SERRES, M. Polegarzinha (com localizar)
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SERRES, M. Polegarzinha (com localizar)

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POLEGARZI NHA

Do ALJroR :

Homim:scê11cias
A guena mundial
O i11candcsce1 HC

Variações sobre o corpo
Ramos

Júlio Vt:rnc: a ciência e o homem comcmporârn.:o
Os cinco sentidos

O mal limpo
Notícias cio mundo

tv\ICH EL SER RES
D/\ ACADEMl1\ FR1\ NCES/\

POLEGARZINHA

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Ediw1~1ç:io: F.-\ Studio

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SUMÁRIO

1. POLFG1\RZI N l IA ........ ........ .. ................ ............ 0

2 E 33 . . SCOI /\ ..... ... ......................................... ... ..... .

3. SOCIFDADE .... .... ......... .. ..... ...... ...... ..... .......... 50

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b

Rm1 Hâi·nt',
.ftinnadora do.1)im1rulurt'S da R1lt'garú11/1n,

011vi11lr dw 011vi11lt'.1 dw Polt'gW<'Zi11/w.1.

Rira Jau;111·1. /JtJda
fJllt' Ol jri'z. ((11/Íftr.

1. POLEGARZINI IA

bz

Antes d<.: c:11si11nr o que quc:r que sej:-i a alguém, é preciso,
no mínimo, con lil'c<:r <:ssc algw'.'.m. Nos dias de liojc,
quem se candid:ua <i escola, ao ensino básico. à univl'r-
sidadc?

1

NOV IDADES

Essc: novo aluno. c:ssa jo\'(:111 c:stud~ullc num::i viu um
bezerro, uma vac:l , um porco. uma ninhacb. Em EJOO,
a maiori~1 das pesso:is no pbntt:i tr:iball1a,·a na b,·our:i
ou com gado; c:rn 201 J, a Franç:i . ::issirn cu1no p:1ísc:s
semelhantes. n:io ltrn 111:1is de: l O/o de c::imponc:sts c:n-
trt os seus h:ibita1llts. Dc:vc-se vc:r nisso uma das mais
fonc:s ruptur:is na históri:i. dc:sdt o nc:olítico. Nossas
culturas, que :rntignrnc:ntc: se rc:mctiam :'Is pr:iticns gc:ór-
gic:is apenas. mudaram de: form:1 rcptntin:i. Emrtl:ltllo,
em todo o pbneta. é aimb gr::iças à tc:rr:i que: comc:mos.

Aquc:lc:s que ::iqui aprc:sc:nto não vivem m:iis 11:1
companhia de :rnim::iis, não habitam m::iis n mc:sma
Terra, n5o têm mais a mc:sma rc:bç:ío com o mundo. Ela
ou ele ::iclmira aptnas :i n:lturc:zn arc:1cli:1na. Jquda do
lazer e cio wrismo.

13

M IC H EL SERRES

Ele mora na cidade. Seus antepassados diretos, mais
d:l merade deles, vivia no campo. Ele, porém, prudente,
respeitoso e mais sensível com rebcào ao meio c:unbiente

, '

polui menos do que nós, adultos inconscientes e nar-
císicos.

A vida física não é mais a mesma nem a população
em número, tendo a demografia saltado bruscamente,
no decorrer ele tempo de uma vida humana, de dois para
sete bilhões de seres humanos. Ele habita um mundo
muito povoado.

Agora, sua expectativa de vida beira os 80 anos. No
dia em que se casaram, seus bisavós haviam prometido
fidelidade por apenas uma década. Ele e ela, entretanto,
caso pensem em viver juntos, irão prometer o mesmo
por 65 :mos? Os pais herdaram quando cinham cerca
ele 30 anos de icbde, eles, porém, tedo que esperar a
velhice para receber o legado. N:1o são mais as mesmas
idades que elts conhecem, nem o mesmo casamento,
nem a mesma transmissão de bens.

Ao partir para a guerra, com uma ílor no fuzil , seus
pais ofereciam à p<ltria uma expect:uiva ele vicia breve;
terão eles a mesma atitude, tendo pela frente uma
expectativa ele seis déca<las·?

14

>

l'OLEG 1\ RZ 1 N HA

Há sessenta anos, intervalo único na história OCl-
dcntal, não há mais gu erra. Em breve, nem seus gover-
n~unes e professores conhecerão essa experiência.

Beneficiários de uma medicina finalmente eficaz e
de medicarnemos antálg·icos e anestésicos, eles sofreram
menos do que seus antepassados, do ponto de vista
es rntístico. Passaram fome·? Para eles, toda moral ,
religiosa ou laica, se resumia a exercícios destinados
a suportar uma dor inevitável e cotidiana: a doença, a
pcm'1ria, a crueldade cio mundo.

Não têm mais o mesmo corpo nem o mesmo com-
portamento; adulto nenhum soube inspirar-lhes um::i
moral adequada.

Enquarno os pais foram concebidos às cegas, seus
nascimentos foram prog·ramados. Como a idade da mãe
avançou dez ou quinze anos p::ira gerar o primeiro filho,
os pais dos alunos mudaram de geraç:io. Mais <la met::ide
deles se divorciou. Acompanham menos os filhos?

Ele e ela não lêm mais a mesma gencalogi::i.

Enquanto as gerações anteriores assis tiam às aulas
em sabs ou auditórios universidrios homogêneos cultu-
r::ilmente, eles estudam em uma colcc iviclade em que
agora convivem várias religiões, língu::is, origens e cos tu-
mes. Para eles e para os professores , o multiculturalismo

1 5

M 1 (. 11 [ l S e lt 1( I' :>

{;a regr:1. Por qu:rnw tempo ainJ:1 v:lo c:11w:i r, na Fr:1nç::i,
o horrível ··sa11g11c: impuro'· de alg11m cstr:mgciru?•

O mundo global 11:io é m~1is o mesmo, nem 0
mundo humano. Ao redor. filhas <.: lillios de imigrados.
vindos de paísc.:s menos ricos, ti veram cxpc:riêncicis
vit:iis in vc:rsas das t:iue t:ks conlic:ccram.

Balanço provisório. Q1al litcr:uur:i, qu:il liístória
c.:les irão comprec11dc:r, ldízcs. sem ter co11vi,·ido com a
rustícid:1dc. com os :111im:1is dom(·sticos, com as coJhciL:is
cio vc:r:io, com diversos conll iws, com ccmí téríos,
com feridos . com famintos, com p:ítria, com bamlc:ir::i
c:11sangue1Hacb, com mo11u111e11ws :ios monos .. .
<: sem ter c:xpcrimentado, no sofrimc:nw. ::i urgênci::i
vital ck um::i mor:il?

•l'f ' ··1
'e: erc:11ci:1 :1 etr:1 J:: \ brsc:ll 1c:s:1. ltinu 11:icio11:tl fr:1111.:2s . ( i\: .T)

1 6

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AQU I LO PARA O CORPO.
ISSO PARA O CONHECIMENTO

S c: us arncpass:1dos baseavam sua cultura cm um hori·
zo11te tempor:il de alg1111s milhares de anos. asscmada na
Antig11idadc: grt:co·btí11a, na Bíblia judaica. c:m alg1m1as
tabuinhas cunciíonrn:s <.:cm uma pré-história cu na. Mas
a pt:rspc:ctiva temporal passou a ser bit io11;íria e: se: rc:mct<:
à barreira de: Planck, passa pela acreç:io do planeta.
pela c\·oluç:iu das esp~cies, por uma palcoantropologia
milio1dria.
N~o habit~11nos mais o mesmo tempo: clt:s vi,Tm

outra história.

São formatados pela mídia, propagada por aclulios
que mcticul os:1 mc1Ht: destruíram a faculdade de atcnç:io
delc:s. reduz.indo ·1 durado das ima<•c:ns a 7 sc1111ndos c ~ " "

17

MICHEL SER R ES

o tempo de resposta às pcrgi.111tas a 15 - são nt'1 meros
oficiais. A paJm,Ta mais repetida é '·morre" e a imagem
mais represcncada é a de cadáve res. Com 12 anos, os
adultos já os forçaram a ver mais de 20 mil assass i11at0s .

São formatado~ pela publicidade : como pode-
mos ensinar a eles que a palavra "relais'', em língua
francesa, termina cm "ais", se veem, em LOdas as esta-
ções de trem, "ay"?* Como ensinar o sistema métrico
quando, da maneira mais