Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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normativa que o associe à dignidade da pessoa 
que o realiza. 
Trabalho produtivo e lazer não se distinguem pela técnica acaso utilizada (o 
mesmo método de pescar pode servir a uma atividade profissional ou lúdica), mas se 
diferenciam pela característica, que só o primeiro revela, de o homem \u201cusar seu esforço 
tendo como finalidade próxima a obtenção através deste dos meios materiais, dos bens 
econômicos de que necessita para subsistir\u201d, como ensina Olea20. 
Trabalho por conta alheia, certamente, porque na empresa que surgira após a 
abolição das corporações de arte e ofício, a partir da inversão do capital burguês na 
aquisição de maquinário e contratação de pessoal, a novidade estava não apenas na divisão 
e técnica de trabalho mas, sobremodo, no fato de os operários serem contratados para 
movimentar a engrenagem empresarial em troca de uma remuneração que significava 
apenas parte do produto de seu trabalho. A outra parte era convertida em lucro. 
Nessa perspectiva, a alienação do trabalho era o resultado dessa produção 
coletivizada de mercadorias em que o trabalhador não se identificava no objeto que ajudara 
a criar. Em suma, ao trabalhador já não cabia o fruto de seu labor, que era atribuída, na 
nova forma de produção, ao titular da empresa (mais adiante, diria Marx: utilidade do 
trabalho - salário = plus valia). 
O trabalho livre diferia, por igual, daquele que até então prevalecia nas 
organizações produtivas. Lembremos que a Antigüidade conheceu, predominantemente, o 
trabalho escravo. Segadas Viana21 anota que \u201caos escravos eram dados os serviços manuais 
exaustivos não só por essa causa como, também, porque tal gênero de trabalho era 
considerado impróprio e até desonroso para os homens válidos e livres [...] Na Grécia havia 
fábricas de flautas, de facas, de ferramentas agrícolas e de móveis onde o operariado era 
todo composto de escravos. Em Roma os grandes senhores tinham escravos de várias 
classes, desde os pastores até gladiadores, músicos, filósofos e poetas\u201d. 
Aristóteles, que concebia o homem como um ser político, já preconizava, a seu 
modo, que a real igualdade consistia em tratar igualmente os iguais e desigualmente os 
 
20 OLEA, Manuel Alonso. Introdução ao Direito do Trabalho. Tradução de Regina Maria Macedo Nery 
Ferrari e outros. Curitiba: Gênesis, 1997., p. 48. 
21 SÜSSEKIND, Arnaldo, MARANHÃO, Délio, VIANA, Segadas. Instituições de Direito do Trabalho. São 
Paulo: LTr, 1992, p. 27. 
desiguais. Com essa proposição pretendia, porém, justificar a escravidão e a dizia mesmo 
necessária para que outros homens pudessem pensar. E supondo, num vaticínio não 
confirmado pela História, que a automação viria libertar o homem do trabalho, afirmou 
Aristóteles22 que \u201cse cada instrumento pudesse, a uma ordem dada, trabalhar por si, se as 
lançadeiras tecessem sozinhas, se o arco tocasse sozinho a cítara, os empreendedores não 
iriam precisar de operários e os patrões dispensariam os escravos\u201d. 
O homem se libertou do trabalho escravo que se revelava como uma forma 
legitimada de violência, mas a transição para o modelo atual de trabalho, na modalidade de 
emprego, não se deu linearmente, pois se seguiu a Era Medieval e, nela, uma sociedade 
dividida em rígidos estamentos: os senhores feudais e os servos. A servidão era imposta a 
quase todos os camponeses e se diferenciava do trabalho escravo porque o servo se ligava à 
terra e pelo seu uso pagava diversos tributos23, passando a ter novo amo quando a terra era 
vendida. 
A Baixa Idade Média24 assistiu a transformações sociais e econômicas que 
serviram à progressiva estruturação do sistema capitalista de produção. A sociedade 
estamental foi gradativamente se desintegrando e, nesse mesmo toar, a economia auto-
suficiente, típica do feudalismo, foi sendo substituída por uma economia comercial. O 
crescimento demográfico25 e o renascimento urbano, com a emancipação pacífica ou não 
das cidades onde mais florescia a atividade comercial, deram origem a uma nova sociedade, 
agora estruturada em classes e a habitar cidades ou burgos26. 
Nessas cidades, as corporações de mercadores, que buscavam garantir o 
monopólio do comércio local, e as corporações de ofício, visando cada uma destas à 
monopolização de uma certa arte ou ofício, eram influenciadas pela cultura cristã conhecida 
como escolástica e, sob a sua doutrina, condenavam a usura. Por isso, uma mercadoria 
deveria sempre ser vendida pelo preço da matéria-prima utilizada mais o valor da mão-de-
obra empregada27. Apenas os companheiros (ou oficiais) eram remunerados como se 
fossem protótipos de assalariados, pois o mestre-artesão retribuía o trabalho dos aprendizes, 
que ocupavam a base da pirâmide corporativa, através de alimentos, vestuário e alojamento, 
além do aprendizado. 
Com o passar do tempo, muitos dos mestres se enriqueciam e exerciam, com 
rigor, a exclusividade da atividade artesanal. Os companheiros se uniam com o intuito de 
 
22 Cf. DE MASI, Domenico. Desenvolvimento sem trabalho. Tradução de Eugênia Deheinzelin. São Paulo : 
Editora Esfera, 1999. p. 14. Igual remissão faz Segadas Viana, op. cit. p. 28. 
23 A exemplo da corvéia (trabalho gratuito nas terras do senhor em alguns dias da semana), da talha 
(percentagem da produção das tenências) e da banalidade (tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens 
do senhor). A servidão medieval sofreu influência, em sua formação, de instituições romanas e germânicas, a 
exemplo da clientela (relação de dependência social entre os indivíduos na sociedade romana, influenciando o 
modo como se constituiu a relação senhor-servo na ordem feudal), do colonato (instituído pelo Império 
Romano, impunha a fixação do homem à terra, objetivando conter o êxodo rural e a crise de abastecimento 
causada pelo fim da escravatura) e do precarium (entrega de terras a um grande senhor em troca de proteção). 
Cf. VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo : Scipione, 1997. p. 110. 
24 A Baixa Idade Média estendeu-se dos séculos X ao XV. 
25 Crescimento demográfico proporcionado pelo fim das invasões na Europa e pela redução dos níveis de 
mortandade que as grandes epidemias provocaram. 
26 Burgu, em latim, significa fortaleza, referindo-se, assim, às muralhas que circundavam as cidades. 
27 Vicentino, op. cit., p. 139. 
conquistar as parcelas de monopólio asseguradas à mestria, quando não se resignavam ante 
a ausência de perspectiva econômica mais favorável. Noutro passo, a burguesia, que se 
fortalecia economicamente, interessava-se na instituição de um poder central que reduzisse 
a influência política da nobreza, não tardando a se constituírem as monarquias nacionais, 
que grassaram por toda a Era Moderna. 
Os avanços tecnológicos, de que vamos tratar no subitem relativo à Revolução 
Industrial, e, mais adiante, as novas técnicas de divisão do trabalho prometiam alargar 
oportunidades e permitir que o homem se libertasse, uma vez por todas, dos grilhões da 
escravatura e da servidão, sem as amarras que o corporativismo impunha ao 
desenvolvimento de atividades econômicas por quem delas não tinha o direito à mestria. 
Contudo, o trabalho livre que surgira na empresa moderna não o era por 
completo, uma vez que se caracterizava exatamente pelo fato de o trabalhador ser livre (ou 
livre de coação absoluta) para escolher entre prestar ou não trabalho, embora não estivesse 
investido de igual liberdade no tocante ao tempo, lugar e modo de executar essa prestação 
laboral. Olea conclui: \u201cA liberdade a que estamos aludindo se refere ao momento do 
estabelecimento da relação de alheamento, sendo, portanto, seu sentido o de que aquela, no 
trabalho forçado, fica anulada frente à presença de uma violência invalidante do 
consentimento\u201d28. 
1.3 Os fatores sociais que inspiraram o direito do trabalho