A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
278 pág.
Direito Penal. Parte Geral. Prof. Gabriel Habib. 2018

Pré-visualização | Página 10 de 50

o cloreto de etila 
da Lista F2 — lista das substâncias psicotrópicas de uso proscrito no Brasil, da Portaria SVS/MS 344, de 
12.5.98 — para incluí-lo na Lista D2 — lista de insumos utilizados como precursores para fabricação e 
síntese de entorpecentes e/ou psicotrópicos. Ocorre que aquela primeira resolução fora editada pelo 
diretor-presidente da ANVISA, ad referendum da diretoria colegiada (Decreto 3.029/99, art. 13, IV), não 
sendo tal ato referendado, o que ensejara a reedição da Resolução 104, cujo novo texto inserira o cloreto 
de etila na lista de substâncias psicotrópicas (15.12.2000). 
HC 94397/BA, rel. Min. Cezar Peluso, 9.3.2010. (HC-94397) 
 
 
“Abolitio Criminis” e Cloreto de Etila - 2 
 
 
 
26 
DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
 
Aduziu-se que o fato de a primeira versão da Resolução ANVISA RDC 104 não ter sido posteriormente 
referendada pelo órgão colegiado não lhe afastaria a vigência entre sua publicação no Diário Oficial da 
União - DOU e a realização da sessão plenária, uma vez que não se cuidaria de ato administrativo 
complexo, e sim de ato simples, mas com caráter precário, decorrente da vontade de um único órgão — 
Diretoria da ANVISA —, representado, excepcionalmente, por seu diretor-presidente. Salientou-se que o 
propósito da norma regimental do citado órgão seria assegurar ao diretor-presidente a vigência imediata 
do ato, nas hipóteses em que aguardar a reunião do órgão colegiado lhes pudesse fulminar a utilidade. Por 
conseguinte, assentou-se que, sendo formalmente válida, a resolução editada pelo diretor-presidente 
produzira efeitos até a republicação, com texto absolutamente diverso. Repeliu-se a fundamentação da 
decisão impugnada no sentido de que faltaria ao ato praticado pelo diretor-presidente o requisito de 
urgência, dado que a mera leitura do preâmbulo da resolução confirmaria a presença desse pressuposto e 
que a primeira edição da resolução não fora objeto de impugnação judicial, não tendo sua legalidade 
diretamente questionada. Assim, diante da repercussão do ato administrativo na tipicidade penal e, em 
homenagem ao princípio da legalidade penal, considerou-se que a manutenção do ato seria menos 
prejudicial ao interesse público do que a sua invalidação. Rejeitou-se, também, a ocorrência de erro 
material, corrigido pela nova edição da resolução, a qual significara, para efeitos do art. 12 da Lei 
6.368/76, conferir novo sentido à expressão “substância entorpecente ou que determine dependência 
física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar”, elemento 
da norma penal incriminadora. Concluiu-se que atribuir eficácia retroativa à nova redação da Resolução 
ANVISA RDC 104 — que tornou a definir o cloreto de etila como substância psicotrópica — 
representaria flagrante violação ao art. 5º, XL, da CF. Em suma, assentou-se que, a partir de 7.12.2000 até 
15.12.2000, o consumo, o porte ou o tráfico da aludida substância já não seriam alcançados pela Lei de 
Drogas e, tendo em conta a disposição da lei constitucional mais benéfica, que se deveria julgar extinta a 
punibilidade dos agentes que praticaram quaisquer daquelas condutas antes de 7.12.2000. 
HC 94397/BA, rel. Min. Cezar Peluso, 9.3.2010. (HC-94397) 
 
O STF está afinado com a 1ª corrente: para a Corte, a revogação do complemento enseja 
abolitio criminis e retroage para beneficiar os que praticaram a conduta em tempo 
anterior. 
Obs.: quem praticou a venda de cloreto de etila no tempo em que não estava prevista na 
lista da ANS praticou uma conduta atípica. Portanto, em relação a estas pessoas nem se 
fala em abolitio criminis¸ mas na prática de fato atípico. 
 
Aula 03 – 06/02/2015 – Pt. 01 
Lei Penal Incompleta ou Imperfeita 
O tipo penal é composto de dois preceitos: o primário e o secundário. O primário 
contém a conduta proibida ou mandada, o secundário contém a sanção penal. 
Muitas vezes, o preceito primário do tipo penal se mostra incompleto, sendo necessário 
complementá-lo com outra norma. É o que chamamos de norma penal em branco. 
 
 
 
27 
DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
Se o preceito secundário se mostrar lacunoso, falaremos em lei penal incompleta ou 
imperfeita. 
 
Portanto, na lei penal incompleta ou imperfeita, o tipo penal traz o preceito 
primário satisfatoriamente, contudo não traz o preceito secundário de forma 
completa. Nela, precisamos de um complemento para o preceito SECUNDÁRIO. 
A norma penal em branco precisa de complemento para o preceito primário; a lei penal 
incompleta ou imperfeita precisa de complemento para o preceito SECUNDÁRIO. 
Luiz Jiménez de Asúa chamava a lei penal em branco de “lei penal em branco ao 
inverso”. 
Ex.1: Lei 2.889/56 – Lei de Genocídio – faz menção à pena de outros dispositivos. 
Portanto, é uma lei penal incompleta, porque se faz necessária a consulta a outros 
dispositivos para sabermos qual a sanção penal. 
Ex.2: Art. 304 CP -> norma penal em branco e norma penal incompleta ou imperfeita, a 
um só tempo. 
 
Conflito Aparente de Normas 
Sobre um caso concreto, aparentemente podem incidir diversos tipos penais. 
Quando houver diversos tipos penais parecendo incidir ao mesmo tempo num fato, há o 
que chamamos de conflito aparente de normas. 
Santiago Mir Puig, titular da Universidade de Barcelona, chama esse tema de 
“Concurso de Leis”, denominação que não nos parece tão técnica. O mais correto seria 
falar em “conflito aparente de tipos penais”. 
Esse conflito é meramente aparente, porque quando concretizo o ius puniendi não posso 
aplicar sobre uma mesma conduta dois ou mais tipos penais, sob pena de incidir em bis 
in idem. 
Para não incorrer em bis in idem, devemos escolher qual o tipo penal que incidirá sobre 
aquele único fato, embora haja diversos tipos penais conflitando entre si aparentemente. 
Essa determinação se dará conforme alguns critérios, chamados de princípios do 
conflito aparente de normas. 
 
 
 
 
 
28 
DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
São requisitos do conflito aparente de normas: 
1. UNIDADE DE FATO 
2. PLURALIDADE DE TIPOS PENAIS que aparentemente incidem 
 
A finalidade é evitar o bis in idem, com base na proibição da dupla punição. 
Os critérios para resolver o conflito aparente são: 
i. Especialidade 
ii. Subsidiariedade 
iii. Consunção 
a. Crime progressivo 
b. Progressão criminosa 
c. Post factum impunível 
Ex.1: Cássio matou Paulo. 
Ex.2: Cássio matou o Presidente da República. 
Ex.3: Cássio importou um remédio proibido no Brasil. 
Ex.4: Cássio importou arma de fogo. 
Ex.5: Cássio importou uma arma de fogo de uso exclusivo das forças armadas. 
Ex.6: Cássio usou documento falso para sonegar imposto de renda. 
 
Princípio da Especialidade 
Sobre um único fato, aparentemente incidem vários tipos penais (T1, T2, T3). A 
comparação entre os tipos penais, no p. da especialidade, dá-se de forma abstrata. 
Comparamos os dois tipos penais e verificamos que um deles tem um elemento a mais, 
que o outro não tem. 
Elemento do tipo é tudo aquilo que o tipo contém, sem o qual o tipo desaparece. Ou 
seja, elemento do tipo é tudo o que está expresso no tipo. O que está escrito no art. X é 
elemento; tirando qualquer daqueles termos, o tipo desaparece. 
Aqui, comparando os tipos penais aparentemente incidente, vemos que um deles contém 
um elemento que o outro não tem. Hungria chamava-o de elemento especializante. 
Esse elemento especializante torna um tipo diferente do outro; aquele tipo que o contém 
passa a ser considerado especial em relação ao outro, que é então considerado geral. 
 
 
 
29 
DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
O tipo que tem elemento a mais (elemento especializante)