu grau de execução, assim como aos representantes do Estado que tenham tolerado a sua perpetração.
ARTIGO 3º
Os Estados Membros na presente Convenção obrigam-se a adotar todas as medidas internas, de ordem legislativa ou outra, que sejam necessárias a fim de permitir a extradição, em conformidade com o direito internacional, das pessoas visadas pelo "artigo 2º" da presente Convenção.
ARTIGO 4º
Os Estados Membros na presente Convenção obrigam-se a adotar, em conformidade com os seus processos constitucionais, as medidas legislativas ou de outra índole que sejam necessárias para assegurar a imprescritibilidade dos crimes referidos nos "artigos 1º e 2º" da presente Convenção, tanto no que diz respeito ao procedimento penal como à pena; abolir-se-á a prescrição quando vigorar por força da lei ou por outro modo, nesta matéria.
ARTIGO 5º
A presente Convenção estará até 31 de dezembro de 1969 aberta à assinatura dos Estados Membros da Organização das Nações Unidas, ou membros de uma das suas instituições especializadas ou membros da Agência Internacional de Energia Atômica, dos Estados Membros no Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça, assim como dos Estados que a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas tenha convidado a participar na presente Convenção.
ARTIGO 6º
A presente Convenção está sujeita a ratificação e os instrumentos de ratificação serão depositados junto ao Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas.
ARTIGO 7º
A presente Convenção está aberta à adesão dos Estados referidos no "artigo 5º". Os instrumentos de adesão serão depositados junto ao Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas.
ARTIGO 8º
§1. A presente Convenção entrará em vigor no nonagésimo dia após a data do depósito junto ao Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas do décimo documento de adesão ou ratificação.
§2. Para os Estados que ratifiquem a presente Convenção ou a ela adiram após o depósito do décimo instrumento de ratificação ou de adesão, a Convenção entrará em vigor no nonagésimo dia após a data do depósito por esses Estados dos seus instrumentos de ratificação ou de adesão.
ARTIGO 9º
§1. Após o termo de um período de dez anos a partir da data da entrada em vigor da presente Convenção, pode ser formulado um pedido de revisão da Convenção a todo o tempo por qualquer das Partes contratantes, por notificação escrita dirigida ao Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas.
§2. A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas decidirá sobre as medidas a tomar, se for o caso, sobre este pedido.
ARTIGO 10
§1. A presente Convenção será depositada junto do Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas.
§2. O Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas enviará cópia autenticada da presente Convenção a todos os Estados referidos no "artigo 5º".
§3. O Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas informará todos os Estados referidos no "artigo 5º".
a) Das assinaturas da presente Convenção e dos instrumentos de ratificação e de adesão depositados de acordo com os "artigos 5º, 6º, 7º".
b) Da data de entrada em vigor da presente Convenção, de acordo com o "artigo 8º".
c) Das comunicações recebidas de acordo com o "artigo 9º".
ARTIGO 11
A presente Convenção, cujos textos inglês, chinês, espanhol, francês e russo são igualmente válidos, terá a data de 26 de novembro de 1968.
Previsão da prisão perpétua.
 Trata-se este do ponto mais controvertido no tocante às ditas incompatibilidades entre o Tratado de Roma do TPI e a Constituição Federal brasileira.
Com efeito, o art. 5º, XLVII, a e b, da CF/88[18] veda veementemente a aplicação da pena de morte, ressalvados os casos de guerra declarada (art.84, XIX, da CF/88), bem como a cominação de penas de caráter perpétuo.
Não obstante, em consonância com a Constituição, que não admite a pena de morte, o Estatuto de Roma, em seu art. 77, §1º, b, também não a prevê, contudo prescreve, dentre outras medidas, excepcionalmente, a aplicação de prisão perpétua , desde que justificada pela grave ilicitude do crime e pelas circunstâncias individuais do condenado.
Cabe destacar que “a prisão perpétua é à exceção da exceção, pois a competência do TPI sempre diz respeito a crimes graves (é uma condição de admissibilidade) e a extrema gravidade deve ser entendida como situação limite”.
Sendo assim, como proceder em um eventual caso de condenação de um brasileiro à prisão perpétua pelo TPI?
Neste ponto a doutrina diverge a respeito da adequação do Estatuto de Roma ao ordenamento pátrio, havendo posicionamentos para ambos os lados.
O penalista Bitencourt (2008, p. 16/17) se posiciona em contrário à imposição de quaisquer penas de caráter perpétuo, com fundamento no princípio da Humanidade das Penas, o qual, segundo ele, representa “o maior entrave para a adoção da pena capital e da prisão perpétua”.
Segundo sustenta o referido princípio, o poder punitivo estatal não pode aplicar sanções infamantes tendentes a atingir a dignidade da pessoa humana ou lhe causar lesão físico-psíquica.
De igual modo, Tavares (2005, p. 25) assevera que, devido à vedação constitucional (em caráter absoluto) a essa espécie de pena, o mesmo dispositivo (art. 5º, XLVII, b, da CF/88) “obsta qualquer possibilidade de se adotar penas de caráter perpétuo”, visto que, em sua opinião, isto inviabilizaria a própria atuação do TPI, a qual sempre seria “inconstitucional aos olhos da Constituição”.
Não há que se olvidar da colisão de direitos humanos que se afigura neste caso. O primeiro deles é no sentido de que a prisão perpétua configuraria violação aos direitos humanos do condenado. O segundo deles, por seu turno, trata-se do direito da humanidade a reprimir com mão de ferro os mais terríveis crimes que afetam a comunidade internacional em seu conjunto.
Ocorre que a Suprema Corte já firmou entendimento no sentido de que a aplicabilidade da lei penal é interna. Uma vez quea cultura do paternalismo transcende o sentimento dos brasileiros há séculos – que se frise bem: aos brasileiros –, não poderá o Estado brasileiro, cuja soberania se restringe aos limites de seu território, impor tal característica aos Estados estrangeiros, também dotados de soberania. Percebe-se, assim, que é possível a imposição de pena de caráter perpétuo por Estados estrangeiros e seu cumprimento também no exterior (o que a Constituição Federal, aliás, não impede nem é da sua alçada fazê-lo), vez que a proibição cabal a tal tipo de sanção se limita às fronteiras da jurisdição doméstica do País.
De modo a elucidar quaisquer dúvidas, Comparato (2000, p. 482). conclui que:
[...] a proibição de penas de caráter perpétuo, constante do art. 5º, XLVII, b, da Constituição, deve ser interpretada em seus justos termos. O seu âmbito de aplicação, como é manifesto, circunscreve-se ao ordenamento jurídico nacional. [...] Seria obviamente um contra senso supor-se a transnacionalidade, de pleno direito, de uma norma do ordenamento nacional.
Tendo em vista que tal limitação se restringe ao direito interno, não poderá o Brasil impor seus preceitos constitucionais aos Estados estrangeiros que, por sua vez, também são dotados de soberania, tampouco a um organismo internacional como o TPI.
Com maestria Mazzuoli (2005, p.71). leciona que:
[...] a interpretação mais correta a ser dada para o caso em comento é a de que a Constituição, quando prevê a vedação de pena de caráter perpétuo, está direcionando o seu comando tão-somente para o legislador interno brasileiro, não alcançando os legisladores estrangeiros e tampouco os legisladores internacionais que, a exemplo da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas, trabalham rumo à construção do sistema jurídico internacional.
Comungando do mesmo posicionamento Gomes (2007) afirma que:
Vale lembrar que no Brasil, em consonância com o ordenamento jurídico interno, não vislumbramos qualquer hipótese de pena de caráter perpétuo, mas essa realidade não pode ser considerada um óbice para a aplicação dos preceitos trazidos pelo Estatuto de Roma: em consonância com o entendimento do STF, um brasileiro submetido ao TPI pode receber pena de caráter perpétuo, já que tal vedação apenas se aplica no âmbito interno, ou seja, em relação aos julgamentos realizados por órgãos do Poder Judiciário nacional, não alcançando aqueles regidos pelo Direito Internacional.
A respeito do assunto, Bolfer (2010) defende com veemência que:
Primeiramente, a própria CF proíbe a pena de morte, mas excetua em caso de guerra. Se isso é permitido, porque não aceitar também a prisão perpétua em casos excepcionais? Seria uma exceção à regra geral, como ocorre com a pena de morte.
 Pois bem, já que se admite a imposição dessa sanção por Estados estrangeiros (de acordo com os seus ordenamentos jurídicos internos), nada obsta a sua aplicação por um organismo internacional responsável pela defesa dos direitos humanos em aspecto global.
Haja vista que a pena de prisão perpétua – que não recebe a mesma ressalva constitucional conferida à pena de morte – por ordem do Constituinte não pode ser instituída internamente (dentro do Brasil) sob nenhuma hipótese, devido a ser direito fundamental por excelência, protegido por cláusula pétrea (art. 60, §4º, IV, da CF/88), não poderá o Constituinte Derivado (sendo-lhe terminantemente vedado!), por emenda constitucional, desconstituir norma fundamental petrificada pelo Poder Constituinte Originário.
Todavia, esse preceito constitucional não possui validade no exterior (fora do Brasil) diante da soberania dos Estados estrangeiros. Igualmente, nada obsta o estabelecimento de tal pena por Tribunal permanente e imparcial, dotado de jurisdição internacional, do qual o Brasil é signatário e para o qual, pela ratificação do tratado que o instituiu, assumira o compromisso de com ele cooperar, em prol do bem estar da humanidade, com vistas a extirpar as violações aos direitos humanos em âmbito global.
Na mesma esteira opera o ensinamento de Steiner (2000), segundo o qual:
As normas de direito penal da Constituição regulam o sistema punitivo interno. Dão a exata medida do que o constituinte vê como justa retribuição. Não se projeta, assim, para outros sistemas penais aos quais o país se vincule por força de compromissos internacionais.
Em seguida, ela expõe que “ao propugnar pela criação de um Tribunal Penal Internacional de direitos humanos, não poderia o Constituinte, à evidência, condicionar-lhe a estrutura, organização e funcionamento ao modelo e semelhança dos tribunais internos”. Enfim, para essa ilustre doutrinadora, dado ser regida nas suas relações internacionais pela prevalência dos direitos humanos, é decorrência lógica que as normas previstas por uma Corte internacional não são passíveis de incompatibilidade em relação a normas de direito interno diversas.
Logo, a aplicação da sanção de caráter perpétuo é inadmissível no território nacional. Entretanto, a pena de prisão perpétua poderá ser cominada no âmbito de competência do TPI (dado não ser conferida eficácia a essa espécie de pena fora do país), posto que o Brasil se submeta à jurisdição de tal organismo internacional, consoante o preconizado no art. 7º do ADCT, o que é confirmado pelo § 4º do art. 5º da CF/88.
Em suma, o comando do legislador Constituinte é dirigido à esfera doméstica, não abrangendo os crimes cometidos contra o Direito Internacional e reprimidos pela jurisdição do TPI.
Vejamos, a proibição (em absoluto) da cominação de penas de caráter perpétuo configura direito fundamental constitucionalmente protegido dentro dos limites territoriais do Estado brasileiro. Por seu turno, os crimes cometidos contra o Direito Internacional e reprimidos pela jurisdição do TPI constituem violação aos direitos humanos.
Com brilhantismo, o fantástico Bobbio (1995 apud PIOVESAN, 2000) ressalta que:
[...] na maioria das situações em que está em causa um direito do fundamental, verifica-se que dois direitos igualmente fundamentais se enfrentam, e não se pode proteger incondicionalmente um deles sem tornar o outro inoperante. Ele afirma que se deve falar em direitos fundamentais não absolutos, mas relativos e, por isso, de um lado, o direito à justiça, o combate à impunidade, em relação aos mais graves crimes da humanidade e, de outro, a eventual hipótese da aplicação excepcional da pena de prisão perpétua. Quer dizer, nesse confronto, o que prevalece?
Neste passo, o Tribunal seria uma intervenção indevida na soberania nacional?
Diante desse dilema, indaga-se: “O que é mais fundamental: O direito de não ser submetido à prisão perpétua ou o direito da comunidade internacional de não sofrer violação aos direitos humanos a ela inerentes?” Certamente que o segundo deles é mais fundamental. É baseado nessa premissa que o TPI galga seus muros.
Vale ressaltar que os direitos humanos, contrariamente aos direitos fundamentais cujo campo de abrangência se limita às fronteiras de um determinado Estado, os quais são inerentes ao ser humano – antes mesmo de sua existência o homem tem direito a ter respeitados tais direitos – encontram-se ancorados em uma escala universal. Por Exemplo: O direito fundamental à vida (art.5º, caput, da CF/88) ou à dignidade humana (art.1º, III, da CF/88), o âmago da Constituinte de 1988, antes de serem positivados como direitos fundamentais constituem direitos humanos e, por isso, universais, irrenunciáveis, inalienáveis, imprescritíveis etc.
Isto significa que a aplicação da prisão perpétua opera como reprimenda à violação de direito humanos, os quais por consistirem em direito pertencente à humanidade em conjunto, sobrepõem-se às fronteiras nacionais e justificam a aplicação de sanção correspondente à elevada monta do direito violado. Neste passo, a conduta criminosa não recaiu em um indivíduo ao qual são assegurados os direitos fundamentais, sendo que o agente também não poderá ser maculado em seus direitos fundamentais,contrariamente, ela extrapolou direito que diz respeito à humanidade e do interesse da comunidade internacional como um todo. Sendo assim, de acordo com o caso concreto, justifica-se a cominação de pena que, sem embargo de que em uma leitura superficial possa pressupor afronta direito fundamental resguardado por cláusula pétrea, em uma análise pormenorizada, denota-se que os direitos fundamentais diferem de um Estado para outro e, devido a essa distinção existente, em razão da soberania dos Estados (o que é direito fundamental, positivado em um determinado Estado, não necessariamente o é em outro) , conclui-se que tal direito só opera nos limites do Estado que assim o compreende, não possuindo o condão de atingir crimes internacionais, cuja gravidade atinge a humanidade em seu conjunto.
 Oportuno mencionar que, a despeito da previsão da pena de prisão perpétua pelo Estatuto de Roma, sua ratificação pelo Brasil não implica na adoção desta pena pelo seu ordenamento jurídico interno. Afinal, “o Tribunal Penal Internacional não se trata de uma jurisdição estrangeira, mas uma jurisdição internacional, de cuja construção o Brasil participa, e tem, portanto, um vínculo muito mais estreito com a Justiça nacional”. 
 A esse respeito pertinente é a colocação de Sylvia Steiner no sentido de que “a ratificação do Brasil ao TPI não implica, jamais poderá implicar, em defesa da pena de prisão perpétua”. 
 Considerando-se que os princípios são fontes do direito e que em sede constitucional aqueles tendem a prevalecer sobre as normas, a criação de um TPI é um princípio expresso no art. 7º do ADCT e, com o advento da EC nº. 45/04, no art. 5º, § 4º da CF, em consonância com o princípio da prevalência dos direitos humanos (art. 4º, II, da CF/88) e dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88). “Assim, regras específicas contidas no texto constitucional devem ser interpretadas de molde a se conformar com o princípio de que decorrem. Não o inverso: não se pode privilegiar a regra, em detrimento do princípio”.
 Concluindo o raciocínio, a ilustre Steiner (2000) pontua, acertadamente e com a propriedade de sempre, que:
Não haveria assim, nas disposições estatutárias, qualquer incompatibilidade com o texto da Lei Maior, na medida em que a proibição da pena de prisão perpétua restringiria o legislador interno, e tão somente ele. De outro lado, a afirmação do princípio da prevalência dos direitos humanos no plano internacional, e da disposição constitucional de se propugnar pela criação de um tribunal internacional de direitos humanos, levam ao entendimento de que as normas do Estatuto desse tribunal podem operar mutações substanciais no texto constitucional, que passa assim a abrigá-las sem a necessidade de qualquer alteração formal em seu texto, e sempre desde que se conformem com suas reservas materiais.
 Destarte, não obstante a vedação constitucional quanto às penas de caráter perpétuo, o Estatuto de Roma em nada afronta a Constituição Federal brasileira. Pelo contrário, ele é plenamente compatível com a ordem constitucional, tendo em vista que a proibição em comento se trata de direito fundamental, cujo alcance se restringe ao direito interno dos Estados, podendo variar de um Estado para outro, ao passo que o mesmo não ocorre com a guarda dos direitos humanos, os quais, por pertencerem aos seres humanos, são reconhecidos como tal em qualquer parte do planeta e merecem guarida global. Nesta toada, torna-se passível a cominação da pena de prisão perpétua por um organismo internacional (TPI), do qual o Brasil é signatário, tendo se obrigado mediante ratificação a com ele cooperar, sem que isso implique em afronta ao seu ordenamento interno, tampouco à sua ordem constitucional, vez que ao TPI compete a guarda de valores supremos, quais sejam, dos direitos humanos da comunidade internacional.
Ausência de sansão penal para os crimes internacionais.
Cabe registrar, preliminarmente, que o Estatuto de Roma, celebrado em 17/07/1998, que instituiu o Tribunal Penal Internacional, acha-se formalmente incorporado ao ordenamento positivo interno do Estado brasileiro desde a sua promulgação pelo Decreto nº 4.388, de 25/09/2002. O Estatuto de Roma, buscando viabilizar a sua integral aplicação no âmbito interno dos Estados nacionais que hajam subscrito ou aderido a essa convenção multilateral, estabelece, em seu Artigo 88, que os Estados Partes deverão instituir, no plano doméstico, “procedimentos aplicáveis a todas as formas de cooperação especificadas” em referido Estatuto. Em consequência dessa cláusula convencional, o Senhor Presidente da República, por meio da Mensagem n. 700, de 17/09/2008, encaminhou, ao Congresso Nacional, Projeto de Lei que “Dispõe sobre o crime de genocídio, define os crimes contra a humanidade, os crimes de guerra e os crimes contra a administração da justiça do Tribunal Penal Internacional, institui normas processuais específicas, dispõe sobre a cooperação com o Tribunal Penal Internacional, e dá outras providências”, proposição legislativa essa que presentemente tramita, na Câmara dos Deputados, como PL n. 4.038/2008. O projeto de lei em questão foi assim justificado na Exposição de Motivos Interministerial nº 18 SEDH-PR/MJ/MRE/AGU: “O Brasil assinou (...) o Estatuto de Roma que cria o Tribunal Penal Internacional (TPI), instituição permanente e complementar às jurisdições penais nacionais, com competência para julgar indivíduos responsáveis pelos crimes de genocídio, guerra e contra a humanidade. Após a aprovação de seu texto pelo Congresso Nacional, por meio do Decreto Legislativo nº 112, de 6 de junho de 2002, o referido ato internacional passou a vigorar, para o Brasil, em 1º de setembro de 2002. Desde então, faz-se necessária a regulamentação dos tipos penais criados pelo Estatuto de Roma e ainda não previstos em nosso ordenamento jurídico interno. Com exceção do crime de genocídio, já tipificado em lei própria, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade ainda não são previstos em nossa legislação e demandam regulamentação legal. Desse modo, com o intuito de incorporar o Estatuto de Roma ao ordenamento jurídico nacional, e assim dar cumprimento ao compromisso internacional assumido pelo Estado brasileiro, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República instituiu, sob sua coordenação, Grupo de Trabalho (GT) de que resultou a elaboração do Projeto de Lei que ‘dispõe sobre o crime de genocídio, define os crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes contra a administração da justiça do Tribunal Penal Internacional, institui normas processuais específicas, dispõe sobre a cooperação com o Tribunal Penal Internacional e dá outras providências’. Após quase quatro anos de dedicação e afinco, os membros do Grupo, composto por renomados juristas representantes do Ministério Público Militar, do Ministério das Relações Exteriores, Ministério Público Federal, da Advocacia Geral da União, da Casa Civil, do Senado Federal e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), apresentam como resultado o referido Projeto de Lei, acompanhado de uma exaustiva justificativa que fazemos questão de incluir como anexo desta Exposição de Motivos, pelo seu valor não só jurídico, mas também acadêmico. O presente Projeto de Lei tem como propósito possibilitar o exercício da jurisdição primária pelo Estado brasileiro e viabilizar a cooperação com o Tribunal Penal Internacional. Assegura-se, assim, que, em nenhuma hipótese, uma pessoa ou um crime internacional sujeito à jurisdição penal brasileira renda ensejo à atuação da jurisdição do Tribunal Penal Internacional, pois se dota o País dos instrumentos jurídicos necessários ao cumprimento de suas obrigações internacionais. Por fim, ressaltamos a valiosa contribuição recebida do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), especialmente no que diz respeito ao artigo 39 e ao parágrafo único do artigo 58, permitindo que o texto do Projeto de Leicontemplasse de maneira mais abrangente, dispositivos previstos no direito humanitário internacional.” O Tribunal Penal Internacional constitui organismo judiciário de caráter permanente, investido de jurisdição penal que lhe confere poder para processar e julgar aqueles que hajam praticado (ou tentado praticar) delitos impregnados de extrema gravidade, com repercussão e transcendência internacionais, como o são os crimes de genocídio, de guerra, de agressão e contra a humanidade. Essa Alta Corte judiciária, dotada de independência e de personalidade jurídica internacional (o que lhe permite celebrar acordos e assumir direitos e obrigações com quaisquer outros sujeitos de direito internacional público, mesmo com aqueles que não sejam partes do Estatuto de Roma), qualifica-se como tribunal revestido de caráter supra estatal (NELSON NERY JUNIOR e ROSA MARIA DE ANDRADE NERY, “Constituição Federal Comentada e Legislação Constitucional”, p. 141, item n. 85, 2006, RT, v.g.), cuja competência penal – vinculada, materialmente, aos crimes referidos no Artigo 5º desse mesmo Estatuto – só pode ser legitimamente exercida, considerada a jurisdição doméstica dos Estados nacionais, com estrita observância do postulado da complementaridade (ou da subsidiariedade). Daí a observação de FLÁVIA PIOVESAN (“Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional”, p. 223/224, 9ª ed., 2008, Saraiva), que, após acentuar a responsabilidade primária dos Estados nacionais quanto ao julgamento de transgressões aos direitos humanos, assinala as condições em que se legitima o exercício, sempre em caráter subsidiário, da jurisdição pelo Tribunal Penal Internacional: “Surge o Tribunal Penal Internacional como aparato complementar às cortes nacionais, com o objetivo de assegurar o fim da impunidade para os mais graves crimes internacionais, considerando que, por vezes, na ocorrência de tais crimes, as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na realização da justiça. Afirma-se, desse modo, a responsabilidade primária do Estado com relação ao julgamento de violações de direitos humanos, tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. Vale dizer, a jurisdição do Tribunal Internacional é adicional e complementar à do Estado, ficando, pois, condicionada à incapacidade ou à omissão do sistema judicial interno. O Estado tem, assim, o dever de exercer sua jurisdição penal contra os responsáveis por crimes internacionais, tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. Como enuncia o art. 1º do Estatuto de Roma, a jurisdição do Tribunal é adicional e complementar à do Estado, ficando condicionada à incapacidade ou à omissão do sistema judicial interno. “Dessa forma, o Estatuto busca equacionar a garantia do direito à justiça, o fim da impunidade e a soberania do Estado, à luz do princípio da complementaridade e do princípio da cooperação.” Impende acentuar, ainda, tendo-se presente a perspectiva da autoria dos crimes submetidos à competência jurisdicional do Tribunal Penal Internacional, que o Estatuto de Roma submete, à jurisdição dessa Alta Corte judiciária, qualquer pessoa que haja incidido na prática de crimes de genocídio, de guerra, contra a humanidade ou de agressão, independentemente de sua qualidade oficial (Artigo 27). Na realidade, o Estatuto de Roma, ao assim dispor, proclama a absoluta irrelevância da qualidade oficial do autor dos crimes submetidos, por referida convenção multilateral, à esfera de jurisdição e competência do Tribunal Penal Internacional. Isso significa, portanto, em face do que estabelece o Estatuto de Roma em seu Artigo 27, que a condição política de Chefe de Estado, como sucede no caso em exame, não se qualifica como causa excludente da responsabilidade penal do agente nem fator que legitime a redução da pena cominada aos crimes de genocídio, contra a humanidade, de guerra e de agressão. É de observar, neste ponto, que a cláusula de “irrelevância da qualidade oficial” do autor de referidos delitos, inscrita no Artigo 27 do Estatuto de Roma, põe em destaque questão das mais expressivas, considerado o aspecto pertinente à denominada imunidade soberana dos dignitários dos Estados nacionais (como os Chefes de Estado e de Governo, os Ministros de Estado e os membros do Congresso Nacional). Vale relembrar, quanto a essa matéria, que a Corte Internacional de Justiça – principal organismo judiciário do sistema das Nações Unidas (JOSÉ CRETELLA NETO, “Teoria Geral das Organizações Internacionais”, p. 188/189, item IV.1.6.2, 2ª ed., 2007, Saraiva; MARCELO PUPE BRAGA, “Direito Internacional Público e Privado”, p. 137, item n. 7.9, 2009, Método; HILDEBRANDO ACCIOLY, GERALDO EULÁLIO DO NASCIMENTO E SILVA e PAULO BORBA CASELLA, “Manual de Direito Internacional Público”, p. 401/402, item n. 3.1.1.3, 17ª ed., 2009, Saraiva, v.g.) -, em julgamento realizado em 14/02/2002, concernente à decretação, por um magistrado belga, da prisão do Ministro das Relações Exteriores congolês, então no pleno exercício de suas funções, reafirmando velho dogma do direito internacional consuetudinário, decidiu que essa ordem de prisão e a sua correspondente “circulação internacional” constituíam violação ao direito internacional, por implicarem desrespeito à inviolabilidade pessoal e à imunidade de jurisdição penal de que dispunha aquela autoridade estrangeira, em face da jurisdição doméstica do Judiciário do Reino da Bélgica. Ocorre, no entanto, como precedentemente assinalado, que, de acordo com o Estatuto de Roma, mostra-se irrelevante, para fins de “persecutio criminis”, a condição política do agente, que não poderá opor, ao Tribunal Penal Internacional, ainda que se cuide de Chefe de Estado ou de Governo, a denominada “sovereign immunity” ou “crown immunity”, tal como estipula, expressamente, o Artigo 27 dessa convenção multilateral, que assim dispõe: “Irrelevância da Qualidade Oficial 1. O presente Estatuto será aplicável de forma igual a todas as pessoas sem distinção alguma baseada na qualidade oficial. Em particular, a qualidade oficial de Chefe de Estado ou de Governo, de membro de Governo ou do Parlamento, de representante eleito ou de funcionário público, em caso algum eximirá a pessoa em causa de responsabilidade criminal nos termos do presente Estatuto, nem constituirá de ‘per se’ motivo de redução da pena. 2. As imunidades ou normas de procedimento especiais decorrentes da qualidade oficial de uma pessoa, nos termos do direito interno ou do direito internacional, não deverão obstar a que o Tribunal exerça a sua jurisdição sobre essa pessoa.” Não é por outro motivo que o Artigo 27 do Estatuto de Roma tem ensejado controvérsia, notadamente porque há aqueles que, invocando o modelo de Westphalia, implementado a partir de 1648, sustentam a tese do caráter absoluto da soberania estatal (o que inviabilizaria o exercício, pelo Tribunal Penal Internacional, de sua jurisdição), em oposição aos que não só conferem dimensão relativa à noção de soberania do Estado, mas sobretudo justificam referida cláusula convencional (Artigo 27) a partir da idéia, hoje positivada no art. 4º, inciso II, de nossa Constituição, da “prevalência dos direitos humanos”, valendo mencionar, no ponto, as observações de CARLOS EDUARDO ADRIANO JAPIASSÚ (“O Direito Penal Internacional”, p. 115/116, item n. 4.3, 2009, Del Rey): “Note-se que os crimes de competência do Tribunal Penal Internacional, de maneira geral, são cometidos por indivíduos que exercem determinada função estatal. Desta forma, a regra do Artigo 27 do Estatuto de Roma busca evitar que aqueles se utilizem dos privilégios e das imunidades que lhes são conferidos pelos ordenamentos internos como escudo para impedir a responsabilização em face dos crimes internacionais. Por fim, entende-se que o princípio da prevalência dos direitos humanos, insculpido no Artigo 4º, II, da Constituição Federal, ‘permite implicitamente que haja restrições às imunidades usualmente concedidas a funcionários no exercício de sua atividade funcional em casos de violações a direitoshumanos, não colidindo, por conseguinte, com o artigo 27 do Estatuto de Roma’.” Cabe registrar, de outro lado, que este pedido de cooperação e auxílio judiciário não se confunde com a demanda extradicional, consideradas as notas que distinguem o instituto da entrega (“surrender”) ao Tribunal Penal Internacional daquele referente à extradição. Com efeito, o próprio Estatuto de Roma estabelece, em seu texto, clara distinção entre os referidos institutos – o da entrega (“surrender”/“remise”) e o da extradição -, fazendo-o, de modo preciso, nos seguintes termos: “Artigo 102 Termos Usados Para os fins do presente Estatuto: a) Por ‘entrega’, entende-se a entrega de uma pessoa por um Estado ao Tribunal, nos termos do presente Estatuto. b) “Por ‘extradição’, entende-se a entrega de uma pessoa por um Estado a outro Estado, conforme previsto em um tratado, em uma convenção ou no direito interno.” Vê-se, daí, que, embora a entrega de determinada pessoa constitua resultado comum a ambos os institutos, considerado o contexto da cooperação internacional na repressão aos delitos, há, dentre outros, um elemento de relevo que os diferencia no plano conceitual, eis que a extradição somente pode ter por autor um Estado soberano, e não organismos internacionais, ainda que revestidos de personalidade jurídica de direito internacional público, como o Tribunal Penal Internacional (Estatuto de Roma, Artigo 4º, n. 1). Não custa ressaltar, neste ponto, na linha da diretriz jurisprudencial firmada por esta Corte, que o processo de extradição faz instaurar uma relação de caráter necessariamente intergovernamental, o que afasta a possibilidade de terceiros, desvestidos de estatalidade, formularem pleitos de natureza extradicional (RTJ 99/1003, Rel. Min. LEITÃO DE ABREU – Ext 313/Argentina, Rel. Min. LUIZ GALLOTTI – PPE 607/República Italiana, Rel. Min. CELSO DE MELLO): “Extradição. Pressuposto. Competência. 1. É pressuposto essencial da extradição que seja ela requerida por Governo de país estrangeiro.
Bibliografia
- Manual de Direito Internacional Público – Hildebrando Accioly – Editora Saraiva 17º edição
- https://jus.com.br/
- genjuridico.com.br/ 
- https://lfg.jusbrasil.com.br/

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