Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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Central Única dos Trabalhadores (CUT) e 19% à Força Sindical (FS). Metade dos sindicatos realizaram 
negociações coletivas. Pela primeira vez a Pesquisa levantou junto aos sindicatos de empregados urbanos, 
trabalhadores avulsos e trabalhadores rurais, se eles tinham conhecimento de greves em sua base sindical. Os 
resultados mostram que 19% dos sindicatos de empregados urbanos, 4% dos trabalhadores avulsos e 5% dos 
trabalhadores rurais tinham conhecimento de greve na base de representação. Já o número de sindicatos que 
realizaram negociações, em 2001, permaneceu estável quando avaliado em relação a 1991 (em torno de 50% 
nos dois anos). A proporção de sindicatos que realizou negociações é bastante diferenciada por região, com 
destaque para Sudeste e Sul, onde 63% e 62%, respectivamente, estão neste caso. 
 
 
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O argumento desdenhava a relevância, ou a preeminência enfim, que festejados 
teóricos72 do direito (sediados, não custa lembrar, em países como Inglaterra, Estados 
Unidos, Itália e Alemanha, que ocupam o centro da economia mundial) têm atribuído aos 
princípios constitucionais. Interessa-nos, em especial, o princípio da proteção, que está 
topograficamente referido no caput do art. 7º da Constituição e prevalece, também por isso, 
quando cotejado com o da autodeterminação coletiva, contemplado, secundariamente, em 
um dos incisos desse preceito constitucional, o inciso XVI. 
Há princípios que estão positivados, na Carta Constitucional, segundo o 
conceito, ou melhor, a expressão verbal do conceito que lhes dá o sentido. Por exemplo, os 
conceitos valor social do trabalho, dignidade da pessoa humana, devido processo legal, 
contraditório e ampla defesa estão expressamente referidos no texto constitucional e, com 
base nos dispositivos da Constituição que a eles fazem referência, compreende-se toda a 
dimensão de seu significado. 
Existem, porém, princípios cujo sentido pode ser sintetizado em conceitos 
jurídicos conhecidos através de nomenclaturas que não foram adotadas pelo constituinte, a 
exemplo de efetividade do processo, acesso à justiça, motivação dos atos administrativos, 
subsidiariedade da intervenção econômica do Estado. Apesar de a Constituição expressá-
los de outro modo, não nos parece haver dúvida, ou dúvida séria, quanto à elevação desses 
princípios ao nível constitucional. 
Há, enfim, princípios de direito que nos interessam especialmente, pois eles são 
inferidos do sistema constitucional, embora a eles não faça alusão explícita ou implícita 
qualquer de seus dispositivos. Por exemplo, a organização judiciária instituída pela 
Constituição permitiu que constitucionalistas e processualistas sustentassem, como alguns 
ainda sustentam, estar o princípio da revisibilidade das decisões ou do duplo grau de 
jurisdição erigido ao nível de princípio constitucional. 
Mais que isso: a adoção do modelo montesquiano de repartição do poder estatal 
fez com que se extraísse da organização político-administrativa, consagrada na atual Carta 
Política, a rigidez do princípio da separação de poderes. Nota-se que o artigo 60, §4o da 
Constituição inclui esse princípio constitucional entre as cláusulas pétreas, sem que 
qualquer outro artigo da Constituição a ele faça a mais breve menção, para explicar, enfim, 
qual o seu conteúdo. 
Relembramos, então, que todo o ordenamento trabalhista está fundado no 
pressuposto de a norma estatal assegurar o mínimo de proteção ao trabalhador, ou seja, uma 
base de direitos que garante a dignidade do trabalho humano. Não há uma norma legal que 
esgote a proteção ao empregado, pois ela sempre prescreverá a proteção mínima e tudo o 
mais poderá ser acrescido através da negociação coletiva, do regulamento de empresa, do 
contrato. 
É inverídica, a propósito, a afirmação de que a proteção celetista está 
esclerosada, porque remonta a 1943. Em vez disso, o que se tem é um conjunto de normas 
que se veio formando ao longo do processo de automação agrícola, industrialização, 
 
72 Podemos lembrar Crisafulli e Bobbio na Itália, Robert Alexy na Alemanha e Ronald Dworkin na Inglaterra 
e nos Estados Unidos. 
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informatização e mesmo terciarização, vivenciado pelo Brasil em décadas bem mais 
recentes. 
A regência das férias individuais e coletivas, como está na atual CLT, é de 
1977, desse mesmo ano sendo as prescrições sobre os adicionais de insalubridade e 
periculosidade; a norma excludente dos que exercem cargo de confiança (art. 62), no 
tocante à duração do trabalho, é de 1994; a proteção contra a supressão do intervalo 
intrajornada é também de 1994; a proteção do trabalho da mulher sofreu alterações em 
1989 e em 2001; os artigos da CLT que regulam a duração dos contratos sofreram 
alterações em 1967, em 1977, em 1989 e em 2001; o capítulo que trata da rescisão 
contratual também sofreu várias alterações, sobretudo em 1970 e em 1989; o título 
pertinente ao contrato individual do trabalho foi modificado em 1967, 1994 e 1997. 
Em todos esses dispositivos está sempre prevista uma proteção mínima, 
assecuratória de um direito trabalhista absolutamente indisponível, sujeito apenas à 
prescrição parcial, sem embargo de norma mais favorável ao trabalhador, porventura 
elaborada pelos próprios atores sociais, poder ser construída e a essa norma estatal preferir. 
Ao lado da regra de interpretação in dubio pro operario e da regra de sobrevigência da 
condição mais benéfica, essa técnica de impor, mediante lei, um patamar de dignidade do 
trabalho humano e permitir a edição de normas ainda mais protetivas revela as formas por 
que se manifesta o princípio da proteção. 
O poder constituinte originário, que tudo podia, estava autorizado a romper essa 
tradição do direito trabalhista, deixando às partes, através de seus sindicatos, o direito de 
reduzir direitos, por exemplo. Assim, porém, não operou, pois ressalvou, desde logo, quais 
as condições contratuais que, embora referidas em lei, poderiam ser objeto de negociação 
coletiva: a redução ou compensação de jornada (artigo 7o, XIII, da Constituição), a 
irredutibilidade do salário (artigo 7o, VI) e a jornada reduzida em turnos ininterruptos de 
revezamento (artigo 7o, XIV). Quanto ao mais, a diretriz é a mesma. 
O artigo 7o da Constituição enumera os direitos sociais de índole trabalhista que 
erigiu a direitos fundamentais e assim os introduz: \u201csão direitos dos trabalhadores urbanos e 
rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social\u201d. Aplicou o poder 
constituinte a mesma técnica, bem se nota, de editar a norma inerente à dignidade do 
trabalho humano e reservar um grau maior de proteção ao domínio de outras normas. Ao 
examinar o princípio da proteção, vimos que essa tendência para a expansão do conteúdo 
protecionista é o modo como repercute, entre nós, o princípio da proibição do retrocesso 
que informa a teoria dos direitos fundamentais. 
Portanto, todo o sistema jurídico trabalhista, a partir do texto constitucional, 
está fundado no princípio da norma mais favorável, que é a expressão mais eloqüente do 
princípio da proteção. E que importância há em se afirmar que o princípio da proteção está 
consagrado na Constituição? A resposta beira a obviedade: o caráter normativo de um 
princípio constitucional impede que norma infraconstitucional, que o desconsidere, revele-
se válida. 
É como dizer: a lei que altere essa lógica interna do sistema trabalhista, 
permitindo que uma norma coletiva possa derrogar direitos absolutamente indisponíveis, 
assegurados em norma estatal, carece de fundamento de validade; é, em resumo, 
inconstitucional. 
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Não se afigura razoável, enfim, a afirmação de que a outorga de maior poder 
aos sindicatos os fortaleceria. Contra essa ingênua proposição, parece-nos oponível a 
lucidez do ministro Arnaldo Süssekind, em artigo publicado no jornal Folha