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Capítulos - formação do solo

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CAPÍTULO 1 
CONCEITO DE SOLO 
 
 
 
 O Soil Taxonomy (1975) define o solo como "coleção de corpos naturais na superfície terrestre, 
localmente modificado ou mesmo construído pelo homem a partir de materiais terrestres, contendo matéria 
viva e suportando ou sendo capaz de suportar plantas ao ar livre" (Fanning & Fanning, 1989). 
 Essa definição revela, em grande parte, a influência da idéia (conceito) do solo como meio para o 
crescimento de plantas, ou seja, vinculado ao seu uso agrícola. Outros pontos de vista, por outro lado, são 
comuns em outras áreas de conhecimento. Engenheiros e geólogos tendem a considerar como solo todo o 
material solto ou inconsolidado sobre a superfície da Terra, ou até mesmo de outros planetas ou satélites 
naturais (em 1969, os astronautas que pousaram na Lua disseram que coletaram amostras do “solo da 
Lua”). Por outro lado, ambientalistas, preocupados com o ciclo da água e outros ciclos da natureza, se 
referem ao solo como “filtro natural” ou como “rim geológico”. 
 Brady & Weil (1999), reconhecendo a importância crescente do solo na questão ambiental, agrupam 
as muitas funções do solo no ecossistema em cinco: (a) suporte para o crescimento de plantas superiores; 
(b) regulador do suprimento das águas; (c) reciclador de materiais; (d) habitat para organismos; (e) meio 
de engenharia. 
 
1.1 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO 
 
a) Conceitos não-pedológicos - solo como meio para desenvolvimento das plantas e outros 
 
 De uma forma ou de outra, com a passagem da humanidade da fase nômade coletora e caçadora para 
a fase de cultivo de plantas (agricultura), os mais diversos povos desenvolveram conceitos para 
diagnosticar a aptidão dos solos para a produção de alimentos. Por exemplo: 
- Conceitos relacionados à adequação do solo ao cultivo: solo para trigo, solo para arroz, etc. 
- Conceitos relacionados à resistência ao arado: solos leves, solos pesados, solos pegajosos. 
 Teophrastus (Grécia, 371-286 A.C.) criou o termo "edaphos" para distinguir o solo da terra (terrae, 
um dos 4 elementos de Aristóteles), ligando o solo à nutrição das plantas. Em Roma, Catão (234-149 
A.C.) desenvolveu uma classificação de solos aráveis baseada na utilidade para cultivo, Columela 
concentrou-se nas propriedades físicas, enquanto que Plenuis deu atenção às rochas e minerais como 
formadores do solo. Com a queda de Roma, o desenvolvimento do estudo do solo sofreu uma grande 
estagnação, sem surgir novidades por um longo tempo (Arnold, 1983). 
 Wallerius (Suécia, 1761) propôs que as plantas nutriam-se diretamente do húmus do solo. Com o 
progresso da química, a teoria do húmus foi substituída pela teoria mineral de Liebig (1843), que 
estabeleceu que as plantas obtém o carbono do CO2 do ar, H e O da água e os nutrientes inorgânicos da 
solução do solo, proporcionando o entendimento da ciclagem dos nutrientes nas plantas e no solo e o 
desenvolvimento da adubação mineral. 
 Os próprios índios brasileiros possuem seu sistema de classificação de solos. Índios da nação Kayapó 
(Pará) adicionam ao radical “Puka”, que significa solo, adjetivos que se referem a atributos do solo como 
cor, pedregosidade e umidade, formando nomes compostos: Kru (pedra) + Tuk (preto) = Pukakrutuk. Esse 
sistema, embora simples, possui as informações necessárias para que os mesmos possam, em seu nível 
tecnológico, utilizar as terras de modo a garantir a sua subsistência (Cooper et al., 1995). 
 Apesar do desenvolvimento científico que ocorreu nas mais diversas áreas, até o final do século XIX 
não existia uma disciplina específica para o solo (ciência do solo), sendo o mesmo classificado de acordo 
com o interesse de outras disciplinas, por exemplo: 
- geologia (solo como produto de alteração de rochas): solos calcários, solos graníticos, etc. 
- botânica: solos de gramíneas, solos de florestas, solos de coníferas, etc. 
- climatologia: solos tropicais, solos temperados, solos de tundra, etc. 
- geografia: solos de vales, solos de terras altas, solos litorâneos, etc. 
- geomorfologia: solos aluviais, solos residuais, solos coluviais, solos glaciais, etc. 
- química (escola de Thaer, 1821): classificação físico-química baseada na composição dos solos. 
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b) Conceito pedológico – solo como um corpo natural organizado 
 
 A idéia de solo como corpo natural organizado, ocupando um lugar independente na superfície 
terrestre, deve-se ao geólogo russo Dokuchaev (1846-1903), que em 1879 afirmou que o solo é um 
produto de origem específica, distinto do material originário. Em 1883 esse cientista publicou um estudo 
de solos "Chernozems", no qual aplicou estudos de morfologia, produzindo a primeira classificação 
científica de solos; mais tarde, definiu o solo como produto de interações complexas entre clima, plantas e 
animais, rochas, relevo e idade das paisagens. Glinka (1867-1929), cientista russo, enfatizou o conceito de 
solo como uma crosta intemperizada que exibe feições zonais correspondentes a zonas climáticas. 
 Marbut, diretor do Soil Survey dos EUA, onde solos vinham sendo mapeados desde 1900 utilizando 
um sistema de classificação com base na geologia, traduziu para o inglês um livro publicado por Glinka na 
Alemanha em 1914, trazendo para os Estados Unidos os conceitos desenvolvidos na Rússia. Em seguida, 
Marbut, aliando as idéias vindas da Rússia com observações de campo, produziu um sistema pedológico 
de classificação de solos, apresentado no Primeiro Congresso Internacional de Ciência do Solo 
(Washington - 1927) (Arnold, 1983). Desde então, esses conceitos foram adotados, ampliados e aplicados 
na caracterização, classificação e mapeamento de solo nos Estados Unidos. Sucessivos refinamentos, 
como de Jenny (1941), que propôs um modelo em que o solo é uma função de diversos fatores (clima, 
organismos, relevo, material de origem, tempo e outros), e de Simonson (1959), que reconheceu a 
diferenciação dos horizontes do solo como o resultado de vários processos (adições, perdas, transferências 
e transformações), levaram ao atual conceito pedológico de solo (Fanning & Fanning, 1989). 
 
 
1.2 TERMINOLOGIA E LIMITES DO SOLO 
 
 A idéia de solo como uma interface no 
ecossistema ajuda a compreender a dificuldade 
para a sua identificação como um corpo natural 
organizado e independente bem como para a 
persistência de uma visão parcial ou incompleta a 
seu respeito. Sua posição, na intersecção entre a 
litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera 
(Figura 1.1), o torna particularmente complexo, 
dificultando sua investigação plena. 
 
 Figura 1.1. O solo como uma interface entre a litosfera, 
 atmosfera, hidrosfera e biosfera. 
 
 A figura 1.2 mostra os limites do solo como considerado pelo Soil Taxonomy, definido em termos de 
plantas. Notar que áreas de terras como glaciais, dunas ativas e planícies salinas, são considerados 
não- 
solos por definição. Áreas de 
águas profundas, que possuem 
somente plantas flutuantes, 
similarmente, são também não-
solos. Por outro lado, áreas de 
águas mais rasas (bordas de 
lagos, lagunas e pântanos), 
onde plantas superiores podem 
enraizar no material do fundo, 
são consideradas como 
possuindo solo. O limite 
inferior é geralmente, mas não 
completamente, definido em 
termos da profundidade das 
raízes das plantas nativas 
perenes; a presença de plantas 
não é necessária, podendo 
haver tão somente a 
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capacidade de suportar o 
crescimento de plantas. 
 Figura 1.2. Limites do solo definido em termos de plantas (extraído de 
 Fanning & Fanning, 1989). 
 
 Na Engenharia, o termo solo eqüivale ao regolito (Figura 1.3), que se refere ao manto

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