Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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soluções, pelo que podem servir para promover e 
embasar a aprovação de novas normas, orientar a interpretação das existentes e 
resolver os casos não previstos6. 
Todavia, há princípios que têm sede na Constituição, conforme veremos 
adiante. Em relação a esses princípios constitucionais, não se aplica o artigo 8o da 
Consolidação das Leis do Trabalho, pois o conflito entre a norma maior e a regra legal 
inferior (exempli gratia, uma lei cujo preceito contrarie o postulado da isonomia, com 
matriz na Carta Magna) faz esta última ineficaz. Nessa hipótese de antinomia, é certo que o 
princípio constitucional não pode ser tratado como norma secundária. 
Está assentado que os princípios funcionam como fontes materiais e normas 
gerais do direito do trabalho. Mas há uma terceira função, a que eles se prestam, com 
inegável importância: referimo-nos ao auxílio que dão os princípios ao operador da norma 
trabalhista, quando instado ele a interpretá-la. Essa função interpretativa será percebida, em 
seguida, quanto tratarmos do princípio da proteção. 
Por ora, devemos sistematizar a matéria, a partir da carta constitucional, 
enlevando inicialmente a influência do princípio da dignidade humana na compreensão e 
aplicação de todo o direito do trabalho para, na sequência, e em boa parte inspirados na 
lição de Plá Rodriguez, passaremos a enumerar os princípios especiais do direito do 
trabalho, notadamente aqueles mais explorados pelos laboralistas que se dedicaram à 
principiologia. 
5.2 Preeminência do princípio constitucional da dignidade (da pessoa) humana 
A dignidade humana não é o único valor jurídico que, associando-se à realidade 
vivenciada pelos sujeitos da relação de trabalho, tem expressa referência no texto 
constitucional. Também se reporta a Constituição ao valor social do trabalho e, sempre que 
o faz, esforça-se por combiná-lo com a livre iniciativa e assim proclamar que a liberdade de 
empreendimento se legitima na exata medida em que se concilia com a função social que 
lhe é imanente. É o que se extrai, claramente, dos artigos 1º, III e 170 da Carta Magna. 
O princípio da dignidade da pessoa humana igualmente não exaure a sua 
atuação no âmbito do direito laboral, pois interfere em setores variados da vida e do 
Direito. Mas, voltando os olhos à realidade dos que vivem um liame empregatício, uma 
 
6 RODRIGUEZ, Américo Plá. Princípios de Direito do Trabalho. Tradução de Wagner Giglio. São Paulo: 
LTr, 1978. p 16. 
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tarefa deveras interessante seria a de identificar os direitos sociais que salvaguardariam, em 
qualquer sítio onde se realizasse o labor humano, as condições de trabalho mínimas, abaixo 
das quais não haveria trabalho digno. Estaríamos a contrastar a diversidade das pautas de 
direitos sociais com a necessária transcendentalidade de um atributo que é imanente ao 
gênero humano em qualquer atmosfera cultural, qual seja, a dignidade. 
Embora se alardeie que dignidade humana é um conceito impreciso, um 
conceito aberto, importa apurar o seu significado próximo, a sua latitude conceitual, com 
vistas a identificar, na expressão jurídica, um conteúdo propriamente normativo. A 
dignidade humana não pode ser um programa de ação, pois é antes uma norma que aspira 
efetividade. E é assim, sobremodo, quando se pretende distinguir a dignidade da pessoa 
humana, atentando-se, então, para a parte da expressão que faz referência ao homem 
concreto e individual, à sua realidade idiossincrática, inextensível desde logo a toda a 
humanidade7. 
Ainda no plano semântico, nota-se que a palavra dignidade possui tríplice 
sentido, pois qualifica, à primeira vista, um modo de proceder e também a pessoa que assim 
procede: o sujeito é digno porque se comporta dignamente. O seu terceiro sentido \u2013 que nos 
interessa de imediato \u2013 não deriva de uma conduta, nem mesmo de um padrão de conduta, 
senão de uma qualidade inerente ao ente, homem ou mulher, não importando seu modo de 
conduzir-se. A dignidade da pessoa humana é, já agora, um pressuposto de qualquer 
conduta, um limite externo e de caráter tutelar imposto à ação que atinge o homem, que ao 
homem se refere. 
Estende-se esse limite ao mundo potencial dos contratos, vale dizer, à esfera de 
liberdade \u2013 que tem, paradoxalmente, também a dignidade humana como fundamento. 
Talvez por isso, e com alguma fineza de espírito, Flauber nos teria provocado: \u201cQue é, pois, 
a igualdade, se não a negação de toda liberdade, de toda superioridade e até da Natureza 
mesma?\u201d8. 
Daí se depreende uma evidente correlação lógica: se a dignidade é uma 
qualificação comum a todos os seres humanos, a sua realização normativa terá sempre a 
igualdade como um pressuposto. As pessoas seriam igualmente dignas. É como se 
tivéssemos uma porção de humanidade que nos faria credores do mesmo tratamento, não 
obstante as nossas pontuais dessemelhanças. Nesse bocado de gente residiria nossa 
intangível dignidade, vale dizer, a dignidade da pessoa humana \u2013 que se reporta, ao dizer de 
Jorge Miranda, \u201ca todas e cada uma das pessoas e é a dignidade da pessoa individual e 
concreta\u201d9. 
A questão, uma vez mais, se renova: seria possível delimitar, exempli gratia por 
meio da enumeração dos direitos fundamentais, a parcela inviolável de direitos que nos 
conferiria identidade? Assim se referiu Boaventura Souza Santos: 
 
7 Cf. MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. Tomo IV \u2013 Direitos Fundamentais. Coimbra: 
Coimbra, 1998, p. 169. O autor distingue em nota: \u201cDa mesma maneira que não é o mesmo falar em direitos 
do homem e direitos humanos, não é exactamente o mesmo falar em dignidade da pessoa humana e 
dignidade humana. Aquela expressão dirige-se ao homem concreto e individual; esta à humanidade, 
entendida ou como qualidade comum a todos os homens ou como conjunto que os engloba e ultrapassa\u201d. 
8 Apud DOMÉNECH, Antoni. El Eclipse de la Fraternidad. Barcelona: Crítica, 2004, p. 27. 
9 Op. cit., p. 168. 
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Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o 
direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a 
necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença 
que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.10 
Com igual sentido, Bobbio adverte que \u201co próprio homem não é mais 
considerado como ente genérico, ou homem em abstrato, mas é visto na especificidade ou 
na concretude de suas diversas maneiras de ser em sociedade, como criança, velho, doente 
etc\u201d11. 
Como regra, as constituições de estados democráticos que se seguiram às de 
Querétaro e Weimar repousam na dignidade da pessoa humana a unidade de sentido e de 
valor que conferem ao sistema de direitos fundamentais nelas consagrado12. O art. 1o, III, 
da Constituição brasileira diz ser a dignidade da pessoa humana um dos fundamentos da 
República. O desafio de atribuir conteúdo a esse princípio, tão caro às democracias 
garantistas, não se exaure, porém, nas elucubrações de uma aventura teórica, antes se 
justificando pela força normativa que qualifica os princípios constitucionais13, exigindo-
lhes um significado jurídico. 
5.2.1 A importante contribuição do positivismo jurídico na conceituação da 
dignidade humana 
É acertado dizer que o positivismo jurídico enfatiza a distinção entre justiça e 
validade da norma. Como ressalta Ferrajoli, ele próprio um expoente dessa vertente teórica, 
essa divergência \u2013 ou mesmo indiferença \u2013 entre a norma justa e a norma válida \u201cnão 
significa, em absoluto, que o Direito não incorpore valores ou princípios morais e não 
tenha, ao menos nesse sentido, alguma relação conceitual necessária com a Moral: o que 
seria absurdo, dado que todo sistema jurídico expressa pelo menos a Moral de seus 
legisladores, qualquer que seja esta\u201d14. Ainda