Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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de ser objeto de transação. 
Renúncia e transação não se confundem mesmo. Aquela consiste em ato 
unilateral de disposição de direito incontroverso; esta, em ato bilateral que comporta o 
eventual sacrifício ou privação de direito controvertido. A controvérsia pode residir na 
existência do direito ou na ocorrência de seu fato gerador \u2013 dúvida haveria, por exemplo, 
sobre o direito a certo padrão salarial ou acerca de ter havido a prestação de trabalho que 
daria ensejo à remuneração. 
A distinção entre renúncia e transação pode ser mais bem percebida nos 
processos que tramitam perante a Justiça do Trabalho. Nestes, as partes são induzidas, 
sempre que possível, à conciliação, dada a natureza alimentar das prestações supostamente 
devidas pelo empregador ou, num pleonasmo, a premência de se prover alimentos. Ainda 
assim, o juiz deve recusar a homologação da proposta de acordo que importe renúncia, ante 
a certeza do direito e de seu fato gerador. Quando há incerteza sobre o direito ou quanto ao 
fato que o gera, opera-se a transação válida, apta a pôr fim ao litígio. 
Há mais, a propósito do princípio que ora analisamos: é bom ver que a 
mencionada indisponibilidade não tem o vício de consentimento como pressuposto 
necessário. Se pudéssemos imaginar que o direito do trabalho seria indisponível porque a 
vontade do empregado estaria presumidamente viciada, restaria sempre a opção da prova 
em contrário e, nesse caso, ressurgiria a eficácia dos contratos que malferissem os 
princípios que encerram a dignidade do trabalho humano. 
Assim, interessa perceber que o empregado não precisará provar que aceitara tal 
ou qual condição de trabalho porque cerceada a sua vontade, como ocorre em contratos 
paritários, no direito comum. No contrato trabalhista, a cláusula que previr aquém da 
garantia normativa é automaticamente substituída por esta garantia: a cláusula legal 
substitui a cláusula contratual. 
5.3.2.1. A indisponibilidade e a prescrição de pretensões trabalhistas 
A prescrição extintiva ou liberatória significa a inexigibilidade da pretensão 
quando o seu titular deixa escoar-se o prazo, estabelecido em lei, para deduzi-la em juízo. 
Difere da decadência porque o prazo previsto para esta inibe a constituição do direito, 
enquanto o implemento do prazo prescricional, sendo suscitado pelo devedor em processo 
judicial, inviabiliza o exercício do direito preexistente (mediante ação condenatória). 
Como são raros os direitos trabalhistas cujo nascimento depende de ação 
constitutiva40, maior relevância tem, em nosso estudo, a prescrição trabalhista, 
especialmente aquela fundada no artigo 7o, XXIX, da Constituição, que, entre os direitos 
sociais do trabalhador urbano ou rural, prevê: 
 
40 Exemplo, talvez singular, de prazo decadencial em direito do trabalho é aquele corre contra o direito de o 
empregador ajuizar inquérito para apuração de falta grave cometida por empregado estável, em alguns casos 
de estabilidade. Em rigor, quando se afirma que o prazo decadencial flui contra a constituição do direito, diz-
se em gênero, incluindo-se os casos de alteração ou desconstituição da relação jurídica. Este livro se encerra 
com capítulo destinado ao exame da estabilidade, sendo a matéria, ali, melhor analisada. 
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[...] ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo 
prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de 
dois anos após a extinção do contrato de trabalho. 
A essa altura, poderia questionar-se o estudioso da ciência jurídica: não seria a 
prescrição trabalhista, sob o enfoque prático, a renúncia tácita de um direito 
irrenunciável? Se o direito trabalhista é indisponível e a sua inobservância faz nula a 
cláusula ou alteração contratual infringente, como compatibilizar a prescrição trabalhista 
com o axioma universal de que contra ato nulo o direito não prescreve? Duas regras são, 
aqui, inolvidáveis: 
I. A primeira regra é atinente ao aspecto de esses direitos imprescritíveis não 
impedirem a prescrição das prestações pecuniárias correspondentes. Por 
exemplo, o direito a alimentos é imprescritível, mas a pretensão para haver 
prestação alimentícia prescrevia em cinco anos41 e passa a prescrever em 
dois anos42; 
II. A segunda regra tem a ver com o grau de indisponibilidade que, a depender 
da origem, o direito trabalhista ostenta. Em vista disso, os juslaboralistas 
usam diferenciar a prescrição parcial (que alcança apenas as prestações 
exigíveis antes do prazo extintivo) da prescrição total (que atinge todas as 
prestações, inclusive aquelas com exigibilidade recente, caso a lesão tenha 
ocorrido antes do prazo liberatório). 
Em capítulo seguinte, reservado apenas ao tema da prescrição trabalhista, 
veremos que a indisponibilidade absoluta, que gera a prescrição apenas de parcelas 
exigíveis mais de cinco anos antes do ajuizamento da ação perante a Justiça do Trabalho, 
corresponde à lesão a direito previsto em lei. A indisponibilidade relativa, que corresponde 
à prescrição total, é concernente ao direito assegurado em outras fontes normativas, que na 
a estritamente legal. 
5.3.3 Princípio da continuidade 
A empresa, no mundo moderno, tem a propensão à continuidade. O empresário 
a quer duradoura, próspera, sempre lucrativa. Constituir uma empresa significa reunir e 
organizar os fatores de produção (matéria-prima, capital e trabalho) com vistas à produção 
de bens ou serviços. Portanto, o trabalho, ou melhor, a contratação de mão-de-obra vem a 
ser um elemento da empresa, como bem assentado por Evaristo de Moraes Filho43, litteris: 
A tendência do direito moderno faz-se no sentido de incorporar o contrato de 
trabalho ao organismo da empresa, na sua manifestação mais duradoura que é o 
estabelecimento. Deve-se esta transformação de ponto de vista ao direito do 
trabalho, já que o direito comercial do século XIX, muito preocupado com o lado 
patrimonial do estabelecimento, demorava-se mais na sua composição material, 
ou mesmo imaterial, mas sempre como coisa. Talvez em nenhum escritor daquela 
centúria poderemos encontrar os serviços expressamente colocados como 
elemento essencial da organização comercial ou industrial. 
 
41 Artigo 178, §10, I, do Código Civil de 1916. 
42 Artigo 206, §2o, do novo Código Civil. 
43 MORAES FILHO, Evaristo de. Do Contrato de Trabalho como Elemento da Empresa. São Paulo: LTr, 
edição fac-similada, 1993, p. 268. 
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A primeira noção é de conjunto. A organização que contém o contrato de 
trabalho como um de seus órgãos transfere a este algumas de suas características, entre 
estas a pretensão à continuidade. E, ainda nessa medida, é imperioso perceber que o direito 
do trabalho, vocacionado à proteção do trabalhador, não poderia olvidar a permanência, a 
conveniência de ser estável a relação jurídica que une empregado e empregador, na 
formulação de suas normas. 
Uma pioneira manifestação desse princípio da continuidade veio a ser a 
estabilidade no emprego, assegurada ao empregado brasileiro que contasse dez anos de 
serviço, na mesma empresa, até 1966 \u2013 a partir de 1967, a aquisição de estabilidade decenal 
era possível para os empregados que não optavam pelo regime do FGTS, não sendo mais 
possível (a aquisição da estabilidade decenal) desde quando editada a Constituição em 
vigor. É curioso notar que, no Brasil e fora do âmbito dos funcionários públicos, o direito à 
estabilidade surgiu em 1923, inicialmente em favor dos ferroviários e como forma de 
assegurar o provimento de fundos previdenciários44. 
Alguns autores, nacionais e estrangeiros, intitulam o princípio (da continuidade) 
como o da estabilidade, tal a relevância que dão ao direito de ser estável. Várias outras 
proposições e normas trabalhistas estão, porém, inspiradas