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CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo   História da Política Exterior do Brasil.

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de Bonaparte.
E para sair desse cativeiro, ou ela teria de casar com o tio 
usurpador, D. Miguel, ou renunciar seus direitos mediante pensão 
vitalícia.
Barbacena dá o golpe mortal em tais desígnios, resolvendo 
seguir para Londres, onde a fidalguia de George IV dispensaria à 
sua hóspede o tratamento condizente com uma rainha.
Debalde Wellington e Aberdeen, então dirigentes da política 
inglesa, aludiriam ao prosseguimento da viagem até Viena.
A Áustria e a política de Metternich achavam-se completa-
mente desarvoradas.
E passado o susto e vencido o obstáculo, Barbacena continuaria 
agora, senhor da situação, as negociações para casar seu amo e 
augusto senhor.
D. Pedro, “namorado teórico” segundo a expressão feliz de 
Calógeras, mantinha-se inquieto e ansioso, suspirando pela noiva.
E para mostrar a Barbacena quanto estimaria ver liquidado 
esse caso, munia-o de todos os poderes: “por isso vos incluo 
três assinaturas em branco, e ponho à vossa disposição a minha 
legítima”.
Enfim, parece que o caso se resolvia.
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
Viena e sua política formavam o modelo negativo. Era o polo 
oposto que se devia buscar.
A dificuldade estava em achar a noiva que não fosse o foguete 
das intriguinhas de Metternich.
Ora, a família de Eugenio de Beauharnais, Grão-Duque de 
Leuchtenberg, partilhava da ojeriza dos Bonaparte ao chanceler 
suntuoso. Apesar de casado com uma irmã do rei da Baviera e 
cunhado, portanto, da Imperatriz da Áustria, não se dera bem com 
o mentor da corte austríaca.
Resultado: a grã-duquesa viúva não tragava Metternich.
Partiu do simpático Pedra Branca, ministro do Brasil em Paris, 
a sugestão aceita por Barbacena, de escolher para futura imperatriz, 
a princesa Amélia de Leuchtenberg.
Tudo se fez então no máximo segredo. Até os espirros dos 
negociadores eram confidenciais.
E assim se concluiu o tratado matrimonial de Cantuária, 
firmado a 30 de maio de 1829 e executado a 2 de agosto do mesmo, 
pelo casamento solene realizado em Munique, onde Barbacena 
representou o imperador do Brasil.
Metternich desta vez fora iludido, pois soubera do casamento 
já ato consumado.
Barbacena triunfante poderia partir a 30 de agosto, trazendo 
a bordo a rainha de Portugal por ele salva e a segunda imperatriz 
do Brasil por ele escolhida.
Como a propósito escreveu o seu biógrafo: “Um vento de 
vitória enfunava as velas”.
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O Marquês de Barbacena e a diplomacia do Império. 
O liberalismo econômico de Canning e a Missão Stuart
Barbacena e o reconhecimento do Brasil
Os historiadores nacionais negligenciam quase sempre as 
causas econômicas do reconhecimento do Império brasileiro pelas 
potências europeias.
Atribuem geralmente à simpatia e ao liberalismo de Canning, 
que desejaria prestar um grande serviço à civilização reconhecendo 
os governos dos países sul-americanos.
Quase que surpreende encontrar num de nossos historió-
grafos, o abalizado Oliveira Lima, afirmações dessa natureza:
A Inglaterra tinha pressa em liquidar o assunto porque 
importantes interesses comerciais de súditos britânicos se 
tinham criado no Brasil à sombra da amizade portuguesa, 
aumentando de ano para ano o número de casas inglesas 
nos portos e avolumando-se, portanto, o intercurso de 
mercadorias (O Reconhecimento do Império, pp. 80-81).
Em outra parte o narrador, cujo maior pesadelo seria depois 
o levantamento moral da figura de D. João VI, põe lado a lado, 
na constante e agradável conjugação com que andam sempre, a 
simpatia e o interesse britânicos:
Eram semelhantes expedições (armadas para favorecerem 
a emancipação das colônias espanholas), tanto a 
consequência do tradicional espírito liberal da nação 
inglesa, naturalmente simpática a qualquer nacionalidade 
opressa ou desejosa de ganhar seus foros, como a expressão 
das vantagens mercantis que um comércio que acabava 
de sofrer o bloqueio continental e se via a braços com a 
acumulação de mercadorias dele resultante, encontrava em 
novos mercados abertos à sua iniciativa (Idem, p. 5).
À parte o período rombudo e descosido, o fato histórico 
resume verdade pura.
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
Pierre Renouvin, em uma série de conferências dadas na 
Fundação Carnegie para a Paz Internacional, acendeu uma chama 
incandescente para devassar as urdiduras subterrâneas da famosa 
Santa Aliança.
Em sua penetrante Histoire Diplomatique, que enfeixam 
tais palestras, Renouvin mostra à farta como o liberalismo de 
Canning com relação ao Novo Mundo seria impotente sem o apoio 
materialíssimo dos negociantes e mercadores da Grã-Bretanha.
Todos previam – o que em parte não falhou – um imenso 
campo para negociatas e enfeudamentos econômicos na América 
do Sul.
Os próprios ingleses não fazem questão de sustentar essa 
hipocrisia histórica.
Ainda buscando o testemunho de Oliveira Lima, vamos 
verificar que quem lhe chamou a atenção para os fatores econômicos 
do reconhecimento foi nada mais nem menos que um membro da 
Câmara dos Lordes.
Abrindo as páginas das Memórias, essas memórias tão 
agressivas e tão agredidas, vemos que o faro do historiador perde 
um pouco diante da perspicácia de Lord Morley.
Escreveu Oliveira Lima:
Para o castelo real fez o acaso com que Joaquim Nabuco 
e eu fôssemos no mesmo wagon com Lord Morley e Lord 
Avebury, antes Sir John Lubbock, o famoso entomologista e 
moralista. Um dos tópicos da conversa foi George Canning, 
a propósito do livro que eu estava então concluindo sobre 
o reconhecimento do Império e do qual falou Nabuco. 
Aludindo este à simpatia poderosa e generosa de Canning 
para com as novas nações ibero-americanas, Morley 
observou que não era ela tão destituída de interesse prático, 
tão ingenuamente liberal quanto queria parecer ao nosso 
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O Marquês de Barbacena e a diplomacia do Império. 
O liberalismo econômico de Canning e a Missão Stuart
idealista, que nunca deixou de parecê-lo mesmo e sobretudo 
ao preconizar mais tarde o pan-americanismo (Memórias, 
pp. 246-247).
A iniciativa de Canning, inclinando-se para “chamar à 
existência o Novo Mundo”, constituía de fato uma transformação 
radical na política do Foreign Office.
Na verdade, Castlereagh tinha-se feito um instrumento 
das maquinações imperialistas de Metternich. O fantasma do 
legitimismo veio, no entanto, a dar cabo do pobre Castlereagh, que 
recorreu ao suicídio.
A ascensão consequente de Canning não representou uma 
reviravolta menos violenta.
Em breve, os escrúpulos legitimistas seriam abandonados 
em proveito do liberalismo, de olhos abertos para o comércio 
promissor das colônias rebeladas.
A situação do Brasil era bem especial no conjunto dos antigos 
domínios europeus na América do Sul. Gozando já de uma elevação 
a Reino, encontrava-se governado por um príncipe regente que, 
aclamado imperador, se erigia no único representante do sistema 
monárquico em terras contaminadas pelas doutrinas republicanas.
Como que o instinto de conservação ditava aos estadistas 
do Velho Mundo a dosagem de paciência e cautela, talvez mesmo 
tolerância, no caso brasileiro.
E na mediação solicitada em 1823 pelo governo de Portugal 
junto à Grã-Bretanha, a Áustria se iria associar de bom grado, não 
só pelo parentesco de Pedro I com os Habsburgos como pelas vistas 
de Metternich favoráveis ao sistema adotado no Brasil.
Harold Temperley, num estudo documentadíssimo sobre 
a política exterior de Canning, elucida a opinião do chanceler 
austríaco:
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
What he chiefly cared about was the maintenance of the 
rights of existing families and of monarchical principles. It 
mattered very little to him, so long as these were preserved,