Resenha do livro “O Poder Simbólico”, de Pierre Bourdieu (com ênfase no capítulo 8)
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Resenha do livro “O Poder Simbólico”, de Pierre Bourdieu (com ênfase no capítulo 8)


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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
FACULDADE NACIONAL DE DIREITO (FND \u2013 UFRJ)
CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO
ANDRÉ ARBEX LOURENÇO
CULTURA JURÍDICA E ATUAÇÃO DOS OPERADORES DO DIREITO:
Resenha do livro \u201cO Poder Simbólico\u201d \u2013 Capítulo VIII
Rio de Janeiro
2018
ANDRÉ ARBEX LOURENÇO 
CULTURA JURÍDICA E ATUAÇÃO DOS OPERADORES DO DIREITO:
Resenha do livro \u201cO Poder Simbólico\u201d \u2013 Capítulo VIII
Trabalho apresentado ao Professor Doutor Alexandre Miguel França, desenvolvido como critério para a obtenção de pontuação integral na disciplina de Sociologia e Antropologia Jurídica.
Rio de Janeiro
2018
CULTURA JURÍDICA E ATUAÇÃO DOS OPERADORES DO DIREITO
Resenha do livro \u201cO Poder Simbólico\u201d, de Pierre Bourdieu (com ênfase no capítulo VIII \u2013 A força do direito. Elementos para uma sociologia do Direito)
A obra de Pierre Bourdieu é completa, complexa e abrangente. Tratando e analisando de forma coerente e consciente os mais diversos objetos, o autor se dedica de forma contundente ao estudo do Poder Simbólico, considerando-o um poder invisível que é exercido (e só assim pode ser) com a cumplicidade daqueles que estão sujeitos a ele. Basicamente, ele expõe que os sistemas simbólicos exercem um \u201cpoder estruturante\u201d - visto que também são estruturados -, sendo tal exercício relacionado a sua função básica: a de integração social com vistas a formação de um consenso, o qual solidifica uma forma de dominação e de hegemonia de uns sobre outros. 
A ideia de Poder Simbólico, contudo, decorre de longínquos debates e raciocínios elencados ao longo da história. A teoria neo-kantiana tratava os universos simbólicos (arte, religião, língua, ciência, etc.) como formas de conhecimento e construção do mundo, servindo de instrumentos para tal. Émile Durkheim (pai da Sociologia Moderna que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica), contudo, considerava tais formas simbólicas totalmente arbitrárias e socialmente construídas. Bourdieu, fazendo considerações a Erwin Panofsky (grande crítico da arte alemã e um dos principais representantes do método iconológico. Sua grande obra foi um estudo sobre a Arquitetura Gótica e Escolástica: uma analogia sobre a arte, a filosofia e a teologia na Idade Média) e \u2013 principalmente - ao pensamento do sociólogo francês, o coloca como representante da tradição Kantiana pelo fato de procurar respostas concretas, \u201cpositivas\u201d e \u201cempíricas\u201d acerca dos fatos, problemas e questões que envolviam o conhecimento, não se atendo somente ao empirismo como forma una de entendimento social. Elenca-se ainda que Durkheim, ao lançar fundamentos de uma sociologia das formas simbólicas, que neste caso equivaleriam a formas de classificação, explicita o caráter transcendental que faz essas formas de classificação se tornarem formas sociais, se aproximando dessa maneira da teoria de Panofsky, onde elas são socialmente determinadas e, portanto, relativas a um determinado grupo particular. Justamente, por isso, se mostram como formas sociais arbitrárias. 
A partir desses ideais e de seu entendimento acerca da invisibilidade do poder simbólico e de sua necessidade de consentimento e recepção dos que a ele se submetem para sua funcionalidade, Bourdieu expõe que os sistemas simbólicos diferenciam-se em dois âmbitos: o de sua produção (quem os produz, como e o porquê de fazê-lo) e o de sua recepção (a quem se destina e o porquê de se submeterem a ele). Contudo, ambos se coadunam, sendo o aperfeiçoamento de um dependente integralmente do avanço do outro. Tal máxima se traduz na ideia de que o poder simbólico \u2013 atendendo a seu objetivo de constituir algo pela enunciação e através desse poder instituir credibilidade \u2013 só se aperfeiçoa e se exerce de fato se for reconhecido. Desse modo, entende-se que o poder simbólico nada mais é, portanto, que uma forma transformada e legitimada de outras formas de poder. É, com isso, um poder de construção da realidade que buscar estabelecer que o sentido do mundo supõe um \u201cconformismo lógico\u201d, tornando possível a concordância entre inteligências através dos símbolos e gerando integração social. Nesse sentido, é justamente através dos símbolos - enquanto instrumentos de conhecimento e comunicação que são \u2013 que se torna possível o consenso acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social.
Partindo do pressuposto enfatizado de que os sistemas simbólicos possuem uma função de integração social para gerar um consenso pautado em hegemonia e dominação, o autor coloca que as relações de comunicação são, intrinsecamente \u2013 e de forma persistente e contínua \u2013 relações de poder que dependem integralmente do poder material e simbólico acumulados pelos agentes que as recebem. Basicamente, o que acontece não são meros atos de comunicação em si. Há, em verdade, uma relação de luta \u2013 dentre suas mais variadas formas, porém, principalmente, a simbólica \u2013 em que as classes envolvidas buscam impor através desse poder sua forma de viver. Buscam, enfim, colocar sua definição de mundo social de acordo com seus interesses.
Desse modo - baseado na tradição marxista - Bourdieu conclui, ao início de sua exposição, que as produções simbólicas são, de fato, instrumentos de dominação que se exercem pautados por um campo que consiste em ser um microcosmos da luta simbólica entre as classes. Assim, a classe dominante, que tem seu poder pautado no capital econômico, tem em vista impor a legitimidade da sua dominação por meio da própria produção simbólica. Basicamente, ele explica as produções simbólicas relacionando-as com os interesses das classes dominantes. 
Em uma especificação acerca dos sistemas simbólicos, Bourdieu expõe que eles, ao cumprir sua função política \u2013 servindo como instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação -, acabam criando uma espécie de \u201cviolência simbólica\u201d, reforçando a dominação de uma classe sobre a outra. O renomado Max Weber - intelectual, jurista e economista alemão considerado um dos fundadores da Sociologia \u2013 utilizou para sintetizar tal sistemática a expressão \u201cdomesticação dos dominados\u201d. Basicamente, tem-se que a luta pelo topo da hierarquia das classes dominantes legitima sua dominação não só por meio de produções simbólicas, mas também por meio de ideólogos conservadores que servem às classes dominantes. 
Ao longo do livro, Bourdieu expõe relevantes observações acerca do poder simbólico. Entretanto, é no capítulo 8 que ele se atém para a força do direito. Sistematicamente, o que ele busca elencar são os elementos que compõem a sociologia do direito: como ela se aplica, seus objetivos e seus nuances. 
O autor considera o direito como um sistema fechado e autônomo, expondo que sua dinâmica só pode ser entendida, de fato, se também for compreendida a história do desenvolvimento interno dos conceitos e métodos jurídicos, visto que tais métodos são, em verdade, a concepção de direito como ciência jurídica que é concebida por seus integrantes. Sinteticamente, ele elenca que se faz necessário formular uma ciência do direito que seja diferente dessa já pré-concebida, a qual, em geral, envolve excessivos formalismos e propõe uma instrumentalidade do direito. Genericamente, tal instrumentalização se traduz como um \u201cutensílio ao serviço dos dominantes\u201d. 
Relativamente à divisão do trabalho jurídico, Bourdieu demonstra preocupação em distinguir, por exemplo, a atividade interpretativa do jurista de outras atividades \u2013 como a hermenêutica literária e filosófica, por exemplo. Em sua argumentação, ele sugere que o Direito possibilita decisões mais coesas do que em outras áreas, visto que \u201cos juristas permanecem inseridos num corpo fortemente integrado de instâncias hierarquizadas que estão à altura de resolver um conflito entre os intérpretes e as interpretações\u201d. (BOURDIEU, 1989, p. 213-214) Nesse sentido, entende-se que o convencimento almejado é o de que é fácil um corpo de juristas