Engenharia de Produção - Tópicos e Aplicações
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Engenharia de Produção - Tópicos e Aplicações


DisciplinaIntrodução à Engenharia de Produção1.135 materiais18.377 seguidores
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que acompanhando a lógica natural das
coisas, vêm se alterando bastante os conceitos que definem
qualidade. Por conseqüência, a maneira de entendê\u2013la; de criar
programas para viabilizá\u2013la; e de como avaliá\u2013la... E, como não
poderia deixar de ser, vão se modificando elementos como o
contexto, o escopo e a natureza de cursos, treinamentos e
disciplinas que tratam da produção da qualidade, em seus mais
variados aspectos.

Este é o caso, só para citar um exemplo, das disciplinas
curriculares (graduação e pós-graduação) que tratam da qualidade.

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Criadas anos atrás como um viés operacional (por exemplo: Gestão
da Qualidade no Processo), as disciplinas e os cursos de Gestão da
Qualidade evoluíram para uma visão tática (por exemplo:
Envolvimento dos Recursos Humanos no Esforço pela Qualidade) e
hoje se orientam por uma visão muito mais abrangente (e,
portanto, complexa): configurar a qualidade como elemento básico
da liderança estratégica das organizações. Assim nasceu a Gestão
Estratégica da Qualidade.

Além das alterações conceituais da qualidade (e dos reflexos
delas decorrentes), uma constatação mais ampla pode ser feita: A
Gestão da Qualidade nasceu e se criou em épocas de crise. E se
consolidou em épocas de crise. E se expandiu em épocas de crise.

Isto pode ser confirmado por um fato simples: a maior das
crises que sacode uma organização é a presença de forças
concorrentes. Ambientes competitivos são, por excelência, fontes
de crise permanente.

Neste sentido, costuma-se afirmar com muita ênfase: a
concorrência não é a principal origem ou a principal motivadora ou
a principal razão para a produção da qualidade \u2013 é a única. Nos três
casos.

A Gestão da Qualidade, assim, cresceu à luz das crises, ganhou
força e expressão à luz de transformações, solidificou-se em
ambientes de significativas alterações.

Algumas referências bibliográficas clássicas na área de Gestão
da Qualidade confirmam e, até mais que isso, ressaltam esta
constatação. Pode-se citar, por exemplo, Jerry Banks (2004), autor
americano, por muitos anos professor da School of Industrial and
Systems Engineering do Georgia Institute of Technology (Atlanta),
que costuma discutir o histórico da qualidade ao longo dos séculos
com uma abordagem bem interessante. Já Tenner e DeToro (1992)
mostram que há variadas maneiras na forma de entender qualidade
em função das contínuas mudanças que o conceito vem sofrendo.
Outro autor clássico na área, Deming (1990), avalia transformações

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nos processos produtivos sob a motivação da qualidade. Outros
textos analisam a qualidade à luz de crises mais recentes, como
Ishikawa (2009) ou Feigenbaum (2008), o primeiro mais em termos
de transformações externas às organizações e o segundo com maior
foco na atividade produtiva em si.

A qualidade, assim, sempre esteve ligada a crises e
transformações. Foi assim no passado. É assim no presente. É só
olhar a história da qualidade...

5. Visão histórica da qualidade e as lições que ficaram

Um dos primeiros conceitos da qualidade na antiguidade
pode ser visto no Código de Hamurabi (2150 a.c), considerado o
primeiro sistema jurídico da humanidade, com suas 282 cláusulas
(Lima, 1983).

No capítulo XIII do código, relacionado aos médicos e
veterinários; arquitetos e bateleiros (salários, honorários e
responsabilidade), lêem\u2013se as seguintes normas:

229º - Se um arquiteto constrói para alguém e não o faz
solidamente e a casa que ele construiu cai e fere de morte o
proprietário, esse arquiteto deverá ser morto.

230º - Se fere de morte o filho do proprietário, deverá ser morto o
filho do arquiteto.

231º - Se mata um escravo do proprietário, ele deverá dar ao
proprietário da casa escravo por escravo.

232º - Se destrói bens, deverá indenizar tudo que destruiu e porque
não executou solidamente a casa por ele construída, assim que essa
é abatida, ele deverá refazer à sua custa a casa abatida.

233º - Se um arquiteto constrói para alguém uma casa e não a leva
ao fim, se as paredes são viciosas, o arquiteto deverá à sua custa
consolidar as paredes.

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Esta visão histórica da qualidade a associa com uma relação
entre causa e efeito: a punição à geração de defeitos. Ainda que
vista sob um viés negativo (ocorrência de defeitos), já se observa
que a preocupação com a qualidade é antiga.

Outro exemplo de conceitos antigos da qualidade vem dos
fenícios. A civilização fenícia tinha um plano econômico centralizado
no comércio marítimo. Entre os séculos X e I A.C., os fenícios
fincaram postos comerciais ao longo de todo o Mediterrâneo,
chegando às águas do Atlântico que banhavam a península Ibérica e
o norte da África.

Uma de suas leis mais conhecidas afirmava que os soldados
fenícios deveriam amputar a mão do fabricante de produtos
defeituosos. Naquela época, produtos defeituosos eram aqueles
que não estavam de acordo com as especificações governamentais.

Tem\u2013se, aí, uma noção rudimentar de normalização. Mas,
mais do que isso, um conceito consolidado de qualidade: o interesse
do consumidor. De fato, por \u201cproduto defeituoso\u201d poderia
entender\u2013se um barco com problemas (que poderia determinar
atrasos na entrega das mercadorias) ou uma espada que se quebra
no momento do combate (que pode custar a vida de um soldado).
Os fenícios eram comerciantes e guerreiros. Os defeitos, assim,
prejudicavam suas atividades básicas.

Há quem diga que o conceito de \u201cqualidade\u201d, do latim
qualitas, aparece pela primeira vez por meio do filósofo Aristóteles
(384-322 AC), na sua obra "Estudo das Formas Geométricas". Seu
significado: propriedade que caracteriza uma coisa e a diferencia
das outras.

Uma pergunta que fica é por que este conceito foi aparecer
nesta obra: Estudo das formas geométricas. Uma possível razão: as
formas geométricas sempre foram associadas à noção
transcendental de perfeição. Quando se define, por exemplo, o
círculo como o local onde todos os pontos (observe-se bem: todos)
guardam a mesma distância em relação ao centro, tem\u2013se um

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modelo perfeito. A qualidade, assim, intrinsecamente, sempre
esteve associada à noção de perfeição.

Na era dos artesãos, a qualidade de um produto constituía
quase que uma marca de fábrica: eram as "Espadas de Toledo", os
"Violinos Stradivarius" e outros produtos afamados da antiguidade,
identificados por seu local de fabricação. A própria origem definia
uma marca (cavalos árabes), assim como os locais ficaram famosos
por seus atrativos (Jardins Suspensos da Babilônia).

Produtos de marcas consagradas representavam, pela sua
designação, garantia de qualidade do próprio produto. Tratava-se
de produtos desenvolvidos por artesãos e eles executavam todas as
fases da fabricação, até o produto acabado. Este representava um
padrão de qualidade ou, em alguns casos, uma obra-prima que
orgulhava a quem o havia fabricado ou produzido. Interessante
observar que a preocupação (obsessão, em alguns casos) com a
marca persiste até hoje.

Outra constatação interessante: O conceito de artesão nunca
mudou. Ainda hoje, artesão é o que desenvolve uma atividade
muito pessoal, sob seu inteiro controle. Em termos de Gestão
Estratégica da Qualidade, o artesão caracteriza\u2013se por seu
diferencial; este diferencial torna\u2013se crítico à medida que
personaliza tanto sua obra, em si, quanto a quem ela se dirige \u2013 o
que hoje chamamos de customização. Como se vê, a diferenciação,
a customização, enfim, o modelo estratégico da qualidade, é mais
antigo do que se pensa.

Outro momento importante da história da qualidade ocorre
no período