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Queiroz, R.S. & Otta, E. “A beleza em foco- condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”, em O Corpo do Brasileiro- estudo de estética e beleza. São Paulo- Editora Senac São Paulo, 2000.

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um mesmo grupo” (p.21). No texto “Uma sociedade indígena e seu estilo”, Claude Lévi-Strauss aponta que para os indígenas da etnia Mbaia Caduveo “era preciso esta pintado para ser homem; o que permanecia no estado natural não se distinguia dos brutos (...) as pinturas do rosto conferem, antes de mais nada, ao indivíduo, a sua dignidade de ser humano; operam a passagem da natureza à cultura, do animal “estupido” ao homem civilizado” (p.22).
 É importante sempre tocar no ponto de que “respeitados certos limites, cada cultura define a beleza corporal à sua própria maneira, ocorrendo o mesmo com a classificação e avaliação de diferentes partes do corpo e as decorrentes associações estabelecidas entre tais partes e determinados atributos, positivos ou negativos” (p.22). Surgem os exemplos de mulheres belas serem antigamente presumidamente castigadas por imperativo divino a não terem capacidade de procriar; e o ideal de beleza com caráter de resistência cultural e resgate indenitário que é a adoção de penteados afros. 
 Segundo os autores, o emprego do corpo como forma de expressão é amplo e intenso. Sentimentos e/ou doenças são atribuídos a determinadas partes do corpo, como a raiva já foi atribuída ao fígado; inveja ao baço; amor ao coração, etc. O quê Queiroz e Otta afirmam sobre isso é que “do exposto, conclui-se que raramente o corpo é avaliado como um todo homogêneo. Segmentado, dividido à luz de critérios simbólicos ou classificatórios, as suas diferentes partes dão margem a representações variadas. A porção superior é associada às suas funções mais relevantes (...) a porção inferior do corpo reúne os órgãos considerados mais animalescos e “indignos”- reprodutivos, digestores e excretores-, em geral escondidos e dissimulados, assim como as funções que lhe correspondem, posto que nos aproximam ameaçadoramente da condição animal, da própria natureza” (p.23). Por isso algumas partes do corpo são associadas com animais: pênis/cobra; vagina/aranha, etc. Interessante o apontamento de que a cardiologia, enquanto especialidade da medicina teve o desenvolvimento atrasado por conta da associação do coração com dimensões de nobreza e moralidade do caráter humano. Ainda que isso ocorra (associação de órgãos a representações distintas), “no que diz respeito aos valores estéticos, deixando- se de lado certos traços atribuídos à personalidade da pessoa – simpatia, entre outros-, é claro que a primeira, a dimensão externa, é a que mais se presta a formulação de juízos, estejamos nós em repouso ou em movimento, despidos ou cobertos de vestimentas” (p.24). Aparece um poema de Murilo Mendes chamado “Jandira” para ilustrar uma das formas como a simbologia do corpo transparece. No caso, a forma da criação literária. Como no poema existem várias menções ao cabelo da mulher referida, ele é o ponto a ser examinado a seguir. Há a citação ao trabalho de Roger Bastide, chamado “Psicanalise do cafuné”, em que o autor fala sobre como uma pratica pode ser utilitária (medida de profilaxia e higiene) e possuir também um caráter cerimonial de estreitamento de laços sociais complexos. Além desse outro texto, os autores afirmam que o “estado dos cabelos pode ser revelador da trajetória de vida de uma pessoa, da sua condição de existência e do momento que vivencia no interior de um determinado grupo social” (p.27). Ritos de passagem, escolha de reclusão do grupo (corte de cabelo equivalente à castração), descuidar do cabelo pode ser visto como independência em relação as normas de conduta esperadas, disposição e quantidade de pelos pubianos, etc. 	Comment by flavia cunha da silva: Sentimento lésbico entre mucamas e senhoras (período colonial) 
 Também é explorada a mão humana: suas funções e papeis no sistema de comunicação, expressando palavras, ideias e emoções. As mãos, assim como a face, constituem uma área primordial para a expressão da individualidade humana, como diz Ivo Pitanguy. Como não poderia faltar em um estudo sobre condicionamento da biologia humana, os autores invocam Robert Hertz e seu estudo clássico “A preeminência da mão direita”. No estudo, Hertz mostra que “a oposição entre a mão direita e a esquerda não é natural, pois está prenhe de significados, prestando-se à representação de segmentações e hierarquias sociais. Opondo-se a opinião geral de que a predominância da mão direita resulta direta e inteiramente do organismo, nada devendo a preceitos ou crenças culturais, Hertz evoca a enorme pressão sofrida pelos canhotos em numerosas sociedades: a mão esquerda é “submetida a uma autentica mutilação”, “reprimida e mantida inativa; seu desenvolvimento é metodicamente frustrado”. Fosse a tendência humana à desteridade tão acentuada, seria necessário reprimir com tal empenho e zelo a mão esquerda?” (p.29). Isso se deve a fatores socioculturais, como algumas ideias religiosas, como o autor explica ao longo de seu estudo. “Essa mutilação da mão esquerda exprimiria a intenção humana de que predominem os desejos e interesses da coletividade sobre os dos indivíduos, além de tornar o corpo espiritualizado, inscrevendo nele as oposições de valores e os contrastes do mundo moral. A mão esquerda, sob essa perspectiva, seria uma espécie de “signo de uma natureza contraria à ordem, de uma disposição perversa e demoníaca. Eis por que a educação se aplica a paralisar e mão esquerda, enquanto desenvolve a direita” (p.30).
 A essa altura do texto, os autores indicam a leitura de Pierre Clastres e seu livro “A sociedade contra o estado” para falar de inscrições e intervenções praticadas no corpo por ocasião dos ritos de iniciação. O que é particularmente interessante na exposição de Clastres é que ele “observou que, durante esses rituais, no contexto das sociedades ágrafas e sem formação estatal, é como se os preceitos mais caros aos grupos fossem escritos, por meio de perfurações, tatuagens, escarificações e outras ações dolorosas, no próprio corpo dos iniciados, para que estes jamais se esqueçam das lições que lhes são transmitidas durante o desenrolar daqueles ritos. E o primeiro e mais importante dos ensinamentos diz respeito, segundo o autor, ao principio fundamental dessas sociedades: o igualitarismo que as preside, assentado na ausência de um poder separado do corpo social, ou seja, o Estado. Por conseguinte, a lei deve ser escrita num espaço também não separado das pessoas, isto é, no próprio corpo dos iniciados, não sendo possível apagá-la no decorrer do tempo. A rigor, o que se grava na carne (e na memória) é uma imagem da sociedade” (p.31). Uma das inovações da interpretação de Clastres é atribuir às cicatrizes resultantes desses ritos um papel maior que apenas a auto-identificação tribal. Ele entende as cicatrizes-signos impressas na pele por cada sociedade distinta enquanto um referencial para decifrar os códigos sociais dessas sociedades. Ele acredita que elas são interessantes “para se demonstrar na superfície dos corpos, as profundezas da vida social” (José Carlos Rodrigues, Tabu do Corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 19983 – p.63)” (p.31). “O trabalho de Clastres reforça a noção de que o corpo é de fato apropriado e adestrado pela cultura, concebido socialmente, alterado segundo crenças e ideais coletivamente estabelecidos. Nessa medida, o corpo é, a um só tempo, fonte de expressão e de símbolos, para usar a feliz formulação de Mary Douglas (Pureza e Perigo, 1976), para quem é ainda possível identificar um forte simbolismo que sobre ele opera, seus limites prestando-se à representação de quaisquer limites precários ou ameaçados. Dessa forma, o corpo simboliza a sociedade, e os poderes e perigos atribuídos à estrutura social, guardadas as devidas proporções, são nele reproduzidos. A preocupação com os seus limites, por exemplo, traduz perigo para a sobrevivência do grupo, enfatiza Douglas. Em síntese, a estrutura social encontra-se simbolicamente impressa no corpo, e a atividade corporal nada mais faz senão torná-la expressa” (p.32).
 Essas interpretações são fantásticas, mas o texto se torna ainda mais possível