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CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo   História da Política Exterior do Brasil.

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whether Brazil was governed by an Emperor at Rio or by a 
Cortes at Lisbon75.
E Temperley mais adiante acrescenta, reportando-se ao 
desinteresse de Metternich pelos direitos da Coroa portuguesa 
uma vez que no Brasil se mantinha firme um Império, que “tais 
conceitos mostram o seu regalismo cínico”.
No ambiente favorável da mediação inglesa e austríaca era que 
Barbacena, na companhia de Gameiro, iria desenvolver enorme 
atividade com o fito de obter o reconhecimento do Império.
As perspectivas não apareciam muito sorridentes apesar da 
parcialidade pouco velada dos mediadores, tanto que Barbacena 
lutou em Londres dois anos sem cantar vitória.
A própria mediação foi de início ameaçada, porque o ministro 
de Portugal, o Conde de Vila Real, deu início às negociações, 
exigindo da Grã-Bretanha o compromisso de nunca reconhecer o 
Brasil por sua iniciativa nem D. Pedro com o título de imperador.
Diante de tais condições, Canning recusou-se a prosseguir.
Vila Real então alega que as demais Potências Aliadas, França, 
Rússia e Prússia poderiam também servir de mediadores.
Canning investe contra a Santa Aliança com uma de suas 
tiradas definitivas: “A Inglaterra jamais reconheceria o direito das 
Potências Aliadas de se intrometerem nos negócios das Colônias”76. 
Afastada tal esperança, Vila Real teve de conformar-se com 
a mediação de Canning e Neuman, encarregado de negócios da 
Áustria em Londres.
75 Harold Temperley. The foreign policy of Canning (1822-1827), Londres, 1925, p. 214.
76 H. Temperley. Obra cit., p. 214.
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O Marquês de Barbacena e a diplomacia do Império. 
O liberalismo econômico de Canning e a Missão Stuart
Dentro em pouco, saltava aos olhos a conciliação impossível 
dos pontos de vistas dos países em choque: Barbacena a exigir o 
reconhecimento de Portugal para entabular qualquer negociação; 
Vila Real a não querer ouvir falar em Independência ou Império 
do Brasil.
A mediação chegaria a um jogo de silêncio, a pôr em contato 
“diplomatas que queriam ouvir e se não animavam a falar...”77.
Por outro lado, os sucessos da Confederação do Equador, ensaio 
republicano que vencera no norte do Brasil, animava a resistência 
dos portugueses, que chegavam a contar com o desmembramento 
para, em último caso, conservarem o Amazonas e o Grão-Pará.
A atitude de D. Pedro dissolvendo a Constituinte sofria, 
outrossim, má interpretação em Lisboa para as veleidades da 
Colônia rebelada.
A consequência é que o tempo passou em vão, no meio de 
pourparlers inúteis.
O impasse sobreveio. Aqui inegavelmente a atuação de 
Canning faria uma falta igual ao fracasso porque ele mesmo traça 
de seu punho um projeto apresentado na reunião de 12 de agosto 
de 1824 às partes baseado em linhas gerais nas propostas de 
Barbacena e Gameiro.
Vila Real, para ganhar tempo ou por insensatez o que é mais 
aceitável, recusa-se a enviar a Lisboa o projeto de Canning.
Canning dá outra cartada e chama a si a remessa do projeto de 
tratado ao governo da Bemposta.
O gabinete do gorduroso D. João VI sofria, porém, um 
trabalho de socapa e intriga, muito propício a vencer numa Corte 
decrépita.
77 Calógeras. O Marquês de Barbacena, p. 78.
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
Palmela declarava-se simpático aos ingleses o que lhe valeu 
depois a Embaixada em Londres. Subserra jogava-se nos braços 
amorosos da França – o que lhe proporcionou a Embaixada em 
Paris.
Um fato banal, como a concessão de uma condecoração, define 
o já decadente D. João VI.
A corrida de agrados e favores do representante inglês e do 
francês junto ao gabinete da Bemposta, decorrente embora da séria 
luta do embaixador Hyde de Neuville contra o prestígio britânico, 
oferecia por vezes ensejo a desses casos divertidos!
Mal tinha sido D. João VI condecorado pelo governo da 
França, um vaso de guerra britânico singrava reto a Lisboa com a 
Ordem da Jarreteira.
E o monarca, com a perna gorda tomada pela erisipela, dava 
o desespero com os “physicos” reais, por não poder exibir a liga 
simbólica...
A nau do Estado andava sujeita a dessas tempestades de copo 
d’água, que desviavam a atenção dos homens públicos.
O projeto Canning não fora aceito por D. João VI, que 
exclamava: “Vejo que os aliados seriam capazes de me privarem 
do poder, ao mesmo tempo em que a Inglaterra me persuadiria a 
abdicar minha Coroa brasileira”78. 
Em resultado, um contraprojeto foi trazido à discussão por 
Vila Real na sexta conferência realizada em Londres, em 11 de 
novembro de 1824, onde se insistia que o rei de Portugal fosse 
considerado Imperador Senhor do Brasil.
Barbacena e Gameiro rejeitaram o contraprojeto, mas o 
remeteram para o Rio de Janeiro, a conselho de Canning.
78 Harold Temperley. Obra cit., p. 278.
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O Marquês de Barbacena e a diplomacia do Império. 
O liberalismo econômico de Canning e a Missão Stuart
Mas as manobras escusas e pouco hábeis da diplomacia 
lusitana começavam a vir à tona.
Esquecido do fracasso da missão Rio Maior – Luís Paulino, que 
viera ao Brasil negociar com D. Pedro, de novo o governo português 
enviava outro emissário, José Soares Leal clandestinamente e com 
mera carta de apresentação.
Se a expedição Rio Maior fora em 1823 uma falta de habilidade 
política, a viagem de Soares Leal representava um desacato aos 
mediadores.
D. Pedro soube repelir ambas. Canning, porém, não podia 
perdoar essa duplicidade de conduta, suspendendo as conferências 
dos mediadores e tomando a peito negociar diretamente com o 
Brasil.
Barbacena exultava afinal com a missão de Sir Charles 
Stuart, que Canning enviaria ao Rio para concluir o Tratado 
de 29 de agosto de 1825, com o qual a Metrópole reconhecia a 
independência de sua antiga colônia, já um vigoroso Império.
E logo embarcava para o Brasil, a fim de chegar antes de Stuart, 
visando aplainar o terreno e as dificuldades que se levantassem na 
fase nova do reconhecimento.
A Barbacena se deve incontestavelmente ter cultivado sempre 
as predisposições de Canning para com a nossa causa.
Ao embarcar de Londres, recebia do notável estadista uma 
carta honrosa por que se pode medir o alto apreço de Barbacena 
junto ao gabinete inglês.
E terminada a missão Stuart, ainda haveria Barbacena de 
sustentar os ônus de dívida de Portugal assumida pelo Brasil, 
justificando esse meio incriminado injustamente de ter sido uma 
“compra da Independência...”.
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História da política exterior do Brasil
Renato Mendonça
Não teve a glória do reconhecimento e sofreu as críticas ao 
tratado adicional, que estipulou a indenização dos dois milhões de 
libras pagos pelo Brasil a Portugal.
Não teve a sorte de Gameiro que terminou ministro pleni-
potenciário do Brasil em Londres.
Não teve o valimento do imperador que, num gesto brusco e 
estúpido, o demitiu de ministro da Fazenda para dar balanço em 
contas mortas há muito apresentadas.
O que Barbacena teve foi luta e trabalho, obscuro e paciente, 
tenacidade de judeu e calma nas resoluções, junto ao seu ar franco 
e maneiroso.
Por isso Barbacena ficará como figura central do reconheci-
mento do Império brasileiro.
Bibliografia
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A relação seguinte inclui obras citadas no texto e outras 
consultadas, embora não mencionadas.
Fontes
Documentos sobre o Tratado de 1750, Anais da Biblioteca Nacional, 
volumes LII e LIII, publicados por Rodolfo Garcia, Rio de Janeiro, 
1938.
Coleção de vários Escritos inéditos Políticos e Literários de Alexandre de 
Gusmão, Porto, 1841.
Arquivo Diplomático da Independência, 6 volumes, Rio de Janeiro, 
1922.
BORGES DE CASTRO, José Ferreira. Coleção dos Tratados, 
Convenções, contratos e atos públicos celebrados entre a Coroa de 
Portugal e as mais potências, desde 1640 até ao presente, Lisboa, 1856.
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História da política