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SPINA, Gabriel. Patrimonio historico e cultural

Artigo que revisa bibliografia sobre patrimônio histórico e cultural, comparando Lemos (1981) e Funari & Pelegrini (2006) e discutindo conceito, memória, categorias materiais e imateriais e alternativas para sua preservação.

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Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
Patrimônio histórico e cultural: uma revisão 
bibliográfica1
Gabriel Luis SPINA2
Edgar Bruno Franke SERRATTO3
Resumo: O patrimônio cultural é o conjunto de todos os bens, materiais ou 
imateriais, que, pelo seu valor próprio, devem ser considerados de interesse 
relevante para a permanência e para a identidade da cultura de um povo. O 
presente trabalho propõe apresentar a relação entre duas obras sobre Patrimônio 
Histórico e Cultural, tendo por base dois autores de períodos diferentes. A 
primeira obra, O Que é Patrimônio Histórico, de Carlos A. C. de Lemos, de 
1981. A segunda, Patrimônio Histórico e Cultura, de Pedro Paulo Funari e 
Sandra C. A. Pelegrini, de 2006. A partir dessa abordagem, podemos considerar 
que ambas as obras instigam a reflexão sobre a multiplicidade do patrimônio 
histórico e cultural, discutindo alternativas para sua preservação e trazendo-nos 
uma visão mais atual sobre esta temática.
Palavras-Chave: Patrimônio. Cultura. Memória. História. Museologia.
1 O presente artigo é resultado das pesquisas desenvolvidas no Projeto de Extensão e Pesquisa 
Museu Claretiano de Curitiba (MCC), coordenado pelo Prof. Ms. Edgar Bruno Franke Serratto, 
vinculado ao Programa de Iniciação Científica (PIC) do Claretiano – Centro Universitário.
2 Gabriel Luis Spina. Especialista em Gestão Ambiental e Metodologia da Educação a Distância pelo 
Claretiano – Centro Universitário. Graduado em Biologia e História pela mesma Instituição. E-mail: 
<gabrielluisspina@hotmail.com>.
3 Edgar Bruno Franke Serratto. Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). 
Graduado em História pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Coordenador do Projeto de 
Pesquisa e Iniciação Científica Museu Claretiano de Curitiba (MCC), do Programa de Iniciação 
Científica (PIC) do Claretiano – Centro Universitário, Polo de Curitiba (PR). E-mail: <edgarserratto@
claretiano.edu.br>.
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Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
Historical and cultural heritage: a 
bibliographic review
Gabriel Luis SPINA 
Edgar Bruno Franke SERRATTO
Abstract: The cultural heritage is the collection of all properties, material or 
immaterial, due to own value, must be considered relevant interesting for the 
staying and the identity of a people. The present work proposes to show the 
readers the relation between two works about historical and cultural heritage, 
based on two authors from different periods. The first work “O que é Patrimônio 
Histórico” by Carlos A. C. de Lemo (1981). The second, “Patrimônio Histórico 
e Cultural” by Pedro Paulo Funari e Sandra C. A. Pelegrini (2006). From this 
approach we can consider on both works instigating the reflection about the 
multiplicity of the historical and cultural heritage, discussing alternatives for its 
preservation, bringing us a current vision about this theme. 
Keywords: Heritage. Culture. Memory. History. Museology.
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Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
1. INTRODUÇÃO
O patrimônio histórico e cultural manifesta-se na forma 
física e também nas expressões imateriais, como o carnaval, a 
festa junina, bem como nas demais celebrações, acontecimentos 
e tradições da cultura popular, podendo ser classificado de acordo 
com a sua categoria e o valor que lhe é atribuído. Em suma, o 
patrimônio é o conjunto de todos os bens, materiais ou imateriais, 
que, pelo seu valor próprio, devem ser considerados de interesse 
relevante para a permanência e para a identidade da cultura de 
um povo (BALTAZAR, 2011).
Esses bens históricos são suportes da memória e instrumentos 
utilizados para a história reaparecer. Qualquer objeto carrega 
em si aspectos simbólicos, culturais e memoriais. A memória 
é o suporte da história. Memória e história são parceiras na 
reconstrução do passado. Tanto a memória pode contribuir como 
fonte para a história quanto o registro histórico pode produzir 
uma nova reflexão sobre as marcas da memória. E a junção ou 
conjugação da história e da memória criam a identidade.
Tendo como temática primordial o “Patrimônio Histórico 
e Cultural”, o presente trabalho propõe apresentar aos leitores a 
relação entre duas obras, de dois autores de épocas diferentes. A 
primeira obra, O Que é Patrimônio Histórico, de Carlos A. C. 
Lemos, de 1981. A segunda, Patrimônio Histórico e Cultura, de 
Pedro Paulo Funari e Sandra C. A. Pelegrini, de 2006. Nesta direção, 
o que pretendemos é a compreensão do que é “ patrimônio”, bem 
como identificar as discussões centrais presentes nesta área 
durante os últimos 50 anos.
2. CONCEITO DE “PATRIMÔNIO” PARA LEMOS (1981)
Carlos Lemos nasceu em 1925, é arquiteto, artista plástico 
e professor titular do Departamento de História da Arquitetura e 
Estética da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade 
de São Paulo (FAU-USP). Especializou-se em arquitetura do 
Brasil e na problemática de preservação do Patrimônio Cultural. 
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É autor de diversos livros, entre eles Arquitetura brasileira 
(MELHORAMENTOS, 1979); Ramos de Azevedo e seu escritório 
(PINI, 1993); e Casa paulista (EDUSP, 1999).
Na obra que abordaremos, O Que é Patrimônio Histórico, o 
autor separa em tópicos os temas tratados entre patrimônio cultural. 
A saber: “dos artefatos”, “por que preservar?”, “o que preservar?” 
e “como preservar?”.
No primeiro tópico, que trata sobre patrimônio cultural, ele 
começa com um levantamento histórico do tema e mostra que os 
meios de comunicação em massa dão ênfase a esse assunto, até 
então sem interesse maior do povo (LEMOS, 1981).
O autor apresenta-nos que o patrimônio cultural pode ser 
dividido em três grandes categorias de elementos. A primeira 
é referente à natureza, ao meio ambiente e a todas as riquezas 
naturais. A segunda refere-se ao conhecimento, às técnicas e 
ao saber fazer. São os elementos não tangíveis do patrimônio 
cultural. A terceira categoria de elementos, segundo o autor, é a 
mais importante, pois alia o objeto em si com o saber fazer e 
o meio ambiente para formar o que conhecemos como artefato 
(LEMOS, 1981).
O “artefato” é tão importante que foi dedicado para este 
tema um tópico à parte. Aliás, a palavra “artefato” talvez devesse 
ser a única empregada no caso. Nessa perspectiva, é exaltada 
a importância da relação entre o objeto e o contexto do qual ele 
pertence, pois um objeto isolado de seu contexto deve ser 
entendido como um fragmento. Assim, sempre deve ser prestada 
atenção às relações necessárias que existem entre o meio ambiente, 
o saber e o artefato; entre o artefato e o homem; entre o homem e a 
natureza. Logo, para Lemos (1981), é nesta relação que reside a 
importância de tal artefato como patrimônio.
Artefatos podem ser de utilidade imediata ou de duráveis 
e persistências, além do que podem ter serventias diversificadas 
ou ter trocados os seus fins utilitários originais. Entretanto, uma 
questão muito importante discorrida no livro é a sacralização do 
objeto. É um reverenciamento de objetos triviais que, devido 
ao fato de terem participado de eventos que se convencionou 
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chamar de históricos, passam a ter uma respeitabilidade que os 
outros não possuem. Um exemplo é uma caneta que serviu à 
assinatura de um ato público qualquer ou a arma que matou um 
político importante. Existem museus baseados somente nesse 
tipo de acervo e que explora as crendices populares. Não que 
estes não sejam artefatos ou que não contem a história, porém esses 
bens diferenciados preservados sempre podem levar a uma visão 
distorcida da memória coletiva (LEMOS, 1981).
A abordagem seguinte ressalta que não basta apenas saber o 
que é patrimônio histórico e cultural, mas que se deve preservá-lo. 
Por isso, o autor levanta a questão:por que preservar? Segundo 
ele, 
[...] devemos, então, de qualquer maneira garantir a 
compreensão de nossa memória social preservando o 
que for significativo dentro de nosso vasto repertório 
de elementos componentes de patrimônio cultural” 
(LEMOS, 1981, p. 29).
Desse modo, o termo “preservar” deve ser aplicado com toda 
a amplitude de seu significado, abrangendo desde os elementos 
componentes dos recursos materiais a todos os outros não tangíveis 
ligados ao conhecimento, especialmente a técnica. Por isso, 
prevalece o intuito de guardar para gerações futuras informações 
ligadas às relações entre elementos culturais que não têm garantias 
de permanência (LEMOS, 1981).
Por isso, Lemos (1981) observa que é importante ressaltar 
que preservar não é só guardar objetos. Vai além disso: é fazer, 
também, levantamentos de qualquer natureza de sítios variados 
ou gravar depoimentos, sons, músicas. Preservar é procurar 
manter vivos os usos e costumes populares. Porém, devido aos 
interesses econômicos, principalmente os voltados ao turismo 
– que exploram bens culturais paisagísticos e arquitetônicos 
preservados –, se se exige a criação de mais cenários e chegam 
ao ponto de forjar artefatos, criando bens patrimoniais artificiais 
(LEMOS, 1981).
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Agora que já vimos o que é patrimônio histórico, o 
significado de artefato e o porquê de se preservá-lo, veremos o que 
Lemos nos apresenta sobre aquilo que se deve preservar.
Ao longo da História do Brasil, é comum percebermos 
a destruição proposital do patrimônio histórico. Temos como 
exemplo o que aconteceu com as obras holandesas no nordeste 
brasileiro, que foram descaracterizadas pelos portugueses. O Conde 
de Galveias, em meados do século XVIII, escreveu ao governador 
de Pernambuco, Luís Pereira de Andrade, lamentando o projeto 
que transformou o Palácio das Duas Torres em quartel de tropas 
locais. Segundo Galveias, seria imprescindível a manutenção da 
integridade daquela obra holandesa, verdadeiro troféu de guerra e 
orgulho do nosso povo (LEMOS, 1981).
Esse fato da carta do conde de Galveias, no século XVIII, 
coloca o Brasil à frente de muitos países no que diz respeito à 
consciência de conservação do patrimônio, no entanto, mostra- 
-nos que, ao longo da história, sempre que alcançada alguma 
meta ou alguma mudança, principalmente política, a primeira 
coisa que se faz é destruir as provas ou vestígios do modelo 
anterior. Foi assim com os vestígios holandeses, com as cartelas 
heráldicas, escudos e brasões arrancados dos pátios nobres das 
construções espanholas pelos portugueses e pelos brasileiros depois 
de 1822. 
Apesar do cenário desanimador, Lemos inicia a apresentação 
de uma série de leis referentes ao tema, as quais buscam a 
superação desses problemas. Segundo ele, a partir da década 
de 1920, o deputado, historiador e amante das artes Wanderley 
Pinho fez um projeto de lei relativo à proteção de nosso patrimônio 
cultural e colocou entre os bens preserváveis:
[...] as cimalhas, os forros arquitraves, portas, janelas, 
colunas, azulejos, tetos, obras de marcenaria, pintura, 
murais e quaisquer ornatos (arquitetônicos ou artísticos) 
que possam ser retirados de uma edificação para outra 
(LEMOS, 1981, p. 36). 
Já em 1925, o jurista Jair Lins tratou de defender os bens 
representativos de nosso passado, apresentando um progresso 
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dos bens a serem guardados entre móveis e imóveis. Esta foi a 
primeira vez que alguém mencionou “móveis” dentre os objetos 
a serem conservados. Em 1936, sob autoria de Mário de Andrade, 
surgiu um projeto que se tornou lei em 1937 e que, já naquela 
época, procurava resguardar a totalidade dos bens culturais de 
nosso Patrimônio Cultural chamando-os de “obras de arte” e 
estando agrupados em:
1 - Arte arqueológica, 2 - Arte ameríndia, 3 - Arte popular, 
4 -Arte histórica, 5 - Arte erudita nacional, 6 - Arte erudita 
estrangeira, 7 - Artes aplicadas nacionais, e, 8 - Artes 
aplicadas estrangeiras (LEMOS, 1981, p. 39). 
Porém, para Lemos (1981), o projeto de Mário de Andrade 
era audacioso demais. Por isso, em 1937, uma lei reorganizou o 
Ministério da Educação, quando foi criado o Serviço do Patrimônio 
Histórico e Artístico Nacional, dando a perceber que não se havia 
considerado o texto de Mário de Andrade.
No fim desse mesmo ano, foi criado o então primitivo 
SPHAN, onde se definiu oficialmente o Patrimônio Histórico 
e Artístico Nacional como sendo o conjunto dos bens móveis e 
imóveis existentes no país e cuja conservação seria de interesse 
público por sua vinculação a fatos memoráveis da história do 
Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, 
bibliográfico ou artístico. 
Já a questão da urbanização e do Patrimônio Ambiental 
Urbano foi levantada somente na década de 1970. Lemos (1981) 
ressalta o fato de Ouro Preto ser a primeira cidade preservada no 
Brasil, em 1933. A cidade mineira foi tombada verdadeiramente 
não como uma cidade possuidora de características especiais, mas 
porque se desejou proteger seus monumentos menores, o que 
levou a proteção de agrupamentos de construções cujas áreas 
envoltórias acabaram abrangendo a cidade toda.
Em se tratando de cidades, para Lemos (1981), os bens 
ou coisas móveis ou imóveis que caracterizam o Patrimônio 
Ambiental Urbano não podem s e deter a um artefato urbano 
isolado. Há de se perceber fundamentalmente as relações mantidas 
entre os bens culturais. Nesse sentido, as formas de preservação 
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podem ser divididas, basicamente, em duas maneiras, se forem 
bens móveis ou imóveis. No caso dos bens móveis, a maior parte 
do pouco que temos preservado se deve à ação isolada e interesseira 
de grupos de colecionadores. Entre esses bens, temos:
[...] obras de arte em geral, moedas, selos, máquinas, 
livros, estampas e gravuras, receitas de comida, partituras 
musicais, discos, porcelanas, cerâmicas populares, 
imagens sacras, joias, antiguidades etc. (LEMOS, 1981, 
p. 52). 
Já para os bens imóveis não há quem colecione casas de 
uma rua ou monumentos de uma cidade, por isso, a necessidade 
de que entidades oficiais sejam repartições públicas ou fundações 
para zelar pelo chamado Patrimônio Histórico e Artístico 
(LEMOS, 1981).
Do ponto de vista internacional, Lemos (1981) destaca o 
exemplo da basílica romana, que sempre foi mantida em uso, 
ressaltando que a primeira norma de conduta ligada ao “como 
preservar” é manter o bem cultural, especialmente um edifício, em 
uso constante e, sempre que possível, satisfazendo os programas 
originais. Para tentar normalizar em todo o mundo os procedimentos 
preservadores e evitar o fabrico de bens artificias que pretendem 
substituir bens culturais próprios de outras épocas, o Congresso 
Internacional de Arquitetos e Técnicos em Monumentos Históricos 
reuniu-se em maio de 1964, em Veneza. Dessa reunião nasceu 
um documento denominado Carta de Veneza, cuja redação leva a 
adotar um método científico para a preservação, sendo: 
- O monumento é inseparável do meio onde se encontra 
situado e, bem assim, da história da qual é testemunho.
- A conservação e a restauração de monumentos são 
fundamentalmente atividades interdisciplinares.
- Utilização de edifício de forma correta atribuindo-o 
função útil a sociedade.
- A restauração não deve falsificar o documento de arte e 
história, e essa ação é uma operação que deve ter caráter 
excepcional. Ela visa conservar e revelar o valor estético 
e histórico do monumento.
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- As construções de todas as épocas em um mesmo 
monumento devem ser respeitadas.
- A remoção total ou parcial de um monumento do sitio 
original para outrolocal não pode ser tolerada, salvo se a 
sua preservação assim o exigir.
- Os trabalhos de conservação, de restauração e de 
escavações serão sempre acompanhados de uma 
documentação precisa sob a forma de relatórios analíticos 
e críticos ilustrados com desenhos e fotografias (LEMOS, 
1981, p. 77).
No entanto, para o autor, são dois os fatores que dificultam a 
aplicação desses princípios. O primeiro é a falta de esclarecimento 
popular sobre a importância da preservação de nosso patrimônio. 
O segundo é de ordem jurídica e diz respeito às questões do 
direito de propriedade, onde o instituto de tombamento é esbarrado.
O livro mostrou, de fato, ser muito esclarecedor e cumpre o 
que é proposto, isto é, esclarecer o que é Patrimônio Histórico. 
Elucida, de forma clara, o debate pertinente aos anos de 1980, 
caracterizando conceitos importantes, como patrimônio material, 
imaterial etc. É feito um levantamento histórico dos órgãos e 
de todos os esforços conservadores do patrimônio nacional e 
internacional, dando ênfase ao patrimônio arquitetônico, o que 
não poderia ser diferente diante da formação do autor. No entanto, 
tem a visão de patrimônio muito voltada à perspectiva de 
monumento arquitetônico, tendo como base principal os tipos de 
patrimônio imóveis.
3. CONCEITO DE “PATRIMÔNIO” PARA FUNARI E 
PELEGRINI (2006)
O livro Patrimônio Histórico e Cultural é de autoria de Pedro 
Paulo Funari e Sandra C. A. Pelegrini. O primeiro é graduado em 
História, mestre em Antropologia Social e doutor em Arqueologia, 
professor do programa de Pós-graduação em arqueologia da USP 
e coordenador associado do Núcleo de Estudos Estratégicos da 
Unicamp. Já Pelegrini é graduada em História, mestre em História e 
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Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
Sociedade e doutora em História Social, também é professora do 
Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá. 
A obra apresenta duas diferentes ideias relacionadas ao 
patrimônio. A primeira está ligada aos bens que transmitimos 
aos nossos herdeiros e que podem ser materiais, como uma casa 
ou uma joia com valor monetário determinado pelo mercado ou 
bens materiais de pouco valor comercial, mas de grande valor 
emocional, como uma foto ou uma imagem religiosa. Estes 
podem ser itens do patrimônio de um indivíduo e constar em 
seu testamento. Nesse sentido, além destes, temos o patrimônio 
espiritual ou imaterial inestimável, que são os conhecimentos e 
as infinidades de ensinamentos e lições de vida que nos deixaram 
(FUNARI; PELEGRINI, 2006).
Esses são exemplos de patrimônio individual, que é mais 
fácil de ser definido. No entanto, temos, também, o patrimônio 
coletivo, que não depende só de um indivíduo para definir o que 
é interessante. O coletivo é sempre mais distante, pois é definido 
e determinado por outras pessoas, desde comunidades pequenas 
até municípios, estados, nações ou a humanidade como um todo. 
Por isso, há uma multiplicidade de pontos de vista, de interesse e 
de ações no mundo. O que para uns é patrimônio para outros não 
é. Além disso, os valores sociais mudam com o tempo. Por tudo 
isso, convém analisar como o patrimônio foi visto ao longo dos 
tempos e dos grupos sociais (FUNARI; PELEGRINI, 2006).
Os autores fazem um breve, porém completo histórico da 
trajetória do patrimônio no contexto mundial. Desde a origem 
latina da palavra, que se referia, entre os antigos romanos, a 
tudo o que pertencia ao pai de família. O patrimônio era um valor 
aristocrático e privado, referente à transmissão de bens no seio da 
elite patriarcal romana (FUNARI; PELEGRINI, 2006).
Na Idade Média, com a difusão do cristianismo, foi 
acrescentado o caráter simbólico e coletivo do religioso. O culto 
aos santos e a valorização das relíquias deram ao patrimônio a 
singularidade coletiva, e que, de certa forma, permanece entre nós 
por meio da valorização tanto dos lugares e objetos como dos 
rituais coletivos (FUNARI; PELEGRINI, 2006).
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Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
O Renascimento foi um dos principais momentos de 
valorização do patrimônio, pois os homens dessa época procuravam 
resgatar o domínio na Antiguidade grega ou romana. Chegavam 
aos antigos por meio da leitura de obras antigas e colecionando 
objetos e vestígios da Antiguidade. Eles fundaram o que conhecemos 
hoje como Antiquariado. De acordo com Funari e Pelegrini 
(2006, p. 13), “Alguns estudiosos enfatizavam que o patrimônio 
moderno deriva, de uma maneira ou de outra, do Antiquariado”. Já 
o moderno conceito de patrimônio foi desenvolvido na França a 
partir da revolução de 1789. Contribuíram para isso a formação 
dos Estados Nacionais e o surgimento de uma cultura nacional que 
inclui suas bases materiais a seu patrimônio nacional. 
Ainda segundo Funari e Pelegrini (2006, p. 17): 
Assim começa a surgir o conceito de patrimônio que 
temos hoje, não mais no âmbito privado ou religioso das 
tradições antigas e medievais, mas de todo um povo, com 
uma única língua, origem e território. 
Os modernos Estados Nacionais surgiram a partir de dois 
grandes sistemas jurídicos, cujas características são importantes 
para entendermos as diferentes concepções de patrimônio. 
Uma é oriunda do direito romano ou civil e a outra do direito 
consuetudinário, anglo-saxão. A diferença entre ambos é 
basicamente que a tradição latina considera a propriedade 
privada é sujeita a restrições; já na consuetudinária anglo- 
-saxônica, a limitação ao direito de propriedade é muito mais 
tênue. Em resumo, para exemplificar os dois casos, bens achados 
em propriedades privadas, segundo o direito consuetudinário, são 
do seu proprietário e podem ser vendidos; já na tradição romana, 
tais bens são considerados públicos (FUNARI; PELEGRINI, 2006).
O período entre guerras que vai de 1914 a 1945 é o ápice 
da ênfase no patrimônio nacional, principalmente quando as duas 
Guerras Mundiais eclodem sob o impulso dos nacionalismos. Um 
exemplo extremo é dos italianos que usavam os vestígios dos 
romanos e se exaltavam como seus herdeiros, construindo uma 
identidade calcada nesse patrimônio. Por isso, o “[...] nacionalismo 
italiano usava símbolos materiais do poder romano, como o feixe, 
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do qual deriva o próprio nome do movimento nacionalista, o 
fascismo” (FUNARI; PELEGRINI, 2006, p. 21).
Após o termino da Segunda Guerra Mundial e com a 
criação da ONU e da Unesco em 1945, houve a ascensão de 
novos agentes sociais. O nacionalismo e a ideia de unidade 
nacional foram minados no cotidiano das lutas sociais. Movimentos 
em defesa do meio ambiente contribuíram para que, no fim da 
década de 1950, a legislação de proteção do patrimônio fosse 
ampliada para o meio ambiente e para os grupos sociais e 
locais, antes preteridos em benefício da nacionalidade (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006).
Em 1972, a Unesco promoveu a primeira convenção 
referente ao patrimônio mundial, cultural e natural. A partir do 
reconhecimento da importância da diversidade, já que não fazia 
sentido valorizar apenas e de forma isolada o mais belo, o 
mais precioso ou o mais raro, mas sim incorporar um conjunto 
de bens que se repetem, o comum. O ponto mais importante 
foi considerar que os sítios declarados como patrimônio da 
humanidade pertenciam a todos os povos do mundo. Segundo essa 
convenção, o patrimônio da humanidade deveria ser composto da 
seguinte forma:
- Monumentos: obras arquitetônicas, esculturas, pinturas, 
vestígios arqueológicos, inscrições, cavernas.
- Conjuntos: grupos de construções.
- Sítios: obras humanas e naturais de valor histórico, 
estético, etnológico ou cientifico.
- Monumentos naturais: formações físicas e biológicas.
- Formações geológicas ou fisiografias: habitat de espécies 
animais e vegetais ameaçadas de extinção.
- Sítios naturais:áreas de valor cientifico ou de beleza 
natural (FUNARI; PELEGRINI, 2006, p. 25).
Junto à chancela da Unesco vem agregado o atrativo cultural 
e econômico fomentando o turismo cultural “[...] que é um dos 
principais subprodutos da classificação de um sitio como patrimônio 
da humanidade” (FUNARI; PELEGRINI, 2006, p. 26).
111
Educação, Batatais, v. 5, n. 3, p. 99-116, 2015
Como já vimos no histórico, desde o surgimento até a 
concepção moderna de patrimônio no mundo, veremos agora as 
Cartas Patrimoniais4 e suas proposições, que trouxeram de novidade 
para a América Latina.
A Carta de Veneza (1964) e a de Amsterdã (1975) imprimiram 
novos parâmetros de análise à questão do patrimônio, na medida em 
que propuseram a ampliação do conceito de movimento. Além disso, 
recomendou também a preservação de obras consideradas modestas 
que tinham adquirido significação cultural e a proteção de conjuntos, 
bairros ou aldeias que apresentassem interesse histórico e cultural 
(FUNARI; PELEGRINI, 2006).
O principal legado da Declaração de Amsterdã foram as 
políticas de conservação integrada, que trazem a noção de integração 
do patrimônio à vida social. Além do mais, conferiu ao poder público 
municipal a responsabilidade de elaborar programas de conservação. 
Criava-se, assim, uma identidade micro local, aumentando o 
envolvimento da população nos processos de preservação (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006).
Como na América Latina há uma enorme diversidade desde 
diferentes patrimônios, vasto território, diferenças sociais e carência 
de recursos, isso fez com que fossem propostos desafios especiais 
para cada caso, por isso “[...] torna difícil e inadequado trata-los 
como se constituíssem realidades únicas e homogêneas” (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006, p. 34). Entretanto, apesar da diversidade dos 
contextos históricos, sociais, políticos e urbanos que enfrentam 
os antigos núcleos latino-americanos, atualmente enfrentam os 
mesmos problemas comuns, 
[...] tais como privatização dos espaços públicos, 
degradação do patrimônio cultural, precária qualidade de 
vida, presença predominante de população residente de 
baixa renda, subemprego [...] (FUNARI; PELEGRINI, 
2006, p. 34).
Por isso, desde o final da década de 1970, há mobilizações de 
devotos à causa do patrimônio. Entre esses eventos estão:
4 “Cartas Patrimoniais” são ferramentas que contribuem com o objetivo de uniformizar os discursos do 
cuidado ao bem cultural (SALCEDO, 2007 apud CESAR e STIGLIANO, 2010).
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- Carta de Machu Pichu (1977) – Constituiu um marco nas 
reflexões acerca da preservação dos bens culturais latino-
-americanos. (p. 35).
- Declaração de Tlaxcala (1982) – defendeu a preservação 
de pequenas aglomerações. (p. 36)
- Declaração do México (1985) – ratificou o respeito as 
tradições e formas de expressão de cada povo (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006, p. 36).
Somente na década de 1980 há a acepção ampliada do 
conceito de patrimônio, que compreende não só obras de artistas 
ou triviais, mas o popular como forma de reafirmação da 
identidade cultural (FUNARI; PELEGRINI, 2006). Já no Brasil, 
as políticas públicas voltadas à proteção patrimonial têm oscilado 
entre concepções e diretrizes nem sempre transparentes. A maior 
parte das iniciativas nesse campo inscreveu-se nas esferas do poder 
federal, que, não raras, suscitaram interpretações díspares. Nessa 
direção, temos como início a carta do governador da capitania 
de Pernambuco, D. Luis Pereira Freire de Andrade, de meados do 
século XVIII. Ela foi enviada ao vice-rei do Brasil, D. André de 
Melo e Castro, manifestando o desejo de impedir a transferência 
de instalações militares para o Palácio das Duas Torres, com o 
intuito de preservá-lo (FUNARI; PELEGRINI, 2006)
Após longo período de tempo, o tema patrimônio é abordado 
de maneira sistemática nas cartas constitucionais nos primeiros 
anos da década de 1930. Em 1934, a constituição republicana 
declarou o impedimento à evasão de obras de arte do território 
nacional e introduziu o abrandamento do direito de propriedade 
nas cidades históricas mineiras, quando esta tivesse uma função 
social. Já em 1936, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico 
e Artístico Nacional (SPHAN). Logo depois, em 1937, saiu o 
Decreto-lei que viabilizou os processos de tombamento no país. Era 
o principal instrumento jurídico utilizado pelo SPHAN (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006).
Ao longo das décadas de 1940 a 1960, a gestão do patrimônio 
manteve-se submetida ao Estado Brasileiro, como promulga a 
Constituição de 1946 em reafirmação à Constituição de 1937. 
Já em 1961, foi aprovada a única lei de proteção do patrimônio 
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arqueológico após uma campanha humanista encabeçada pelo 
intelectual paulista Paulo Duarte. Logo, a Carta Constitucional 
de 1967 criou novas categorias de bens a serem preservados, 
elegendo como patrimônio as jazidas e os sítios arqueológicos 
anteriormente classificados apenas como locais de valor histórico 
(FUNARI; PELEGRINI, 2006).
Na década de 1970, houve grandes avanços nas políticas de 
preservação, a exemplo do Programa de Reconstrução das Cidades 
Históricas acionado pelo Governo Federal em 1973. Durante o 
governo Médici, houve a criação do Programa de Ação Cultural 
(PAC); em 1979, foi criada a Fundação Nacional Pró-Memória, 
e, já na década de 1980, a proteção de monumentos isolados foi 
priorizada pela preservação dos espaços de convívio, assim como 
pela recuperação dos modos de viver de distintas comunidades 
(FUNARI; PELEGRINI, 2006).
As políticas de incentivo fiscal voltadas para a cultura 
reforçaram essa ampliação da noção dos bens a serem preservados. 
Conhecida como Lei Sarney, esta constitui um impulso significativo 
no âmbito da proteção do patrimônio, mas propiciou o desenfreado 
desenvolvimento do marketing cultural, que se consolidou nos 
anos 1990. As políticas de preservação adotadas no Brasil daquele 
período sucumbiram à noção de “cidade-espetáculo”, ou seja, a 
transformação de cidade histórica em objeto de consumo (FUNARI; 
PELEGRINI, 2006, p. 50).
Esse processo acabou por excluir a população residente e 
adaptou espaços a novos usos e, na maioria das vezes, não resultaram 
em processos integrados de reabilitação, como propunham as 
Cartas Patrimoniais. Porém, projetos dessa natureza tem o seu 
valor positivo pautados pela transformação do patrimônio em 
áreas de interesse turístico. Para os autores, só se deve procurar 
evitar “[...] reduzir o patrimônio a cenários da indústria cultural 
e entretenimento dissociando todas a fruição dos bens culturais 
da memória social e história” (FUNARI; PELEGRINI, 2006, p. 54).
Com a ampliação do conceito de “patrimônio” na década de 
2000, foi criado um novo instrumento de preservação, o Registro de 
Bens Culturais de Natureza Imaterial. Isso gerou a necessidade, por 
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parte do IPHAN, da criação do Livro de Registro dos Saberes, Livro 
de Registro das Formas de Expressão, Livro das Celebrações e o 
Livro dos Lugares. Esse livro apresenta um levantamento histórico 
do tema, discute as diferentes ideias que estão relacionadas ao 
patrimônio, como os bens que podem ser deixados como herança 
e patrimônio imaterial inestimável que compõe o patrimônio 
individual, e cita a dificuldade para definir o que é patrimônio 
coletivo (FUNARI; PELEGRINI, 2006).
Percebemos, assim, que segundo Funari e Pelegrini (2006), o 
patrimônio deve ser entendido e concebido por uma visão social 
e cultural, enfatizando pouco os aspectos decorrentes da história 
política e/ou social. Por fim, o levantamento da história política 
das leis patrimoniais também é resgatada, entretanto buscando 
enfatizar, como não poderia ser diferente em função da formaçãodos autores, novamente os aspectos sociais e culturais dessas 
medidas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dessa abordagem, podemos considerar que ambas 
as obras instigam a reflexão sobre a multiplicidade do patrimônio 
histórico e cultural, discutindo alternativas para sua preservação. 
Logo, estes trabalhos são muito esclarecedores e cumprem com 
o que é proposto, que é esclarecer o que é Patrimônio Histórico. 
Porém, em alguns pontos, percebemos ideias que convergem e/ou 
divergem em ambas as obras.
Como aspectos divergentes, podemos citar o período em 
que ambas as obras foram escritas: uma na década de 1980 e 
a outra na década de 2000. Essa diferença cronológica pode ser 
percebida pelo fato de a discussão do tema Patrimônio Histórico 
ser relativamente nova e nesses quase vinte anos que separam 
as duas obras nos evidenciam essa diferença na evolução de 
concepção de patrimônio e políticas de preservação. Além do 
mais, o que contribui para um enfoque diferente entre as obras é a 
formação dos autores: Lemos é arquiteto e tem o ponto de vista 
voltado para os monumentos que compõem o patrimônio imóvel. 
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Já Funari e Pelegrini têm um olhar mais amplo sobre patrimônio 
e suas definições sociais e culturais, visto que têm formações 
na área de Humanas. Nesse sentido, vemos perspectivas bem 
diferentes de encarar e refletir sobre esta problemática.
Como p o n t o s convergentes, temos a definição de 
patrimônio, a relação de patrimônio material e imaterial e 
históricos das leis de regulamentação. Ambos os livros discutem 
a importância que colecionadores têm na história do patrimônio e 
sua preservação. Outro tema em comum é a crítica à criação 
de cenários artificiais devidos aos interesses econômicos, 
principalmente os voltados ao turismo, que transformam cidades 
ou monumentos históricos em objeto de consumo. No entanto, o 
que vale ressaltar é que ambos deixam o legado da importância 
da preservação e conservação do nosso patrimônio como um 
todo, seja ele histórico, artístico, cultural ou ambiental, móvel ou 
imóvel, que são tratados como conquistas irrevogáveis no âmbito 
da preservação do patrimônio inatingível.
Mesmo assim, ainda há muito a se fazer, pois podemos afirmar 
que a experiência patrimonial no Brasil tem sido assimilada no seu 
sentido mais amplo, em sintonia com a coletividade e a partir de 
conhecimentos antropológicos, sociológicos, históricos, artísticos 
e arqueológicos orientados por especialistas.
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