Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011
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Augusto César L. de Carvalho - Direito do Trabalho - 2011


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vieram depois, quando as 
vantagens de se instituírem organismos permanentes foram percebidas pelos trabalhadores. 
Sanseverino situa entre 1815 e 1848 a fase das coalizões e anota que \u201co mundo do trabalho 
 
33 DROZ, Jaques. O Movimento Operário na Alemanha e o Neo-hegelianismo. Disponível em: 
http://www.pco.org.br/biblioteca/origens/movimentooperarioalemanha.htm. 
34 Idem, ibidem. 
encaminhou-se, definitivamente, rumo à consciente conquista da liberdade sindical\u201d 
quando publicado o Manifesto Comunista de 1848, por Marx e Engels35. 
O capitalismo comercial e, mais adiante (século XVIII), o capitalismo industrial, 
forjaram o trabalhador livre e investido de liberdade cívica. Ao trabalhador, dava-se a 
liberdade de contratar e a paradoxal perspectiva de ajustar assim a própria espoliação, como 
alternativa para sua sobrevivência. Observa Bourguin: 
[...] nos sistemas anteriores, ou havia associação do trabalho e da propriedade \u2013 
neste caso, o trabalhador gozava de liberdade cívica \u2013, ou o trabalhador não era 
proprietário, mas então não era também um cidadão livre. A alternativa era bem 
clara na era pré-capitalista. Mas o capitalismo empreendeu a grande aventura de 
associar, nas massas de homens sempre crescentes, a ausência completa de 
propriedade a uma completa liberdade pessoal e a uma completa igualdade 
política36. 
O sindicato foi, na sequência, a forma associativa que se constituiu no sistema 
capitalista de produção, visando à defesa dos interesses coletivos dos trabalhadores. Contra 
esses interesses, somavam-se o fim das corporações medievais com a ruptura da estrutura 
econômico-social, o maquinismo e a transformação do homem que, a custo menor e em 
maior quantidade, operava a mutação da matéria. A produção de bens ou serviços já não 
mais dependia da aptidão artística ou especialização do homem profissional, podendo 
mulheres e crianças prestar, com salário reduzido, o mesmo trabalho. 
Esse sentimento de angústia e desamparo por que passava o trabalhador é 
associada por Deveali às causas sociais do sindicalismo, em passagem emblemática de sua 
obra: \u201cEssa transformação de caráter psicológico tem, na nossa opinião, uma influência 
preponderante na formação da mentalidade classista que é o efeito e a causa, por sua vez, 
da união de massas indiferençadas, unidas exclusivamente por uma dor comum, por um 
sentir comum e pelo mesmo desejo de libertação, se não de vingança\u201d37. 
O sindicalismo não teria trajetória exitosa, porém, caso tivesse prescindido da 
greve, como meio de pressão para novas conquistas obreiras, e não houvesse instituído as 
convenções coletivas de trabalho, em detrimento do monopólio estatal na produção 
normativa. Esses três institutos (sindicato, direito de greve e convenção coletiva) 
percorreram a mesma estrada, sendo inicialmente proscritos, em seguida tolerados e, afinal, 
reconhecidos pela ordem jurídica. A história do sindicalismo, quando relacionada com a 
institucionalização das convenções coletivas e da greve, revela o modo como reagiu a 
classe operária à consagração, pela revolução burguesa, do princípio da autonomia da 
vontade individual. Em suma, os referidos institutos jurídicos expressam, hoje, o modo de 
atuação da vontade coletiva. 
1.4 Os fatores políticos que inspiraram o direito do trabalho 
O final do século XVIII assistiu ao nascimento da primeira geração dos direitos 
humanos, aquela que se traduz nas liberdades civis e políticas. A Declaração de Direitos da 
Virgínia (1776) proclamava: 
 
35 SANSEVERINO, Luisa Riva. Curso de Direito do Trabalho. Tradução de Élson Guimarães Gottschalk. 
São Paulo: LTr, 1976, p. 10. 
36 Apud Evaristo de Moraes Filho, op. cit., p. 79. 
37 Apud RUPRECHT, Alfredo J. Relações Coletivas de Trabalho. Tradução de Edílson Alkmin Cunha. São 
Paulo: LTr, 1995, p. 52. 
Todos os seres humanos são, pela sua natureza, igualmente livres e independentes, 
e possuem certos direitos inatos, dos quais, ao entrarem no estado de sociedade, 
não podem, por nenhum tipo de pacto, privar ou despojar sua posteridade; 
nomeadamente, a fruição da vida e da liberdade, como os meios de adquirir e 
possuir a propriedade de bens, bem como de procurar e obter a felicidade e a 
segurança. 
A seu turno, o art. 1º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na 
França de 1789, reiterava que \u201cos homens nascem e permanecem livres e iguais em 
direitos\u201d. É verdade que a preocupação dos norte-americanos era mais a de consolidar a sua 
própria independência em relação à coroa britânica, enquanto \u201cos franceses consideraram-
se investidos de uma missão universal de libertação dos povos\u201d38. Assinalando que as 
grandes etapas históricas de invenção dos direitos humanos coincidem com as mudanças 
nos princípios básicos da ciência e da técnica, Comparato observa com a acuidade de 
sempre: 
Foi justamente no sentido francês, e não na acepção inglesa, que a transformação 
radical na técnica de produção econômica, causada pela introdução da máquina a 
vapor [...] na Inglaterra, tomou o nome de Revolução Industrial.39 
Nessa quadra histórica em que se festejavam os direitos de liberdade, uníam-se a 
liberdade de exercer qualquer profissão, sem os limites da sociedade estamental ou dos 
grêmios corporativos, e o modo de reagir o operariado às ações da empresa. Criaram-se, 
assim, novos espaços de participação política dos trabalhadores que os fariam atuantes na 
normatização das condições de trabalho e na construção de uma sociedade que lhes 
parecesse menos injusta. 
A circunstância de a empresa ser uma coletividade, não se esgotando na 
dimensão individual as agruras vivenciadas pelos trabalhadores que nela mourejavam, 
porque todos o faziam em condições semelhantes, traduziu-se em um campo fértil à 
coletivização também das condutas reativas desses trabalhadores. Por assim dizer, os 
operários resistiam coletivamente às ações danosas do ser coletivo, que era a organização 
produtiva na qual laboravam. 
A um só tempo, os trabalhadores organizados inauguravam uma nova maneira 
de regular a vida social. Desde essa época até os dias atuais, passaram a atuar diretamente, 
sem a intervenção do Estado, na elaboração de normas jurídicas que viriam a disciplinar as 
suas condições laborais. 
Em um primeiro momento, as convenções coletivas surgiram como gentlemen\u2019s 
agreement, ou seja, como um pacto que não podia ser cobrado coercitivamente e 
comportava, no caso de descumprimento, apenas sanções morais. A possibilidade de os 
próprios atores sociais regularem as relações de trabalho que porventura os unisse 
importava, na linha do pensamento liberal, um ato de demasiada condescendência com a 
ação dos sindicatos, em detrimento dos ideais burgueses que proscreviam, a pretexto de 
conjurarem as velhas corporações de ofício, os corpos intermediários. 
 
38 COMPARATO, op. cit., p. 51. O autor remata que, efetivamente, o espírito da Revolução Francesa 
difundiu-se, em pouco tempo, a partir da Europa, a regiões tão distantes quanto o subcontinente indiano, a 
Ásia Menor e a América Latina. 
39 Op. cit., p. 52. 
Mas as convenções coletivas brotavam incessantemente e solucionavam 
conflitos, ganhando legitimidade em razão de sua natural eficácia. Além disso, a ação 
política dos trabalhadores não se esgotava na elaboração da norma coletiva, imiscuindo-se 
gradualmente nos recintos do Estado Liberal que pareciam guardados para a ação política 
do empresariado, investido de poder econômico. 
A esse propósito, o advento da social democracia alemã revela o modo como as 
coletividades de trabalhadores se organizaram politicamente, ilustrando como aprenderam a 
valer-se dos instrumentos de ação democrática para ocupar espaços políticos antes 
reservados à burguesia ou,