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Livro Texto   Unidade II

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da arte com a atualidade
A vertente arte e tecnologia desenvolve-se à medida que os artistas vão se apropriando das 
novidades tecnológicas, principalmente com o advento do computador, das ferramentas de 
comunicação e das mídias digitais, que transformam-se no meio e na linguagem a partir da qual 
se cria a obra. 
A vertente arte e comunidade inclui práticas artísticas criadas a partir dos anos 2000 e que estão 
cada vez mais presentes na nossa atualidade. Nelas, o artista atua como desencadeador de um processo 
colaborativo e participativo junto com diferentes comunidades – grupos socialmente desfavorecidos, 
minorias étnicas, refugiados, cooperativas de artesãos entre outros. 
As práticas artísticas da arte e comunidade demandam engajamento e envolvimento por parte dos 
envolvidos, que, mais do que participar, colaboram na criação do próprio projeto, horizontalizando o 
papel criador que se move do artista para todos os integrantes do grupo. 
A questão da autoria fica dissipada. Agora o artista não está interessado na manutenção do seu 
status de gênio criador e da preservação da aura da “obra”. A responsabilidade pela criação do projeto 
artístico fica partilhada com todos os integrantes do grupo.
6.6.1 Arte e tecnologia
Mail Art, Web Art, Video Art e Bio Art são algumas das tendências encontradas no interior desta 
vertente. Abordaremos como exemplo o trabalho do artista brasileiro Eduardo Kac, pioneiro da Bio Art e 
referência mundial nessa área de produção.
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Unidade II
Eduardo Kac
Figura 39 – Genesis (1999), instalação de rede transgênica (detalhe), dimensões variáveis, de Eduardo Kac 
Gênesis é uma obra de arte transgênica que explora a intrincada relação 
entre biologia, sistemas de crenças, tecnologia da informação, interação 
dialógica, ética e internet. O elemento-chave do trabalho é o “gene do 
artista”, um gene sintético que foi criado ao traduzir uma frase do livro 
bíblico do Gênesis em código Morse, e converter o código Morse em pares 
de bases de ADN de acordo com um princípio de conversão especialmente 
desenvolvido pelo artista para este trabalho. A sentença diz: “Que o homem 
tenha domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo 
ser vivente que se move sobre a terra”. Ela foi escolhida por implicar uma 
noção duvidosa – divinamente sancionada – da supremacia da humanidade 
sobre a natureza. O código Morse foi escolhido porque, por ser o primeiro 
exemplo do uso de radiotelegrafia, representa a aurora da era da informação 
– a gênese da comunicação global. O gene do Gênesis foi incorporado em 
bactérias, que foram exibidas na galeria. Os participantes via web poderiam 
ligar uma luz ultravioleta na galeria, causando mutações biológicas reais nas 
bactérias. Isso mudou a sentença bíblica para as bactérias. Após o evento, 
o DNA das bactérias foi traduzido para o código Morse, e depois de volta 
para o inglês. A mutação que ocorreu no DNA tinha alterado a sentença 
original da Bíblia. A sentença modificada foi postada no website do projeto 
Gênesis. No contexto deste trabalho, a capacidade de mudar a sentença é 
um gesto simbólico: significa que nós não aceitamos o seu significado na 
forma que o herdamos, e que novos significados emergem à medida que 
procuramos mudá-lo”. 
Enquanto apresentava o Gênesis, eu também dei uma palestra no simpósio 
“Life Science”, apresentado pela Ars Electronica ’99. Minha palestra foi focada 
na proposta do “GFP K-9” Para contextualizar a minha apresentação, eu revi 
a longa história da domesticação do cão pelo homem e sua parceria. Apontei 
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
a influência humana direta e forte na evolução do cão até hoje. Enfatizando 
que não existem matilhas de poodles e chihuauhas no mundo selvagem, e 
que a criação do cão, em relação à do lobo, era um avanço – fato que parecia 
ter se perdido de vista –, passei a apontar a complexa relação entre cães e 
seres humanos ao longo da sua história juntos, que remonta a pelo menos 14 
mil anos, de acordo com registros arqueológicos. Enquanto alguns mostraram 
apoio e apreço pelo trabalho, outros reagiram contra o projeto e exprimiram 
sua posição. O palco estava montado para um diálogo muito produtivo, que 
foi uma das minhas intenções originais. A meu ver, o debate deve ir além 
de políticas oficiais e pesquisa acadêmica para abranger o público em geral, 
incluindo os artistas. O “GFP K-9” foi discutido em publicações em revistas 
de arte, livros e resvistas científicas. Jornais diários e revistas de interesse 
geral também discutiram o trabalho em andamento. Enquanto publicações 
especializadas mostraram maior apreço pelo “GFP K-9”, a resposta dos meios 
de comunicação de massa abrangeu toda uma gama de rejeição direta à 
consideração de múltiplas implicações para apoio inequívoco. O choque 
gerado pela proposta, curiosamente, causou uma crítica a declarar “o fim da 
arte”. A meu ver, não há nenhuma razão para ver o início de uma nova arte 
como o fim de qualquer coisa (KAC, 2007, p. 164-5).
6.6.2 Arte e comunidade
Nesta vertente, a arte alcança uma função social de intervenção na sociedade por meio de processos 
artísticos e educativos. Assim, são vários os projetos criados a partir de convites de instituições culturais 
para artistas trabalharem com grupos locais. 
Esses tipos de trabalho potencializam a atuação das instituições, buscando promover inclusão 
social na comunidade local, democratizar o acesso à arte e romper com as barreiras entre popular, 
erudito e contemporâneo.
Rastilho
Figura 40 – Rastilho (2012), projeto colaborativo
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O Rastilho foi um grupo de produção artística coletiva, autogestionado, iniciado pela artista 
portuguesa Carla Cruz em finais de 2011. Define-se como um grupo que trabalha a espontaneidade, 
a informalidade e a experimentalidade, sem se preocupar com o tempo nem com os lucros das obras 
acabadas. Seu principal objetivo é a promoção da cultura e da arte coletiva.
Teve como um dos produtos do seu viver a reativação da antiga Escola Básica Primária de 
Pevidém – fechada desde o ano letivo de 2010, quando os alunos foram transferidos para um novo 
pavilhão – durante os meses de setembro de 2012 a janeiro de 2013. Foram criados espaços de 
aprendizagem e convívio por meio de diversas oficinas, festejos e momentos de partilha. 
As pessoas envolvidas no grupo eram, em sua maior parte, mulheres desempregadas e com idade 
superior a 45 anos, antigos amigos e conhecidos da freguesia de Pevidém.
O Rastilho vai sendo gerado a partir do convite feito à artista visual Carla Cruz por parte da “Capital 
Europeia da Cultura – Guimarães 2012”, em Portugal. O projeto inicialmente concebido pela artista 
tinha como objetivo alertar para as questões que levavam a arte por um caminho de produção industrial 
em Portugal. Além desse alerta em torno da produção industrial artística, outro problema era o trabalho 
precário ao qual as obras estavam sendo sujeitas e sua pobreza criativa. Todos os alertas e novas 
produções do grupo liderado por Cruz eram realizados por meio de uma criação artística coletiva. 
A abordagem inicial ancorava-se no contexto de “desindustrialização” do Vale do Ave, área geográfica 
de atuação da artista, e suas consequências para o sistema econômico e social local. Tendo em conta esse 
interesse, a artista conheceu o grupo Tecer Outras Coisas, constituído majoritariamente por mulheres 
desempregadas e em formação profissional, sediado

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