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09 27 UM CONVITE A FILOSOFIA CAP PERCEPCAO

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Marilena Chauí
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Capítulo 2
A percepção
Sensação e percepção
O conhecimento sensível também é chamado de conhecimento empírico ou
experiência sensível e suas formas principais são a sensação e a percepção.
A tradição filosófica, até o século XX, distinguia sensação de percepção pelo 
grau de complexidade.
A sensação é o que nos dá as qualidades exteriores e interiores, isto é, as
qualidades dos objetos e os efeitos internos dessas qualidades sobre nós. Na 
sensação vemos, tocamos, sentimos, ouvimos qualidades puras e diretas: cores, 
odores, sabores, texturas. Sentimos o quente e o frio, o doce e o amargo, o liso e 
o rugoso, o vermelho e o ve rde, etc.
Sentir é algo ambíguo, pois o sensível é, ao mesmo tempo, a qualidade que está 
no objeto e o sentimento interno que nosso corpo possui das qualidades sentidas. 
Por isso, a tradição costuma dizer que a sensação é uma reação corporal imediata 
a um estímulo ou excitação externa, sem que seja possível distinguir, no ato da 
sensação, o estímulo exterior e o sentimento interior. Essa distinção só poderia 
ser feita num laboratório, com análise de nossa anatomia, fisiologia e sistema 
nervoso.
Quando examinamos a sensação, notamos que ninguém diz que sente o quente, 
vê o azul e engole o amargo. Pelo contrário, dizemos que a água está quente, que 
o céu é azul e que o alimento está amargo. Isto é, sentimos as qualidades como 
integrantes de seres mais amplos e complexos do que a sensação isolada de cada 
qualidade. Por isso, se diz que, na realidade, só temos sensações sob a forma de 
percepções, isto é, de sínteses de sensações.
Empirismo e intelectualismo
Duas grandes concepções sobre a sensação e a percepção fazem parte da tradição 
filosófica: a empirista e a intelectualista.
Para os empiristas, a sensação e a percepção dependem das coisas exteriores, isto 
é, são causadas por estímulos externos que agem sobre nossos sentidos e sobre o 
nosso sistema nervoso, recebendo uma resposta que parte de nosso cérebro, volta 
a percorrer nosso sistema nervoso e chega aos nossos sentidos sob a forma de 
uma sensação (uma cor, um sabor, um odor), ou de uma associação de sensações 
numa percepção (vejo um objeto vermelho, sinto o sabor de uma carne, sinto o 
cheiro da rosa, etc.).
Convite à Filosofia
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A sensação seria pontual, isto é, um ponto do objeto externo toca um de meus 
órgãos dos sentidos e faz um percurso no interior do meu corpo, indo ao cérebro 
e voltando às extremidades sensoriais. Cada sensação é independente das outras e 
cabe à percepção unificá-las e organizá-las numa síntese. A causa do
conhecimento sensível é a coisa externa, de modo que a sensação e a percepção 
são efeitos passivos de uma atividade dos corpos exteriores sobre o nosso corpo.
O conhecimento é obtido por soma e associação das sensações na percepção e tal 
soma e associação dependem da freqüência, da repetição e da sucessão dos
estímulos externos e de nossos hábitos.
Para os intelectualistas, a sensação e a percepção dependem do sujeito do
conhecimento e a coisa exterior é apenas a ocasião para que tenhamos a sensação 
ou a percepção. Nesse caso, o sujeito é ativo e a coisa externa é passiva, ou seja, 
sentir e perceber são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito para 
decompor um objeto em suas qualidades simples (a sensação) e de recompor o 
objeto como um todo, dando-lhe organização e interpretação (a percepção).
A passagem da sensação para a percepção é, neste caso, um ato realizado pelo 
intelecto do sujeito do conhecimento, que confere organização e sentido às
sensações. Não haveria algo propriamente chamado percepção, mas sensações 
dispersas ou elementares; sua organização ou síntese seria feita pela inteligência 
e receberia o nome de percepção. Assim, na sensação, “sentimos” qualidades 
pontuais, dispersas, elementares e, na percepção, “sabemos” que estamos tendo 
sensação de um objeto que possui as qualidades sentidas por nós. Como disse um 
filósofo, perceber é “saber que percebo”; ver é “pensamento de ver”; ouvir é 
“pensamento de ouvir”, e assim por diante.
Para os empiristas, a sensação conduz à percepção como uma síntese passiva, isto 
é, que depende do objeto exterior. Para os intelectualistas, a sensação conduz à 
percepção como síntese ativa, isto é, que depende da atividade do entendimento.
Para os empiristas, as idéias são provenientes das percepções. Para os
intelectualistas, a sensação e a percepção são sempre confusas e devem ser 
abandonadas quando o pensamento formula as idéias puras.
Psicologia da forma e fenomenologia
Em nosso século, porém, a Filosofia alterou bastante essas duas tradições e as 
superou numa nova concepção do conhecimento sensível. As mudanças foram 
trazidas pelo fenomenologia de Husserl e pela Psicologia da Forma ou teoria da 
Gestalt (Gestalt é uma palavra alemã que significa: configuração, figura
estruturada, forma). Ambas mostraram:
? contra o empirismo, que a sensação não é reflexo pontual ou uma resposta 
físico-fisiológica a um estímulo externo também pontual;
? contra o intelectualismo, que a percepção não é uma atividade sintética feita 
pelo pensamento sobre as sensações;
Marilena Chauí
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? contra o empirismo e o intelectualismo, que não há diferença entre sensação e 
percepção.
Empiristas e intelectualistas, apesar de suas diferenças, concordavam num
aspecto: julgavam que a sensação era uma relação de causa e efeito entre pontos 
das coisas e pontos de nosso corpo. As coisas seriam como mosaicos de
qualidades isoladas justapostas e nosso aparelho sensorial (órgãos dos sentidos, 
sistema nervoso e cérebro) também seria um mosaico de receptores isolados e 
justapostos. Por isso, a percepção era considerada a atividade que “somava” ou 
“juntava” as partes numa síntese que seria o objeto percebido.
Fenomenologia e Gestalt, porém, mostram que não há diferença entre sensação e 
percepção porque nunca temos sensações parciais, pontuais ou elementares, isto 
é, sensações separadas de cada qualidade, que depois o espírito juntaria e
organizaria como percepção de um único objeto. Sentimos e percebemos formas, 
isto é, totalidades estruturadas dotadas de sentido ou de significação.
Assim, por exemplo, ter a sensação e a percepção de um cavalo é sentir/perceber 
de uma só vez sua cor (ou cores), suas partes, sua cara, seu lombo e seu rabo, seu 
porte, seu tamanho, seu cheiro, seus ruídos, seus movimentos. O cavalo-
percebido não é um feixe de qualidades isoladas que enviam estímulos aos meus 
órgãos dos sentidos (como suporia o empirista), nem um objeto indeterminado 
esperando que meu pensamento diga às minhas sensações: “Este objeto é um 
cavalo” (como suporia o intelectualista). O cavalo-percebido não é um mosaico 
de estímulos exteriores (empirismo), nem uma idéia (intelectualismo), mas é, 
exatamente, um cavalo-percebido.
As experiências conhecidas como figura-e-fundo mostram que não temos
sensações parciais, mas percepções globais de uma forma ou de uma estrutura.
As experiências com formas “incompletas” mostram que a percepção sempre 
percebe uma totalidade completa, o que seria impossível se tivéssemos sensações 
elementares que o pensamento unificaria numa percepção.
Se a percepção fosse uma soma de sensações parciais e se cada sensação
dependesse dos estímulos diretos que as coisas produzissem em nossos órgãos 
dos sentidos, então teríamos que ver como sendo de mesmo tamanho duas linhas
que são objetivamente de mesmo tamanho. Mas a experiência mostra que nós as 
percebemos como formas ou totalidades diferentes.
O que é a percepção
A percepção possui as seguintes

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