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Queiroz, R.S. & Otta, E. “A beleza em foco- condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”, em O Corpo do Brasileiro- estudo de estética e beleza. São Paulo- Editora Senac São Paulo, 2000.

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Queiroz, R.S. & Otta, E. “A beleza em foco: condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”, em O Corpo do Brasileiro: estudo de estética e beleza. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2000.
- Nota do editor:
 O livro trata de questões relativas à beleza enquanto conceito. Isso pressupõe “uma visão de mundo fundada numa determinada filosofia que envolve aspectos antropológicos, sociológicos, políticos e mesmo culturais de cada povo e/ou raça” (p.7). Apesar de abordar “aquilo que diz respeito a técnicas de intervenção que visam embelezar o corpo humano no todo ou em parte ou ao uso de diferentes produtos com esse objetivo” (p.7) essa preocupação com o quê constitui nossas noções do que é belo e do que não é são o foco do livro.
 Existe a ideia de que a cultura em que estamos inseridos nos ensina a olhar nosso próprio corpo e estabelecer padrões de beleza. É importante também estarmos atentos aos valores inscritos nesses padrões e, por consequência, nos corpos. Os ensaios mostram “como o corpo é culturalmente construído” (p.7)
- Apresentação:
 A intenção da coletânea de textos é fornecer a um publico diversificado “um conjunto de reflexões a respeito de valores estéticos e representações sobre o corpo dos brasileiros. Neste universo, a moda deveria ter peso reduzido, prestando-se apenas a pontuar, aqui e ali, as necessárias considerações pertinentes à beleza corporal, definida, esta ultima, sobretudo à luz da percepção de atributos biológicos” (p.11). Na apresentação, Renato da Silva Queiroz aponta que “vê-se que a população do país exibe tantas e tão numerosas variações raciais e culturais que incorreria em grave erro aquele que postulasse a existência, entre nós, de um universo padronizado dos modos de definição, avaliação e representação de uma beleza corporal tipicamente brasileira” (p.12). Contudo, ao meu ver –e digo isso baseada em leituras como Miguel Vale de Almeida e R.W.Connell, existem sim padrões hegemônicos e dominantes no que tange a questões referentes à formulações de corpos possíveis e desejáveis. Ainda que esses padrões sofram algumas adaptações para realidades distintas, a raiz é sempre a mesma. Temos que levar em consideração a estrutura de dominações machistas e heteronormativas de sujeição dos corpos atuante no sistema em que vivemos.	Comment by flavia cunha da silva: Misóginas, transfobicas, cisnormativas, gordofobicas, etc
- Introdução de “A beleza em foco: condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”
 O texto começa indicando a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei D.Manuel em que o mesmo descrevia os indígenas e suas formas corporais e costumes distintos dos portugueses. Pintura, ausência de pelos, perfurações e uso de ornamentos são descritos. Achei importante destacar que segundo Sérgio Buarque de Holanda, “em Caminhos e fronteiras (Rio de Janeiro: José Olympio, 1957), p.113, a pintura corporal dos nativos os protegia dos nefastos raios solares e os resguardava da perseguição de insetos” (p.16). 
 Segundo os autores, esses corpos diferentes eram considerados belos, contudo “tal percepção seria alterada mais tarde, com a implantação do empreendimento colonial, que se fez acompanhar da catequese, escravização e extermínio dos povos nativos, fazendo com que essas diferenças acabassem sendo convertidas em sinais de desigualdade, os traços fenotípicos dos indígenas passando, por consequência, a ser desvalorizados e desqualificados, segundo os estreitos critérios europeus então dominantes” (p.17). Renato de Slilva Queiroz e Emma Otta ilustram essa afirmação ao dizerem que “para se ter uma ideia dessa transformação, basta lembrar que as “vergonhas” dos indígenas foram cobertas pelas indumentárias europeias, de acordo com a moralidade vigente e o padrão de recato imposto sobretudo às mulheres brancas no período colonial” (p.17). 
 Eles tomam, então, a vestimenta como ponto para pensar essas questões relativas a construções sociais à que somos submetidos. O texto afirma que “o valor protetor (instrumental) não é mais relevante que a sua forma (valor expressivo). É por meio dos trajes e acessórios que os acompanham que se estabelece o primeiro estágio de reconhecimento social” (p18). Tendo esse pensamento como base, é possível ler o encontro entre ameríndios e europeus “como o encontro entre homens vestidos e gentes despidas, a ausência de roupas fundamentando o juízo etnocêntrico da falta de civilização” (p18). Os autores também falam das diferentes formas de lidar com a higienização dos corpos e como possivelmente os indígenas viam os portugueses como feios, fétidos e infectos. Apesar disso, para os padrões europeus, os portugueses se esmeravam para deixar seus corpos de acordo com as normas de conduta de seus segmentos sociais. Devemos levar em consideração que formações sociais hierarquizadas (e por isso desiguais), a vestimenta “costuma expressar e acentuar os privilégios de sangue, a condição de classe e o gênero” (p.18). Surge também o exemplo da moda, que em uma sociedade industrial, serve para acentuar ainda mais as divisões de classes. Para os autores, isso reconcilia “o conflito entre o impulso individualizador de cada um de nós (necessidade de afirmação como pessoa) e o socializador (necessidade de afirmação como membro do grupo” (p.19).
 A primeira parte da introdução é concluída com uma questão-chave para a compreensão do tema que estamos tratando:
“Depreende-se daí que o corpo e os usos que dele fazemos, bem como as vestimentas, adornos, pinturas e ornamentos corporais, tudo isso constitui, nas mais diversas culturas, um universo no qual se inscrevem valores, significados e comportamentos, cujo estudo favorece a compreensão da natureza da vida sociocultural” (p19). 
 Uma segunda e última parte da introdução fala rapidamente sobre “a dupla ordem de fenômenos que configuram o nosso corpo. Por um lado , não se pode negar que o corpo humano constitui uma entidade biológica, o mais natural, o primeiro e instrumento do homem. Nessa medida, encontra-se submetido a certas imposições elementares da natureza, o que nos coloca a todos em uma mesma e única condição. Por outro, o corpo é objeto de domesticação exercida pela cultura, sendo por ela apropriado e modelado” (p.19.). Podemos ver claramente a menção ao estudo de Mauss, “as técnicas corporais”. Aparece o exemplo do sorriso: sua implicação inata a todos os humanos e as diferentes formas de uso e significação para o mesmo. A conclusão dessa item é de que “é impossível, então, ignorar as dificuldades em estabelecer uma rígida e clara separação entre o que se deve à natureza e aquilo que seria próprio à cultura no tocante ao corpo, já que nele esses dois domínios aparecem de tal forma amalgamados que as suas dimensões instrumentais, técnicas, raramente se manifestam isoladamente de aspectos expressivos ou simbólicos, assim como os comportamentos inatos trazem sempre a marca do aprendizado” (p.20), ademais um grande conjunto de manifestações corpóreas poderiam ser atribuídos “a um substrato humano bastante genérico e profundo, decorrente de fatores evolutivos, a despeito de não aflorar na consciência dos agentes. Em contrapartida, um elenco notável de outras manifestações, variáveis no tempo e no espaço, ao sabor da diversidade de costumes típica da nossa espécie, deve ser tomada como próprio a cultura” (p.20).
- O corpo, artefato da cultura
 O corpo intocado constitui um objeto natural, associado a animalidade. O corpo humano, seguindo padrões culturais estabelecidos e específicos, é alterado através da submissão a um processo de humanização. “Marcas deixadas por escarificações, perfurações, tatuagens e mesmo algumas mutilações (...) são sinais de pertinência, de identidade social, ao mesmo tempo que assinalam a condição tida por autenticamente humana daqueles que as exibem” (p.21). “As transformações a ele (corpo) impostas variam de acordo com cada cultura e também conforme os diferentes segmentos sociais no interior de