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Livro Texto   Unidade II

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Unidade II
Unidade II
A arte contemporânea parece ser o “bicho de sete cabeças” do nosso tempo, a esfinge sedenta de 
devorar-nos diante das diversas questões a que não sabemos responder. Reconhecemos o estranhamento 
diante de certas “obras de arte”, às vezes duvidamos serem “arte”, dado o seu caráter aparentemente 
banal, utilizando recursos, estruturas e objetos do cotidiano. A arte contemporânea tornou-se a tachação 
mais rápida que o espectador faz quando não consegue estabelecer relação com uma obra de arte: 
aquilo que não faz sentido vai para a “gaveta” da arte contemporânea. 
Começaremos por abordar a difícil tarefa de definir arte contemporânea, apresentando a 
complexidade da qual o termo deriva. São dois os contextos: a pós-modernidade e o regime de 
comunicação em contraposição à noção de modernidade e seu respectivo regime de consumo. 
Conheceremos mais a fundo o artista Marcel Duchamp, aqui apresentado como “embreante” da arte 
contemporânea no interior da arte moderna. A seguir, observaremos algumas das diversas tendências 
da arte contemporânea, apresentando suas características, ideias principais e os artistas mais 
representativos de cada um deles. 
Esperamos que o aluno obtenha com essa leitura uma ampliação de seu repertório sobre arte, artistas 
e movimentos contemporâneos. Que aborde cada um deles sem receios, tocando-os com unhas, mãos 
inteiras, braços e todo o seu corpo racional, sensorial e emocional. Que se deixe envolver, compreendendo 
termos e conceitos de forma alargada e contextualizada, de modo que realize ele próprio a antropofagia. 
A antropofagia é um termo oriundo do Manifesto Antropofágico, texto publicado em 1928 por 
Oswald de Andrade, e é definido pela capacidade canibalesca de deglutir formas culturais diversas e, a 
partir delas, produzir coisas novas.
5 A COMPLEXIDADE DO TERMO
Complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade 
quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o 
econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e 
há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de 
conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes 
entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade.
Edgar Morin
 “Contemporâneo” é uma palavra que possui como sinônimos “coetâneo” e “coevo”, com o sentido 
de ser do mesmo tempo ou da mesma época de algo ou alguém: por exemplo, pode-se dizer que Vincent 
Van Gogh era contemporâneo de Paul Gauguin. Entretanto, por “contemporâneo” também podemos 
compreender algo que seja do tempo atual, por exemplo, quando dizemos que uma peça de mobiliário é 
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
de design contemporâneo. Já a palavra “arte”, vista sob a perspectiva de sua origem do latim ars, significa 
“técnica, habilidade, talento e saber fazer”. Contudo, o termo “arte” tem ganhado definições muito mais 
abrangentes do que sua origem latina, de acordo com as épocas e as culturas que o abordam.
Arte contemporânea não abarca apenas uma justaposição dessas duas palavras. Em conjunto, estas 
formam um conceito que, quando utilizado, refere-se a uma abordagem específica da história da arte e 
à produção dos artistas. Para tentar dialogar com esse conceito e compreendê-lo ao menos em algumas 
de suas faces, resolvemos assumi-lo como um termo que se constrói a partir do pensamento complexo. 
Não nos referimos ao “pensamento complexo” como um pensamento “complicado”, mas trazemos para 
a discussão a ideia de “complexidade” do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. 
O pensamento complexo implica um modo de pensar em forma de rede, cujo conhecimento do mundo 
e das coisas se dá a partir da relação entre os diversos contextos e as diversas partes que compõem o 
objeto de estudo. Na complexidade, a lógica linear, ou seja, o pensamento etapista que pressupõe que 
se deva passar por certas fases para se obter a resposta ou solução de um problema, é compreendida 
como simplificadora e reducionista, pois elimina o objeto de seu contexto e aplica o mesmo método 
independentemente das características do objeto estudado. Esse tipo de pensamento, que Morin chama 
de “pensamento representacionista”, compreende o conhecimento como o processo da mente humana 
de absorver do mundo externo informações e representá-las em nossa mente. Nesta perspectiva de 
conhecimento, há verdades absolutas. Já o pensamento complexo de Morin propõe que o conhecimento 
seja construído a partir da relação dinâmica entre o sujeito que aprende, o objeto de estudo e seus 
diversos contextos, e esta relação, ao modificar-se, altera também a verdade ou conclusões alcançadas, 
não sendo estas, pois, reconhecidas como “absolutas”, mas passando a existir como pluriverdades, válidas 
para aquele determinado momento, diálogo e contexto.
Pensar a arte contemporânea a partir do pensamento complexo é assumi-la como termo em 
constante mutação, que se altera na medida em que modificamos o contexto em que a enquadramos. 
Aceitar a sua complexidade permite-nos abordá-la conscientes da sua infinitude, sendo a leitura que 
travaremos a seguir, tal como os contextos que utilizaremos, apenas algumas das diversas relações 
possíveis a se fazer sobre a arte contemporânea. Sobre essa característica do pensamento complexo:
Um pensamento complexo nunca é um pensamento completo. Não 
pode sê-lo, porque é um pensamento articulante e multidimensional. 
A ambiguidade do pensamento complexo é dar conta das articulações 
entre domínios disciplinares fraturados pelo pensamento desagregador 
(um dos principais aspectos do pensamento simplificador). O pensamento 
simplificador isola o que separa, oculta tudo o que religa. Para esse estilo 
de pensamento, compreender e entender é interferir e mutilar a dinâmica 
criadora da multiplicidade do real. Nesse sentido, o pensamento complexo 
aspira a um conhecimento multidimensional e poiético. Sabe, porém, desde 
o início, que o conhecimento completo é impossível: um dos axiomas da 
complexidade é a impossibilidade, inclusive teórica, de uma onisciência. Torna 
sua a frase de Adorno, “a totalidade é a não verdade”. Reconhece também 
o estado transitório e quase esquemático de todo conceito. Pressupõe o 
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reconhecimento de um princípio de incompletude e de incerteza. Pressupõe, 
também, por princípio, o reconhecimento dos vínculos entre as entidades 
que nosso pensamento deve necessariamente diferenciar entre si, mas não 
isolar. O pensamento complexo está animado por uma tensão permanente 
entre a aspiração a um saber não parcelado, não dividido, não reducionista 
e o reconhecimento do inacabado e incompleto de todo conhecimento. 
Poderíamos dizer que o caminho do conhecimento é para o pensamento 
complexo o que para Paul Valéry era a elaboração de um poema, algo que 
nunca se termina (MORIN; CIURANA; MOTA, 2003, p. 54). 
Assim, adotamos aqui a arte contemporânea em seu estado transitório de formulação e reformulação 
constantes. Posicionamo-nos desta maneira para que o leitor seja capaz de perceber o caráter de 
incerteza e de incompletude que ronda o conceito de “arte contemporânea”, em que cada autor – os 
que aqui apresentaremos e outros que os leitores poderão vir a conhecer – irá abordá-lo de maneira 
diferenciada, cabendo ao leitor tecer a rede que conecta todos esses olhares. 
Um bom exemplo para iniciarmos nosso estudo sobre arte

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