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RESENHA DE "PENSAMENTO PRIMITIVO E MENTE CIVILIZADA”
Claude Levi Strauss
	Há três interpretações possíveis para o pensamento dos “povos sem escrita”, aqueles denominados primitivos: (i) funcionalismo, porque considera que o pensamento é utilitarista, inferior, utilizado apenas para satisfazer as necessidades básicas; (ii) emocional, diferente do pensamento moderno mas não inferior; (iii) desinteressado e intelectual, por buscar uma explicação para o mundo no qual está inserido. Segundo o autor, os “primitivos” procuram compreender o universo de forma geral e total, diferentemente do pensamento moderno, científico, que busca explicar as partes para depois compreender o universo. O mito deu ao povo “primitivo” a ilusão de conhecer a natureza, entanto o pensamento científico deu poder sobre a mesma. 
	O autor explica que não é possível desenvolver todas as capacidades ao mesmo tempo. O pensamento científico nos leva a utilizar uma parte do cérebro, com pensamento mais racional, metódico; por outro lado, os povos primitivos utilizavam mais a parte sensorial. Cada povo desenvolveu a mente conforme suas necessidades, sua cultura, e é essa diferença nas habilidades que fez a humanidade progredir. Hoje em dia existe um nível de comunicação e de intercâmbio tão elevado entre os povos que a originalidade quase desaparece levando a uma homogeneidade.
	Analisando o mito da arraia e o vento sul, vemos que há lógica no pensamento dos homens daquela época, podendo ser estabelecido um paralelismo com o pensamento moderno. A arraia é um peixe que visto de lado é fino e visto de frente é grande, ou seja, capacidade de fugir e de assustar, duas características opostas, como o sim e o não. Isso é um pensamento binário, similar ao utilizado nos computadores modernos. Pode-se concluir, então, que o pensamento mitológico é similar ao científico, sendo que este último consegue se justificar a si mesmo além de explicar o mitológico. 
	O autor comenta que diferentes civilizações, mesmo estando geograficamente distantes, têm explicações similares para o mesmo fato, como o mito dos gêmeos, dos que nascem com os pés para frente e daqueles com os lábios rachados ou leporinos. No Peru, no século XVI, o sacerdote os responsabilizava pelas condições climáticas e os obrigava a confessar os pecados. Isso também acontecia no Canadá, entre os índios. A pergunta é: por que as pessoas com lábios rachados e os gêmeos.
	No caso dos gêmeos, os índios do Brasil e Peru consideram que um é filho do marido e outro é filho do Burlão, sendo um bom e o outro ruim, um é responsável pelos bens e outro pelas desgraças. No Canadá os índios das Montanhas Rochosas dizem que um é o Sol e outro a Lua, filhos da mesma mãe, entanto que para os índios da Columbia Britânica são filhos de duas mães diferentes, mas nasceram nas mesmas circunstâncias, ou seja, primos filhos do mesmo engano. O ponto em comum entre todas as tribos indígenas é que os gêmeos passam por situações diferentes e se separam.
	Na versão em que os filhos são primos e não gêmeos, as mães são irmãs. Uma delas viajou e no caminho encontrou uma lebre que ficou olhando suas partes genitais. A lebre estava com os pés para frente, como se tivesse nascido da mulher. A mulher bateu na lebre com um pau afundando-lhe o nariz, ficando a lebre com o nariz e o lábio superior rachado, característica que entre as pessoas é denominada de lábio leporino. Essa fenda atingiu somente o nariz, mas se tivesse conseguido cortar a lebre ao meio, teria duas partes idênticas, ou seja, gêmeos. Em outras palavras, os gêmeos são resultado da divisão dentro do corpo da mãe. 
	Entre os índios de Vancouver a crença é que uma menina com lábio leporino é apanhada por um ogro e consegue escapar com os pés para frente, na mesma posição assumida pela lebre acima citada, por isso há uma relação entre nascer com os pés para frente, as pessoas de lábios leporinos e os gêmeos. Muitas tribos matam os gêmeos e as crianças que nascem com os pés para frente porque são sinônimos de maldade, visto que na competição por nascer primeiro, cortam a barriga da mãe, que muitas vezes morre. A criança é considerada um herói por nascer primeiro, mas também um assassino.
	Cabe ressaltar que em algumas culturas a lebre é considerada um deus, entanto que em outras é um palhaço. Essa ambigüidade mostra um paralelismo com os gêmeos: um é bom e outro mau, duas características opostas, duas metades da mesma pessoa, o Sol e a Lua.
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COMENTÁRIOS CRÍTICOS
	Trata-se de um texto de fácil leitura, porém complexo. A primeira parte, que trata dos pensamentos mitológico e científico, foi mais simples de compreender, mas a “Análise de um mito” foi complexa. Nela o autor viaja de uma civilização para outra, estabelecendo paralelismos nem sempre tão claros, e às vezes até forçados. 
	A primeira parte é, sem dúvida, a mais interessante. O autor nos leva do pensamento mitológico dos “povos sem escrita”, até o pensamento científico, mostrando-nos como cada um deles explicou o universo. 
	Certamente eu nunca tinha pensado que um povo precisava “estar convencido da sua originalidade e [...] da sua superioridade sobre os outros” para ser ele mesmo, para ter sua própria cultura. Superioridade? Então o Brasil é um exemplo inverso dessa situação. Como nosso país poderia ter uma cultura própria, se desde a sua origem, o país sempre foi uma mistura de raças, de culturas? Totalmente diferente de certas tribos indígenas da Amazônia, que ainda vivem parcialmente isoladas do mundo, sem grandes influências externas que possam modificar sua cultura. Hoje em dia vivemos num mundo totalmente interligado em tempo real, onde a mistura de raças, de culturas, de religiões é normal, corriqueira. Será que estamos evoluindo em direção a uma homogeneidade? Se assim for, e se o pensamento do autor estiver certo, como poderemos viver, evoluir, progredir sem algum tipo de diversidade? Fica a pergunta que será respondida pelas próximas gerações.
	O autor do texto, Claude Lévi-Strauss (Bélgica, 1908 – França, 2009) foi uma das grandes figuras da antropologia do século XX. Bacharel em Filosofia pela Sorbonne (França) morou no Brasil entre 1934 e 1939 estudando culturas indígenas. Em 1941 mudou-se para os Estados Unidos, e lá conheceu o estruturalismo lingüístico. Em 1948 voltou à França para ser professor de filosofia e antropologia social. Introduziu o enfoque estruturalista nas ciências sociais, aplicando-o à antropologia, sendo um dos pais da antropologia estrutural. 
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIOGRAFIAS – Vida e obra de personalidades. Claude Lévi-Strauss. Disponível em http://www.biografia.inf.br/claude-levi-strauss-antropologo.html, acessado em 21/09/2013.
LÉVI- STRAUSS, Claude. “Pensamento primitivo e mente civilizada”. Mito e significado. Texto escrito em 1978. Portugal: Edições 70, 2000.

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