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CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo   História da Política Exterior do Brasil.

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a José Bonifácio, às vezes de certo interesse 
pois era bem relacionado, como morador antigo de Filadélfia.
Silvestre Rebello foi mandado para regularizar a nossa 
situação e andou às turras com Gonçalves da Cruz.
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
Alegando o caráter diplomático (encarregado de negócios), 
Silvestre entendeu de dar ordens nem sempre polidas a Gonçalves 
da Cruz, representante consular.
O dissídio, entre os dois, revelou apenas a grosseria e a falta 
de habilidade de Silvestre Rebello de gênio irascível e atrabiliário.
Tempos depois, ele resolveria desacatar também o próprio 
secretário de Estado da República norte-americana, enviando uma 
nota que foi recusada por ofensiva aos brios do povo yankee.
Silvestre Rebello, graças a Deus, tinha suas horas de bom 
humor, nas quais podia trabalhar.
E o reconhecimento do Brasil foi alcançado por ele 59 dias 
depois da sua chegada à América do Norte.
Rebello fez questão de repisar no feito: 59 dias depois da 
chegada!
A verdade é que isso não era coisa de outro mundo.
Silvestre Rebello, porém, possuiu certa habilidade para 
argumentar contra objeções apresentadas pelo presidente Monroe, 
sendo afinal recebido oficialmente a 26 de maio de 1824.
Os Estados Unidos reconheciam assim o Brasil independente, 
antes de qualquer outra nação.
A política de aproximação entre os dois países encontrou de 
certo um alicerce sólido naquela precedência histórica.
E os estadistas brasileiros da época, desejosos de consolidar a 
solidariedade nascente, deram instruções a Rebello para negociar 
uma aliança ofensiva e defensiva com a grande nação do norte.
A nota dirigida por Silvestre Rebello nesse sentido ao 
secretário de Estado americano levou meses para obter resposta. 
E, vinda, foi categórica e negativa.
O novo presidente da República traçou nessa ocasião diante 
dos olhos do representante brasileiro a política tradicional, seguida 
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As ideias liberais na América e a Santa Aliança. 
O reconhecimento do Império pelos Estados Unidos da América 
desde o Farewell Address de Washington, contrária às alianças 
políticas em detrimento dos laços econômicos e comerciais.
Amigos, amigos, negócios à parte.
A cordialidade e amizade yankee-brasileira talvez só tivesse 
lucrado com esses antecedentes, que parecia indicarem a diretriz 
do futuro.
* * *
Estudando com proficiência a questão do reconhecimento, 
escreveu o ilustre internacionalista Hildebrando Accioly a 
propósito desse capítulo de nossas relações com a grande potência 
do norte: 
Militava por nós uma circunstância de valor: era a relativa 
estabilidade do governo do país, produzida por condições 
que nos tinham sido peculiares. Tais condições haviam 
determinado a continuidade de uma administração, que, 
através de formas governamentais sucessivas e cada vez 
mais desligadas da antiga metrópole, desde alguns anos 
vinha dirigindo a ex-colônia portuguesa, com a aceitação e 
obediência da população.
E mais adiante conclui sobre a atuação de Silvestre Rebello: 
Sem dúvida, coube-lhe o mérito de afastar, com certa 
habilidade, alguns ligeiros estorvos, nos quais teria, 
talvez, tropeçado outrem, menos esperto. A maneira como 
fez valer a adesão do Brasil à doutrina de Monroe também 
o terá ajudado na sua missão. É incontestável, porém, que 
o êxito desta já se achava de antemão assegurado, pela 
boa vontade dos Estados Unidos, em relação a todos os 
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História da política exterior do Brasil
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países do Continente, boa vontade baseada em interesses 
de várias ordens72. 
Depois do exemplo dos Estados Unidos, o segundo país em 
reconhecer o Brasil foi o México, que, por nota, de 9 de março de 
1825, do seu ministro em Londres, General Michelena, transmitiu 
sua resolução aos agentes brasileiros Caldeira Brant e Gameiro 
Pessoa.
O México reconheceu assim o Brasil alguns meses antes de 
Portugal e da Grã-Bretanha, cujas negociações como mediadora 
entre o novo Império brasileiro e sua antiga Metrópole constituirão 
matéria do capítulo seguinte.
A obra do reconhecimento pelos demais países foi assunto de 
pouco tempo, à exceção da Rússia e principalmente da Espanha, 
que, saudosa dos galeões carregados com o ouro e a prata do Peru 
e do México, recusou a dura realidade dos fatos, até fins de 183473. 
Então, a Regência do Império tinha cambiado de mãos e o 
Brasil caminhava para novos destinos.
Comentando a atitude dos Estados Unidos e da Inglaterra na 
questão do reconhecimento dos países da América Latina, Samuel 
Flagg Bemis observou: 
The policy of Great Britain and the United States had had 
much in common in regard to Latin America. Both desired 
to continue their new and profitable trade with liberated 
Spanish colonies. But there was a difference between 
the two powers. Great Britain had hesitated at actual 
recognition of independence of new republics and the 
Empire of Brazil74.
72 H. Accioly. Obra cit., p. 177 e p. 178.
73 Ver anexo o quadro cronológico de reconhecimento da Independência do Brasil.
74 Samuel Flagg Bemis. A Diplomatic History of the United States, New York, 1936, p. 203 e p. 204. 
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As ideias liberais na América e a Santa Aliança. 
O reconhecimento do Império pelos Estados Unidos da América 
O exemplo americano, porém, e a política de Canning poriam 
termo a essas hesitações da Inglaterra. E o Novo Mundo conquistou 
de vez a sua liberdade, passando a ser um dos fatores do equilíbrio 
mundial.
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capítulo Viii 
o marquêS de BarBacena e a dipLomacia 
do império. o LiBeraLiSmo econômico de 
canning e a miSSão Stuart 
Mineiro, descendente dos famosos contratadores do Distrito 
Diamantino, Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta 
nasceu no arraial de S. Sebastião de Mariana, a 19 de setembro 
de 1772.
Uma vez terminados os estudos, seguia para Lisboa em 1788 a 
fim de aperfeiçoá-los no Colégio dos nobres e, depois, na Academia 
da Marinha.
O deus-dará da vida dos antepassados garimpeiros parece que o 
atavismo transmitiu ao destino do jovem Caldeira Brant.
Instável por temperamento e dinamismo, Brant pede trans-
ferência das forças de mar para as de terra, e feito major vai servir 
em Angola, no Estado-Maior do governador.
Dois anos de África lhe valeram muita experiência. Aprendeu a 
reprimir as incursões dos corsários no litoral angolense bem como 
a fazer amizade com os seus chefes e entrar no rol dos homens 
sérios. Pois mal chega à Bahia contrata casamento, e a 27 de julho 
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História da política exterior do Brasil
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de 1801 já está amarrado por todos os sacramentos à dona Ana 
Constança Guilhermina de Castro Cardoso dos Santos.
A atividade de Brant faz com que, na Bahia, seja o tenente-
-coronel do regimento local, ao mesmo tempo em que se torna 
negociante, com a fundação de uma casa comercial.
Sua fortuna aumentava assim, com esse novo patrimônio. 
E foi a prosperidade de tal situação econômica que lhe permitiu, 
em 1805, prestar serviços à Inglaterra.
A frota do almirante Home Popham, de passagem para Buenos 
Aires, necessitava de recursos. Brant empresta-lhe largas somas, 
recusando-se a perceber juros.
A simpatia inicial e a estima posterior de George Canning 
saíram nalguma escala daquela atitude de Brant, que talvez 
percebesse o quanto a política britânica costuma apreciar a amizade 
fortalecida pelos laços econômicos.
Dentre alguns serviços prestados ao Brasil, refere Calógeras 
a obra de Caldeira Brant na reorganização dos corpos de linha e 
de milícias, o levantamento às expensas suas do Recôncavo da 
Bahia e de Sergipe, a introdução da primeira máquina a vapor para 
engenhos de canas-de-açúcar.
Em 1804, a Colônia vinha a conhecer, por obra de Brant, 
a vacina jenneriana, prestando-se em pessoa a ser