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Livro Texto   Unidade II

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um coeficiente de arte, o “aporte” (ou “acréscimo”) pode vir de uma 
nova montagem, mas também, e mais necessariamente, dos títulos que o acompanham. 
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
Expor um objeto é intitulá-lo. O mictório é fonte, o porta-casaco colocado no chão é 
alçapão; quando o objeto é reconhecível como objeto estético (como a Monalisa), o título 
“acrescentado” desloca o valor estético: LHOOQ o dessacraliza.
Como o conteúdo físico da pintura – cores e formas – é rejeitado, e a arte não é mais 
retiniana, é não óptica, então deve utilizar outro suporte. Mas as palavras são signos 
impalpáveis, pouco pesados, que a cadeia de comunicação pode fazer circular dentro dessa 
leveza. Elas servem simultaneamente de lugar e de tempo aos objetos aos quais são título, 
e substituem a matéria: o título é uma cor.
5. O transformador Duchamp
Duchamp como obra contém em germe os desenvolvimentos que os artistas que virão 
depois dele impulsionarão, em um sentido ou em outro: a arte conceitual, o minimalismo, a 
Pop Art, as instalações, até mesmo os happenings, que ele tanto apreciava. Mas não é nessa 
sequência histórica, nessa continuidade de desenvolvimento de um conteúdo estético que 
se deve procurar a transformação de Duchamp. Seria um contrassenso fundamental. É nas 
proposições axiomáticas que anunciam e fundam o regime da arte contemporânea que seu 
trabalho é verdadeiramente transformador. É nesse ponto que a esfera da arte se articula 
com a era da comunicação todo-poderosa. 
Vejamos um resumo breve dessas articulações:
• passagem da mensagem intencional, com emissor e receptor, ao signo produzido pela 
rede e dentro da rede e suscetível de nela circular (anonimato ou disfarce de assinatura, 
banalidade do objeto, inexistência de qualquer emoção de origem retinida).
• paralelamente, desaparecimento do autor como sujeito livre e voluntário. A 
descoberta ao acaso, a escolha, substituem o fazer.
• importância da linguagem, não como expressão de um pensamento, mas como 
fundo radical dele próprio. A língua pensa sobre si, como a arte o faz por meio dela.
• desaparecimento das vanguardas e da mensagem sociopolítica. […] Se nos situamos 
com Duchamp fora da história da arte estética, não há mais tomada de posição que 
tenha valor por sua novidade formal, e, consequentemente, não há mais vanguarda 
(nem, aliás, “retaguarda”). Outro fenômeno é a recuperação quase instantânea do que 
poderia ter passado por vanguarda. Como tudo é admitido, recebido e reconhecido 
como atual, a vanguarda não pode mais se destacar do pelotão.
• busca das condições mínimas de transmissão de um signo: a assinatura se torna a 
garantia da arte, seu coeficiente de valor artístico: a obra pertence ao gênero do cheque.
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• apresentação do continente espacial que coloca o objeto em situação de obra.
• esboço de um desnudamento da rede formada pelos profissionais da arte.
O modelo Duchamp, tão discreto que só alguns iniciados tomaram conhecimento 
dele, oferece não tanto “novas imagens”, mas a única imagem possível de um exercício 
da Arte em um sistema que já começa a ser instaurado, o da comunicação, à qual sua 
obra serve de analisador.
A partir desse momento, o domínio da arte não é mais o da retirada e do desentendimento, 
do conflito com a sociedade, mas de um aclaramento, circunstanciado, dos mecanismos que 
a animam. 
Fonte: Cauquelin (2005, p. 89-105).
Figura 34 – A Roda da Bicicleta (1913), de Marcel Duchamp
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
Figura 35 – A Fonte (1917), de Marcel Duchamp 
Cauquelin (2005) nos possibilita compreender a arte contemporânea a partir do interior do próprio 
sistema da arte, seguindo o regime de comunicação que envolve toda a sociedade. Assim, a arte 
contemporânea não começa a existir a partir de determinado momento da história, nem substitui a 
chamada arte moderna, mas vai coexistindo com ela, consolidando-se conforme as tecnologias de 
comunicação e a economia reestruturam o próprio sistema da arte.
Assim, abordamos a arte contemporânea a partir de duas perspectivas que se pretendem 
complementares. Por um lado, o pós-modernismo como contexto sociocultural que possibilita, 
sobretudo, compreender os conteúdos e a subjetividade dos artistas com seus processos criativos, num 
enquadramento muito distinto do da arte moderna. Por outro lado, vimos o regime da comunicação que 
possibilita olhar a arte contemporânea a partir da sua estrutura organizacional, observando e analisando 
o próprio sistema da arte. 
Esperamos que o aluno apreenda essas perspectivas como primeiras abordagens à arte contemporânea 
e possa, autonomamente, num futuro próximo, conhecer novos ângulos dessa esfinge que agora só nos 
observa a querer devorar-nos.
6 TENDÊNCIAS ARTÍSTICAS CONTEMPORÂNEAS
Vimos anteriormente algumas maneiras de abordar a arte contemporânea a partir de diferentes 
contextos. Agora, iremos apresentar de forma resumida algumas de suas tendências, movimentos 
artísticos e um artista representativo de cada um desses movimentos. 
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Por vezes, alguns artistas, a depender do autor que os aborda, poderão ser considerados como 
pertencentes ainda à arte moderna. Tal como falamos anteriormente, a passagem da arte moderna para 
a contemporânea não se deu como uma viragem em toda a esfera artística. 
Por terem existido concomitantemente uma à outra, alguns dos movimentos a seguir poderão 
ser compreendidos como mais modernos ou mais contemporâneos. Resolvemos adotá-los como 
contemporâneos, tendo na consciência a possibilidade de serem lidos de outras maneiras.
Faz-se importante também ressaltar que aquilo que aqui chamamos de tendências artísticas 
não correspondem ao mesmo teor dos movimentos artísticos da arte moderna. Essas tendências 
representam contextos de atuação dos artistas, que, na maior parte dos casos, não se unem em grupos, 
não formulam “-ismos” – tal como aconteceu na modernidade da arte. Esses artistas trabalham a 
partir de certo contexto em comum, sem supor com isso que criem uma “escola” de estilo ou mesmo 
que tenham convivido uns com outros. 
Vale a pena lembrar que a arte moderna emerge no círculo de artistas das capitais europeias, 
principalmente Paris, enquanto na arte contemporânea o processo de globalização já está 
consolidado, descentralizando a produção artística e permitindo que uma mesma temática possa 
ser elaborada em diferentes pontos do globo. Portanto, temos de olhar para o que virá a seguir 
com olhos contemporâneos.
Utilizaremos como referência o conteúdo disponível no website da Tate, instituição cultural britânica, 
uma das mais importantes no que se refere às artes moderna e contemporânea internacionais. 
6.1 Arte conceitual
Arte conceitual é um termo aplicado a obras de arte para as quais o conceito (ou a ideia) por trás 
da obra e a maneira de produzi-la são mais importantes do que a própria obra acabada. Temos como 
período de destaque na emergência dos artistas conceituais as décadas de 1960 e 1970.
A arte conceitual consolida a divisão entre os caracteres estético e artístico. Nesse enquadramento, 
a obra não poderá ser lida sob critérios estéticos, como formas, cores, representações da realidade, 
maneira ou estilo, pois estes não são elementos primordiais na obra. Deverá ser lida a partir do

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