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CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo   História da Política Exterior do Brasil.

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Rio Branco, para concluir diciendo que podía el Barón tener 
razón, pero que él no se acordaba de haber concertado el 
canje de las Memorias. Y explicaba:
– Verdad es que Suya Excelencia hablaba en Portugués, y yo 
en Castellano. No nos hicimos comprender.
Esa respuesta fue una gran contrariedad para Rio Branco y 
lo molestaba más precisamente, porque él había conversado 
con Zeballos, como lo hacía siempre, en su Castellano, 
y entrevió una maliciosa ironía en el hecho de que su 
contendor asegurara que él había hablado en Portugués.
De todos os modos, mesmo com su castellano, Rio Branco 
entrava para a galeria dos grandes homens da América. Não só a 
América Espanhola se ocupava de sua personalidade de diplomata 
extraordinário senão os Estados Unidos, a França, a Inglaterra.
Em 1897 a Sociedade de Geografia de Paris lhe abria as portas 
e no ano seguinte a Real Sociedade de Geografia de Londres o 
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Renato Mendonça
nomeava membro correspondente. Seus estudos e memórias de 
geografia e história, escritos em francês e inglês, corriam de mão em 
mão entre os especialistas europeus e americanos, conhecedores 
das questões territoriais da América.
Ainda em 1898, Rio Branco chega sem esforço ao grêmio 
cultural de maior prestígio, ao qual aspira todo homem de letras 
do Brasil antes de ser derrotado na respectiva eleição: a Academia 
Brasileira de Letras.
Academia tão desprezada pelos que nela não conseguem 
entrar. Lembrando a frase de famoso acadêmico francês: “Nous 
sommes quarante: on nous dit pourris. Nous sommes trente y 
neuf: on tombe à nos pieds”.
A Rio Branco, porém, o destino não iria permitir dormir sob os 
lauréis acadêmicos. Outra tremenda questão territorial se armava 
com a França, a questão do Amapá, que se resumia nas pretensões 
francesas de trazer a Guiana até o rio Amazonas.
É sabido que Portugal sempre desenvolveu sua política na 
América Portuguesa, visando o domínio completo da bacia do 
Amazonas, exclusivamente para a Coroa de El-Rei. Para conseguir 
esse desideratum, transigiu com Espanha e firmou o Tratado de 
Madrid de 1750, pelo qual abriu mão de todo território às margens 
do rio da Prata, bacia fluvial que Castela sempre ambicionou 
também exclusivamente para seus domínios.
Foi com a mira em preservar o Amazonas que, ao chegar ao 
Brasil em 1808, D. João VI fez ocupar a Guiana Francesa para evitar 
possíveis incursões no território legendário do El Dorado e das 
mulheres guerreiras entrevistas, talvez num sonho, por Francisco 
Orellana.
Entretanto agora a França, poderosa e armada, já dona de um 
extenso império africano em que se incluíam a Argélia e Tunísia 
conquistadas, desejava violar os antigos tratados, a começar pelo 
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pacto de Utrecht, negociado em 1719 entre Portugal e França, pelo 
qual, no artigo 8o, este último país renunciava às suas pretensões 
“sobre as terras chamadas do cabo do Norte e situadas entre o rio 
Amazonas e o Yapoc ou Vicente Pinzón”.
Ao Brasil, nação pacífica, liberal e democrática, não lhe restava 
outro recurso senão valer-se da solução do arbitramento, princípio 
pelo qual – honroso é proclamar – foram resolvidas em harmonia 
e acordo com todas as nações irmãs e limítrofes às suas questões 
de fronteiras.
Honrando o Direito uma vez mais, estritamente dentro das 
normas de paz e lealdade com os nossos vizinhos, o governo do 
Brasil apelou para o presidente Hauser, da Confederação Helvética, 
e confiou à Suíça, país universalmente reconhecido como amante 
do trabalho e da justiça internacional, a solução do litígio.
A França não queria pouco. Deslocava os limites meridionais 
da Guiana Francesa até a margem superior do Amazonas, uma 
superfície em suma de aproximadamente 200 mil km2, zona 
também de grande riqueza aurífera.
O Brasil inteiro apontou o nome de vencedor do litígio das 
Missões e Rio Branco teve de partir para Berna. Aí trabalhou dois 
longos anos, fazendo estudos profundos e escrevendo extensos 
volumes de memórias de muitos milhares de páginas, tendo ele 
mesmo que desenhar muitos mapas a mão, que se encontram 
hoje no Arquivo do Palácio Itamaraty do Rio de Janeiro. Mas a 
1o de dezembro de 1900, o Brasil obtinha graças a ele uma vitória 
completa e definitiva, sendo adicionado a seu território uma 
extensão de centenas de milhares de quilômetros quadrados, 
podendo-se dizer cada um deles correspondia a uma página 
manuscrita das memórias de Rio Branco.
O Congresso Nacional, a 31 de dezembro do mesmo ano, votou 
uma lei que o declarou “Benemérito Brasileiro pelos relevantes 
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serviços prestados nas Missões especiais de Washington e de 
Berna”, concedendo-lhe uma recompensa nacional de 500 contos 
de réis (então cerca de 100.000 dólares) e uma dotação anual 
transmissível a seus filhos e filhas. Sobreveio a sua nomeação para 
Ministro do Brasil em Berlim.
Era já a apoteose. O bastante para que seu nome ficasse 
gravado no coração de todos os brasileiros. Mas começava apenas 
outra etapa da vida de Rio Branco: o cidadão da América.
Em 1902, Rio Branco foi convidado para ser ministro das 
Relações Exteriores do Brasil, cargo que ocupou durante dez anos 
consecutivos até sua morte em 1912. Nesse tempo, terminou 
ele todos os Convênios de Limites do Brasil. Com o Peru, com a 
Colômbia, com a Bolívia, com a Guiana Inglesa, com o Uruguai.
No caso do Uruguai, Rio Branco deu à América um real exemplo 
de pan-americanismo ao fazer a cessão à República Oriental do 
condomínio da Lagoa Mirim, sendo por esse motivo el Barón a 
figura mais conhecida e respeitada do Brasil naquela brava nação.
Em 1904, reconheceu a independência da República do 
Panamá; em 1909 ofereceu os bons ofícios do Brasil junto ao Chile 
e aos Estados Unidos para solução do caso Alsop & Cia. Novamente 
em 1910, apresenta a mediação, em Quito e Lima, para evitar a 
guerra, provocada por incidentes de fronteira entre o Peru e o 
Equador.
Mas logo pouco depois de assumir a direção do Itamaraty, 
um nó górdio aparece ameaçador. Na fronteira com a Bolívia, os 
caucheiros do Brasil têm constantes conflitos armados com os 
caucheiros bolivianos.
Como bem disse Calógeras, a fronteira triangular entre a 
Bolívia, o Peru e o Brasil foi traçada pelo caucho a aurea sacra famis 
do começo do século.
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Rio Branco, o demarcador da grandeza territorial do Brasil
No território do Acre luta-se e disparam-se os primeiros 
tiros entre irmãos brasileiros e irmãos bolivianos. Rio Branco é 
novamente a estrela polar de espíritos desassossegados.
Afinal conclui-se em 1903 o Tratado de Petrópolis, pelo qual 
o Brasil comprou da Bolívia o território do Acre, ao sudoeste do 
Amazonas, com uma superfície de 148.027 km2. O Brasil pagava 
à grande República Andina a soma de dois milhões de libras 
esterlinas, assumindo a obrigação ainda de construir o ferrocarril 
Madeira-Mamoré, que vai da fronteira boliviana até o curso 
navegável daquele afluente do Amazonas.
Com o Tratado de Petrópolis, as vitórias de Missões e do 
Amapá, Rio Branco, pelos processos mais lisos e corretos do 
arbitramento e do acordo internacionais, integrou ao território 
brasileiro uma superfície de aproximadamente 400.000 km2, ou 
seja, a superfície da Itália.
Na história da civilização ele ficará como o demarcador da 
grandeza territorial do Brasil.
O fim de sua vida foi uma apoteose diária: manifestações do 
povo, estudantes em paradas, bustos de bronze e retratos a óleo, e 
sobretudo acima mesmo do monólito de granito, verdadeiro marco 
miliário, que se encontra hoje no Rio de Janeiro detrás de sua 
estátua em uma das mais amplas e modernas praças da metrópole, 
a do Castelo, bem acima disso,