Engenharia de Produção - Tópicos e Aplicações
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Engenharia de Produção - Tópicos e Aplicações


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da Revolução Industrial.

A revolução industrial (período de mudanças tecnológicas
com efetivo impacto social que começou na Inglaterra, no século
XVIII e expandiu-se mundo afora no século seguinte) investiu na
produção em massa de bens manufaturados. Isto mexeu muito com
a cabeça dos artesãos. Eles estavam acostumados a ter os bens
construídos sob medida para cada pessoa. A produção em larga
escala, assim, representou uma ruptura no padrão de operação dos
artesãos.

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No Século XIX, as fábricas criaram linhas de montagem, de
forma a dividir operações complexas em modelos mais simples de
processamento. Aqui, a qualidade era vista como responsabilidade
exclusiva do departamento de fabricação. Muitos elementos dos
sistemas de produção eram mais importantes do que a qualidade
em si (prazos, por exemplo).

A consolidação da Revolução Industrial criou paradoxos
interessantes. O artesão foi assumindo tarefas específicas do
processo produtivo e foi se afastando do produto final. Foi
perdendo a visão do produto acabado. Isto prejudicou a qualidade \u2013
porque o artesão não via o efeito de seu trabalho no produto
acabado; aliás, ele nem via o produto acabado. A impressão é que,
feito por muitas mãos, o produto perdia sua personalidade própria,
esfacelando\u2013se a associação entre o produto e aqueles que o
construíram.

Foi se perdendo, também, o componente \u201cpessoal\u201d do
produto, já que atitudes que envolviam zelo, cuidado, habilidade,
atenção, toques personalizados iam se dissolvendo no processo
produtivo.

Começam os problemas com qualidade. Inicia-se, então, um
processo gerencial rudimentar, que envolvia a fixação de exigências,
como as especificações mínimas dos materiais a empregar, a
avaliação de matérias-primas; o uso de padrões para medir peças; o
acompanhamento das etapas de produção; os testes em partes do
produto e do produto acabado, etc.

Quanto mais aumentavam os níveis de produção, tanto mais
aumentavam os problemas com qualidade.

Novas transformações marcaram a qualidade na primeira
metade do século XX.

De fato, no início do século passado, entendeu\u2013se que a
qualidade dependia de inspeções e de controles nos produtos.
Assim, qualidade significava muitos inspetores, muitos controles,
muitos testes no produto.

Na década que começa em 1920, inicia\u2013se o esforço da
qualidade no processo, quando se percebeu que quem gerava a

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qualidade não eram os controles e nem os controladores, mas o
correto desenvolvimento do processo produtivo. Aparece aqui a
figura genial de Walter Shewhart, que, com seus gráficos de
controle, consolida os modelos até hoje conhecidos como CEP \u2013
Controle Estatístico de Processos.

A idéia era simples do CEP era é simples: quem controla as
causas, controla os efeitos. O contrário é falso. Assim, é bobagem
controlar os produtos (decorrências, sintomas, conseqüências); o
essencial é controlar o processo (origem, gênese, razões).

A Segunda Guerra Mundial acelerou muito o desenvolvimento
da qualidade. De fato, a indústria bélica precisava de produtos que
não apresentassem qualquer falha (no fundo, pelas mesmas razões
dos fenícios) E em grande quantidade (pela urgência de os exércitos,
sobretudo os americanos, intervirem no teatro de operações).
Vieram as técnicas avançadas de inspeção; os métodos estatísticos
sofisticados; os planos de amostragem mais elaborados; a
estatística descritiva e a inferência estatística.

Concluída a guerra, o conhecimento gerado durante seu
desenvolvimento foi repassado para as organizações produtivas,
logo nos anos seguintes. E criou\u2013se um processo de evolução da
qualidade sob o impacto do desenvolvimento tecnológico. Nasce,
aqui, a Garantia da Qualidade, cuja gênese, como se percebe, está
na crise tremenda que a Segunda Guerra Mundial cuidou de criar e
propagar.

A qualidade na segunda metade do século XX vai trazer para o
cenário mundial a figura do Japão. Justo o Japão \u2013 país duramente
castigado pela guerra. Inclusive pela derrota e pelas bombas
atômicas em seu quintal.

Poucos países passaram em sua história por uma crise tão
crítica e tão crucial quanto o Japão, sobretudo a partir do fim da
Segunda Guerra Mundial. E foi justamente lá que, na década de 50,
começa o a revolução da qualidade, impulsionada, sobretudo, pela
identidade cultural do povo e pela necessidade de vencer as
adversidades da guerra.

Dois ilustres homens de qualidade, e da qualidade, muito
contribuíram para tanto: Joseph Juran e W. Ewards Deming. Um

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enfatiza o processo de gestão; o outro se volta para o processo
produtivo. Começam a surgir as ferramentas da qualidade, como a
contribuição de Ishikawa e seu digrama causa\u2013efeito.

Nos Estados Unidos, já na década de 60, Philip B. Crosby cria o
conceito de "zero defeito" (eliminação completa de erros,
desperdícios, falhas, desvios...). Muitos consideram que se trata de
um programa de motivação... Mas ele vai bem além disto. Aqui,
custos elevados de produção estavam na raiz de uma crise que
teimava em rondar as organizações industriais americanas.

No Japão, nesta mesma época, concluiu\u2013se que a
consolidação da qualidade exigia que ela fosse ampliada para todas
as áreas da empresa, incluindo marketing, vendas e administração.
Criam\u2013se instrumentos gerenciais como os Círculos de Controle da
Qualidade. O impacto tecnológico no processo surge sob a forma de
inovações, como aquelas introduzidas pela Toyota, indústria
automobilística japonesa.

 Este viés técnico se junta aos mecanismos de gestão
participativa: Na própria Toyota nasce a participação dos
empregados nos lucros, a atribuição de maiores responsabilidades a
operadores e a delegação do poder de decisão aos operários,
sempre associado ao estímulo ao trabalho em equipe.

Os anos 70 trouxeram a era das normas, formalização da
Gestão da Qualidade no Processo. A partir da norma inglesa British
Standard 5750, vieram as normas da família ISO 9000. A
ISO (International Organization for Standardization) foi fundada em
1947, em Genebra, Suíça. Entretanto, só no começo dos anos 80 é
que foi criado o Comitê TC-176, responsável exclusivamente por
Qualidade... Segue\u2013se a série ISO 9000:1994, a versão 2000, e por aí
vai...

 Também a ISO 9000 decorreu de um processo de crise. A
industrialização gerou volumes de produção incompatíveis com
métodos quase artesanais de inspeção e de controle. A formalização
da ISO visava, na origem, eliminar este entrave, garantindo plenas
condições de operação ao processo. Mais tarde, a ISO vai gerar
outra crise, por transformar-se em instrumento de protecionismo

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de produtores locais, criando entraves ao livre comércio mundial.
Esta crise, ainda que em menor escala, ainda persiste.

6. A transição para os nossos dias

 Os últimos 20 anos do século XX consolidaram sucessivas
revisões de normas que solidificaram os sistemas da qualidade nas
organizações. Também marcaram o desenvolvimento de novas
ferramentas da qualidade e de estratégias mais amplas, como foi o
caso do Modelo Seis Sigma.

É possível, contudo, que o movimento que mais bem
caracteriza a transição do século XX para o século XXI, em termos de
Gestão da Qualidade, seja o forte viés social que a qualidade
assumiu (Paladini, 2009). Defeitos passaram a ser vistos como danos
que transcendem o ambiente de processo; a preocupação com os
recursos humanos das organizações ultrapassa os processos de
formação e qualificação, investindo-se hoje muito em qualidade de
vida \u2013 no trabalho e fora dele; o componente ambiental passou de
opção para obrigação; o comprometimento