Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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em que o 
enquadramento do trabalhador depende da natureza do serviço por ele prestado \u2013, 
desvenda-se a categoria a que pertence o empregado consultando-se a atividade econômica 
de seu empregador. Há, sempre, uma entidade sindical a representar os empresários que 
desenvolvem uma qualquer atividade, contrapondo-se a esse sindicato um outro, que 
representa empregados. Quando, do lado patronal ou dos empregados, a categoria não está 
organizada em torno de seu sindicato, representa-a a federação e, à falta desta, a 
confederação. A não ser nessa hipótese, à federação cabe a representação dos sindicatos (e 
não da categoria) e à confederação está adstrita a representar as federações. 
Até ser editada a Constituição de 1988, o sindicato devia ser, antes, uma 
associação profissional, que somente adquiria a investidura sindical \u2013 vale dizer, o direito 
de agir como sindicato, representando filiados, ou não, que integrassem a categoria \u2013 
quando lhe era outorgada a Carta de Reconhecimento, pelo Ministério do Trabalho. Mesmo 
depois de se transformar em sindicato, a entidade sindical que agia em desacordo com a 
política oficial de governo podia sofrer intervenção do Estado. A Constituição em vigor 
regula a matéria em seu artigo 8o, I, enaltecendo ser livre a associação profissional ou 
sindical, observado o seguinte: 
 
65 O imposto sindical foi, mais adiante e eufemisticamente, denominado contribuição sindical, que está 
atualmente referida nos artigos 513, e e 548, a, da CLT. 
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I \u2013 a lei não poderá exigir autorização do Estado par a fundação de sindicato, 
ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a 
interferência e a intervenção na organização sindical 
Nota-se que a Carta de Reconhecimento não pode mais ser outorgada, formando-se 
o sindicato mediante o \u201cregistro no órgão competente\u201d. Mas, a que órgão competente 
estaria o constituinte a referir-se? Seria o cartório de registro de pessoas jurídicas, que 
controla o registro de estatutos das sociedades civis? Ou seria o Ministério do Trabalho, 
que sempre possuiu o controle da unicidade, impedindo que novas entidades sindicais 
surjam para representar uma dada categoria, na mesma base territorial? 
Após polemizarem os tribunais e tratadistas, por alguns anos, a respeito desse 
questionamento, o Ministério do Trabalho editou sucessivas instruções normativas em que 
assumia a responsabilidade pelo cadastro nacional das entidades sindicais, embora a 
ressaltar, como o fez no intróito da Instrução Normativa n. 1, de 17 de julho de 1997, que o 
registro sindical, cujo controle ainda lhe cabe, é, como já decidiu o Supremo Tribunal 
Federal66, um \u201cato vinculado, subordinado apenas à verificação de pressupostos legais, e 
não de autorização ou de reconhecimento discricionários\u201d. 
Quando o requerimento de registro é publicado do Diário Oficial da União e alguma 
entidade sindical o impugna, reclamando a representação de empregados ou empregadores 
naquela base territorial, o Ministério do Trabalho nada decide (salvo quanto a regras de 
procedimento relativas ao encaminhamento da impugnação), aguardando que o Poder 
Judiciário, por provocação das partes interessadas, dirima o conflito. 
Sobre o princípio da liberdade sindical, insta reproduzir o teor da Convenção n. 87 
da OIT, sem embargo de esta não ter sido ratificada pelo Brasil: 
Artigo 1o 
Todo País-membro da Organização Internacional do Trabalho, para a qual esteja a 
vigor a presente Convenção, obriga-se a pôr em prática as seguintes disposições. 
Artigo 2o 
Os trabalhadores e os empregadores, sem qualquer distinção e sem autorização 
prévia, têm o direito de constituir as organizações que julguem convenientes, assim 
como de se filiar a essas organizações, com a única condição de observar seus 
estatutos. 
Artigo 3o 
1. As organizações de trabalhadores e empregadores têm o direito de redigir seus 
estatutos e regulamentos administrativos, o de eleger livremente seus 
representantes, o de organizar sua administração e suas atividades, e de formular 
seu programa de ação. 
2. As autoridades públicas deverão se abster de toda intervenção que vise a limitar 
esse direito ou a dificultar seu exercício legal. 
Artigo 4o 
As organizações de trabalhadores e de empregadores não estarão sujeitas à 
dissolução ou suspensão por via administrativa. 
Artigo 5o 
As organizações de trabalhadores e de empregadores têm direito de se constituir 
federações e confederações, assim como de filiar-se às mesmas, e toda 
 
66 A IN 1/97 faz remissão ao MI 144/SP e à ADIMC 1121/RS, Tribunal Pleno). 
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organização, federação ou confederação tem o direito de filiar-se a organizações 
internacionais de trabalhadores e de empregadores. 
Artigo 6o 
As disposições dos artigos 2o, 3o e 4o desta Convenção aplicam-se às federações e 
confederações de organizações de trabalhadores e de empregadores. 
É comum se sustentar, com apoio na Convenção n. 87 da OIT, acima transcrita, 
que o princípio da liberdade sindical se expressa através da liberdade individual, da 
liberdade coletiva e da autonomia sindical. A liberdade individual é a de filiar-se ou não a 
sindicato e a de escolher o sindicato a que se filiar. Quanto à liberdade coletiva, têm-na os 
grupos de empregados e empregadores quando lhes é assegurado o direito de constituir 
novas entidades sindicais, aptas à defesa de seus interesses particulares. A autonomia 
sindical manifesta-se no poder, em que está investida a categoria, de estruturar 
internamente o sindicato, à sua conveniência. 
Podemos inferir do artigo 8o, II, da Constituição que a liberdade coletiva não 
está plenamente garantida, no Brasil, pois \u201cé vedada a criação de mais de uma organização 
sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na 
mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, 
não podendo ser inferior à área de um Município\u201d. Logo, os grupos sociais não podem 
constituir, livremente, novo sindicato que os represente, na mesma base territorial em que já 
sejam representados, por sindicato anteriormente constituído. 
Esse rigor tem sido, porém, atenuado, pois o Superior Tribunal de Justiça, ao 
decidir em processos nos quais dois ou mais sindicatos reclamavam a representação de 
trabalhadores na mesma base territorial, veio a entender que \u201co princípio da unicidade 
sindical não significa exigir apenas um sindicato representativo de categoria profissional, 
com base territorial delimitada, mas de impedir que mais de um sindicato represente o 
mesmo grupo profissional\u201d67. Assim, o STJ está admitindo o desmembramento do 
sindicato, bastando que a ala dissidente da categoria original constitua nova entidade e cada 
empregado possa ser membro de uma só categoria, vale dizer, da categoria remanescente 
ou da categoria desmembrada. 
Além disso, o artigo 37, VI, da Constituição prescreve: \u201cÉ garantido ao servidor 
público civil o direito à livre associação\u201d. Como não há remissão ao artigo 8o da mesma 
Carta Magna, dessume-se que a unicidade sindical não é exigida com o mesmo rigor no 
tocante à sindicalização de servidores públicos. Tratando da matéria, o Supremo Tribunal 
Federal68 decidiu que \u201ca existência, na mesma base territorial, de entidades sindicais que 
representem estratos diversos da vasta categoria dos servidores públicos \u2013 funcionários 
públicos pertencentes à Administração direta, de um lado, cada qual com regime jurídico 
próprio \u2013 não ofende o princípio da unicidade sindical.\u201d 
A última expressão da liberdade sindical é a que diz respeito à autonomia do 
sindicato para se organizar internamente. Vários foram os dispositivos da CLT que 
perderam fundamento de validade quando editada a Constituição em vigor, que veda ao 
Poder