Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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em troca de remuneração. Mas não tem vínculo 
empregatício. Sua atividade é exercida com a intermediação do seu sindicato, às 
vezes até mesmo com uma certa dose de direção do seu próprio órgão 
representativo, mas não é o sindicato que remunera o trabalho ou que se beneficia 
com os resultados, sendo-o as empresas para as quais o serviço portuário é 
realizado. O sindicato é só intermediário, e mais nada, do recrutamento do 
trabalho e da remuneração provinda de terceiros\u201d15. 
Todavia, o trabalho avulso nem sempre é associado, pela doutrina, à 
intermediação sindical. Rodrigues Pinto sustenta, por exemplo, que o trabalhador avulso e 
o eventual se distinguem \u201cporque a atividade exigida do avulso coincide com a atividade-
fim do tomador, o que não acontece no trabalho eventual\u201d16. Desde logo ousamos 
contrariá-lo, porquanto pode o trabalhador eventual ser chamado a solucionar problema 
que, embora incerto e imprevisto, guarda relação com a atividade-fim do tomador. 
Imagine-se, v.g., o bombeiro hidráulico de uma construtora que toca obra em 
terreno vizinho à sede de outra empresa de construção civil e é convidado por essa outra 
empresa a resolver uma emergência de pequena monta em seu escritório. Supor seja esse 
trabalhador um avulso importaria garantir-lhe a formalidade do contrato a termo ou a 
concessão de um aviso prévio, a remuneração especificada do seu repouso semanal e o 
recolhimento de FGTS, tudo a beirar o imponderável. 
A exata identificação do trabalhador avulso fora dificultada por nós próprios, 
operadores do direito laboral que, interpretando as normas trabalhistas e sob o impacto 
positivo da inovação trazida pelo citado art. 7o, XXXIV, da Constituição, optamos por 
restringir a eficácia desse dispositivo ao universo dos portuários cujo labor é intermediado 
pelo sindicato. Secundando Octávio Bueno Magano, o constitucionalista José Afonso da 
Silva17 diz, com mais singeleza, embora sem a preocupação de diferenciá-lo do trabalhador 
eventual, ser avulso \u201co trabalhador que, eventualmente, presta serviço a alguém. É 
trabalhador eventual aquele que não pertence ao quadro de trabalhadores de uma empresa 
nem ao conjunto dos empregados domésticos permanentes\u201d. 
Parece que, em igual medida, Martins Catharino nos convida a evoluir através 
de suas velhas lições, notadamente quando leciona que \u201cno sentido vulgar avulso significa 
separado, desligado, insulado. Trabalhador avulso: aquele separado, não inserido em uma 
 
15 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 316. 
16 Rodrigues Pinto, op. cit., p. 104. 
17 SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 
1990. p. 262. 
organização empresária ou assemelhada, mas, de qualquer maneira, trabalhando para e por 
ela remunerado\u201d. Após dizer da dificuldade de se distinguirem, na prática, o avulso do 
eventual ou do empregado, o autor antecipa a polêmica atual (sobre haver a necessidade de 
intermediação do sindicato para a configuração do avulso) e a previne terapeuticamente18: 
A figura do trabalhador avulso comporta classificação: avulso individual e avulso 
sindical. O primeiro presta serviços direta e isoladamente; o segundo, associado 
de sindicato para prestação de serviços, trabalha em conjunto: trata-se da 
chamada mão de obra sindical, requisitada por empresas a sindicato, a quem cabe 
escolher e dirigir associados seus para atendimento da requisição. A distinção é 
importante porque o avulso individual pode ser realmente eventual, ou até 
verdadeiro empregado, enquanto que o sindical, trabalhando em grupo, jamais 
pode ser empregado de empresa tomadora de serviços. Ao trabalhador avulso 
verdadeiro e próprio, não empregado, já foram estendidos vários direitos 
trabalhistas [...] 
Enfim, quem seria o trabalhador avulso? Para responder a essa indagação, uma 
primeira premissa: qualquer que seja a largueza do conceito que ora se examina, estamos de 
acordo quanto a ser avulso o trabalhador portuário cujo labor é intermediado por sindicato 
ou, nos portos em que já se cumprem as exigências da Lei 8.630, de 1993, pelo Órgão 
Gestor de Mão-de-Obra (OGMO). Mas não seria avulso apenas esse trabalhador. 
Também podemos pressupor que o constituinte não quis se referir ao 
trabalhador eventual ao assegurar, consoante sobrevisto, igualdade de direitos entre avulsos 
e empregados. Quisesse proteger os trabalhadores eventuais e o teria dito, sem rodeios. 
Por outro lado, não nos parece exato aceitar a orientação no sentido de ser 
avulso apenas o trabalhador que presta serviço eventual, mas voltado à atividade-fim do 
tomador de serviço, pois a prestação de trabalho do estivador, por exemplo, não depende de 
um fato incerto, a ele faltando, portanto, a sugerida eventualidade. O trabalho avulso é, em 
rigor, um trabalho intermitente não eventual e, regra geral, esse modelo de trabalho, quando 
voltado à atividade-fim, pode ser executado por empregado, mediante contrato a termo, 
como se verá em capítulo pertinente à tipologia dos contratos de trabalho. 
A nosso pensamento, a correta conceituação do trabalhador avulso precisa ter 
como base o seu tipo incontroverso \u2013 o portuário cuja relação laboral é mediada pelo 
sindicato \u2013 mas apenas para que dele se extraiam as suas mais visíveis peculiaridades, ou 
seja, as características que impedem a sua classificação em outra categoria de trabalhadores 
subordinados (empregado ou eventual). O que caracteriza o portuário são a alternância do 
tomador dos serviços (vale dizer, do armador a quem serve) e a intermediação, ou seja, o 
fato de o sindicato agenciar a sua prestação de trabalho e lhe repassar a remuneração, sem 
que se estabeleça qualquer ajuste direto, quanto às condições de trabalho e à remuneração, 
entre trabalhador e tomador dos serviço. 
Logo, o trabalho avulso não se configura através dos elementos objetivos 
preconizados por parte da doutrina, quais sejam, a pertinência entre o serviço prestado e a 
atividade-fim do tomador desse serviço, a intervenção sindical e a realização do trabalho no 
âmbito portuário. Da norma constitucional se deve evitar essa inteligência restritiva. 
Interessa verificar, ao revés, se há o agenciamento do serviço por terceiro e como se 
 
18 Cf. Catharino, op. cit., p. 186. 
estabelece o vínculo entre os três sujeitos dessa relação triangular: terceiro, trabalhador e 
tomador de serviço. 
Se a relação é dispersiva entre o trabalhador e o tomador de serviço, mas 
concentrada no lado que une aquele ao terceiro que agencia o seu serviço, o trabalho é 
avulso. Trabalhador avulso é o que presta trabalho não-eventual para aquele que não o 
contrata nem o remunera diretamente, havendo a alternância do tomador de seus serviços. É 
o portuário, como também o bóia-fria vinculado a um contratante intermediário (diz-se 
empreiteiro no meio rural), o carregador chapa contratado por agente interposto etc. E o 
que diferencia o trabalho avulso do temporário? Em boa parte dos casos, a observância da 
Lei 6019/74 no trabalho temporário, que é exigente de autorização do Ministério do 
Trabalho, forma e prazo certo. 
Quanto ao modo de caracterizar o trabalho avulso, sentimos ser convergente a 
orientação de Ribeiro de Vilhena e Márcio Túlio Viana19, quando dizem configurá-lo a 
alternância dos tomadores de serviço, e não a intermediação sindical. Remata o último 
destes autores: \u201cAo contrário do que sucede com o eventual, seu trabalho é essencial à 
empresa, embora de forma intermitente. Assim, aqueles bóias-frias não são eventuais, mas 
avulsos\u201d. 
Em verdade, essa cizânia entre a lei e seus intérpretes sobre a necessidade, para 
a caracterização do trabalho avulso, de intervenção sindical e de prestação de trabalho na 
área dos portos merece