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DisciplinaIntrodução Às Ciências Sociais417 materiais1.669 seguidores
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Tecnologia de gestão e agricultura familiar 
Mário Otávio Batalha 
Antônio Márcio Buainain 
Hildo Meirelles de Souza Filho 
 
RESUMO 
 
Parece inquestionável que um dos importantes entraves à competitividade dos agricultores 
familiares é a utilização de tecnologias inadequadas. Neste contexto, existe um esforço 
considerável - embora não suficiente - de desenvolvimento de tecnologias voltadas para os 
agricultores familiares. Grande parte deste esforço está sendo dedicado ao desenvolvimento e 
difusão de tecnologias de processo, de materiais e de produtos e serviços. No entanto, pode-se 
notar que os esforços voltados para as tecnologias de gestão e de informação são ainda 
incipientes e, via de regra, inócuos. Este artigo argumenta que as tecnologias de gestão são 
fundamentais para a competitividade da agricultura familiar brasileira e que, portanto, não 
devem ser negligenciadas. O artigo apresenta e contextualiza a gestão agroindustrial no âmbito 
dos empreendimentos rurais, particularizando-a em relação a agricultura familiar. O artigo 
pretende ainda traçar um rápido panorama da utilização das tecnologias de gestão pelos 
agricultores familiares brasileiros. Desta breve análise nasce a constatação que os desafios da 
aplicação de tecnologias de gestão adequadas à agricultura familiar no Brasil encontram-se em 
duas diferentes esferas de aplicação: a gestão da propriedade rural e a gestão de formas 
associativas de produtores rurais familiares. O artigo conclui apontando a necessidade de 
ampliarem-se esforços no sentido de as ferramentas mais clássicas (marketing, logística, 
qualidade, custos, etc) da gestão agroindustrial serem adaptadas à realidade da agricultura 
familiar brasileira. Finalmente, o artigo aponta, nas suas conclusões, que um empreendimento 
rural, seja ele familiar ou não, deve ser gerido eficientemente como forma de garantir sua 
inserção no mercado e, por conseqüência, sua sustentabilidade. 
 
 
Palavras-chave: agricultura familiar, agronegócio, gestão agroindustrial 
 
1. INTRODUÇÃO 
O baixo nível tecnológico dos agricultores familiares brasileiros não pode ser explicado apenas 
pela falta de tecnologia adequada; ao contrário, em muitos casos, mesmo quando a tecnologia 
está disponível, esta não se transforma em inovação devido à falta de capacidade e condições 
para inovar. O reconhecimento de que o desempenho e a viabilidade dos agricultores dependem 
de um conjunto de fatores e agentes que formam um sistema, mais ou menos integrado ou 
harmônico, desloca a análise para a cadeia agroindustrial e requer um enfoque sistêmico. 
Segundo Pedroso (1999) a tecnologia pode ser visualizada segundo três níveis de análise: (1) 
nível macro \u2013 análise dos sistemas internacionais e nacionais de P&D e I; (2) nível meso-
analítico \u2013 estuda a tecnologia no âmbito dos setores industriais; (3) nível micro-analítico \u2013 
estuda a tecnologia no contexto das firmas e arranjos empresariais. Ainda segundo este mesmo 
autor, a tecnologia pode ser classificada em cinco categorias: (1) tecnologia de processos; (2) 
tecnologia de materiais; (3) tecnologia de produtos e serviços; (4) tecnologia da informação; (5) 
tecnologia de gestão. 
Todas as categorias são relevantes, interagem entre si e são condicionadas \u2013 e têm efeitos \u2013 por 
fatores macro, meso e micro. Estas classificações são úteis para avaliar a tecnologia de gestão 
para a agricultura familiar. Em primeiro lugar, é preciso reafirmar a importância do nível micro e 
das aplicações das unidades produtivas da tecnologia de produto, processo e gestão que as 
coloquem em condições de competir nos mercados em que atuam. Em se tratando da agricultura 
\u2013 cada vez mais integrada a uma complexa cadeia que atravessa os três setores tradicionais \u2013 
ganha importância o domínio de todas as tecnologias que implicam em melhor coordenação dos 
sistemas produtivos (p.ex. a tecnologia da informação). A identificação das tecnologias de gestão 
como parte fundamental dos conhecimentos e técnicas que uma empresa, rural ou não, deve 
dominar para obter sucesso no seu negócio. 
No âmbito dos sistemas agroindustriais, o sentido mais imediato atribuído ao termo tecnologia é 
aquele vinculado às tecnologias de produto e processo. A esmagadora maioria das atividades de 
pesquisa e desenvolvimento realizadas no Brasil, para a agropecuária em geral e para a 
agricultura familiar em específico, preocupa-se com aspectos ligados a processos de produção e, 
secundariamente, ao desenvolvimento de novos produtos. A tecnologia de gestão, que deveria 
formar ao lado das tecnologias de produto e processo um tripé fundamental para a 
competitividade sustentada das cadeias agroindustriais nacionais, é muitas vezes mal 
compreendida e negligenciada quanto a sua importância . 
Em que pese o esforço de pesquisa mencionado, é preciso reconhecer que muito pouco tem sido 
feito em termos de desenvolvimento de técnicas de gestão que contemplem as particularidades da 
agricultura familiar e as formas pelas quais ela pode inserir-se de forma competitiva e sustentada 
no agronegócio nacional. Embora inseridas em lógicas produtivas locais, circunscritas a 
territórios determinados, a agricultura familiar vê-se exposta a paradigmas competitivos que são 
globais. Assim, independente dos mercados aos quais destinam a sua produção ou dos canais de 
comercialização que utilizam, pelo menos o segmento de agricultores familiares muito integrados 
e integrados devem poder contar com ferramentas de apoio à decisão adequados à sua cultura 
\u2018organizacional\u2019 e limitações em termos de educação formal e condições gerais do meio no qual 
estão inseridos. Essas ferramentas não são apenas úteis, mas cada vez mais indispensáveis para a 
competitividade sustentada dos seus empreendimentos. 
Este artigo tem como objetivo principal apresentar as características gerais do que convencionou-
se chamar gestão agroindustrial e criticá-las no que se refere ao seu uso pelos agricultores 
familiares. O artigo argumenta que a falta de pesquisas sobre o tema, aliada a baixa capacidade 
de absorção e utilização de ferramentas gerenciais modernas pelos agricultores familiares é um 
entrave importante à competitividade deste importante segmento da agropecuária nacional. Para 
tanto, o artigo divide-se em cinco partes principais. A primeira parte, além de introduzir o artigo, 
contextualiza a tecnologia de gestão frente a outros conteúdos tecnológicos (processos, produtos 
e serviços, materiais e tecnologia da informação). A segunda seção apresenta as características 
gerais da gestão agroindustrial, ao passo que a seção subseqüente particulariza estas 
características para a agricultura familiar. A quarta parte do artigo pretende traçar um rápido 
panorama da aplicação da tecnologia de gestão à agricultura familiar brasileira. Este panorama é 
dividido em duas esferas de análise. A primeira delas está relacionada a gestão da propriedade 
rural e a segunda a gestão de formas associativas de produtores agrícolas familiares. A parte final, 
seguida da bibliografia utilizada, apresenta algumas considerações finais sobre o assunto. 
 
2. GESTÃO AGROINDUSTRIAL: ALGUMAS CARACTERÍSTICAS GERAIS 
Ao longo dos últimos anos, tem se tornado claro para a comunidade acadêmica, empresarial, e 
para formuladores e gestores das políticas públicas, que a competitividade da agropecuária 
nacional \u2013 até mesmo da agricultura familiar \u2013 somente poderá ser construída, em bases 
sustentáveis, por meio da adoção de práticas que estimulem a cooperação entre os agentes 
econômicos de uma cadeia produtiva e, complementarmente, entre estes e os poderes 
governamentais. Não é suficiente lograr resultados expressivos isoladamente em um elo da 
cadeia; a elevação da produtividade por ser facilmente anulada pelo manuseio inadequado do 
produto por parte do empacotador, reduzindo seu preço e afetando a competitividade