APLICACAO_DA_LEI_PENAL_NO_ESPACO
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Aplicação da lei penal no espaço 
 
 
1 Lugar do crime (art. 6°) 
 
 
1.1 Teorias 
 
A determinação do lugar em que o crime foi praticado é essencial para se saber qual juiz 
tem competência, isto é, atribuição, para processar e julgar determinado crime. A 
primeira questão a ser respondida é a seguinte: tendo o crime ocorrido em diversos 
lugares (como no caso de pessoa que leva o tiro em uma cidade, vindo a ser socorrida 
em outra, onde falece) em qual deles terá o juiz competência para o caso? Veremos que 
três teorias nos dão critérios para que se identifique o lugar do crime: 
a) teoria da atividade: de acordo com ela, o crime ocorre no local da ação ou 
omissão, independente do local do resultado. Assim, se a pessoa é atingida por 
um tiro no Paraguai e vem se tratar no Brasil, onde falece, considera-se o crime 
cometido naquele país; 
b) teoria do resultado: ao contrário da teoria anterior, esta considera que o crime 
se realiza no local onde ocorreu o resultado. Nesse sentido, se, numa clínica de 
aborto da Ceilândia a gestante recebe um soro abortivo que fará efeito, 
expulsando o feto, dali a algumas horas, quando já estava em Taguatinga, o 
crime considera-se ocorrido neste local; 
c) teoria da ubiquidade ou mista: como o próprio nome diz, esta teoria faz a 
junção das anteriores, considerando como local do crime tanto onde ocorreu o 
resultado quanto onde se processou a ação ou omissão. Assim, nos exemplos 
anteriores o réu poderia ser processado em qualquer um dos lugares 
(Paraguai/Brasil ou Ceilândia/Taguatinga). 
 
1.2 Determinação da competência internacional 
 
Para podermos determinar qual das teorias citadas deve ser usada devemos responder 
ainda a outra pergunta: o crime aconteceu no Brasil e no exterior (crime a distância) ou 
ocorreu apenas no Brasil, mas em diferentes localidades (crimes plurilocais)? 
Examinaremos neste tópico a primeira hipótese (crimes a distância) que é tratada no 
art. 6° do Código Penal (CP): \u201cConsidera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu 
a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria 
produzir-se o resultado\u201d. 
 
Percebe-se, portanto, que para se determinar a competência internacional, devemos usar 
a teoria da ubiquidade, isto é, local do crime tanto pode ser aquele em que acontece o 
resultado quanto onde ocorre a ação ou omissão. Assim, se uma pessoa foi forçada a 
ingerir um veneno nos Estados Unidos e vem a morrer, depois de algum tempo, no 
Brasil, o autor do homicídio pode ser processado em qualquer dos dois países. 
 
E por que a lei assim determinou? Para que não ocorressem problemas como o seguinte: 
alguém, na Argentina, envia uma carta caluniosa à vítima, que reside no Brasil. Poderia 
acontecer que a Argentina se utilizasse a teoria do resultado (que ocorreu, no caso, em 
território brasileiro) e o Brasil se utilizasse a teoria da atividade (que aconteceu, como 
visto, em território argentino). Se essa hipótese ocorresse, o criminoso sairia impune, o 
que seria um absurdo. A utilização da teoria da ubiquidade impossibilita que tais casos 
ocorram. 
 
A competência para julgamento dos crimes a distância pertence à Justiça Federal (CF, 
art. 109, V) desde que eles estejam previstos em tratado ou convenção internacional, 
como é o caso do crime de tráfico de drogas. Ausente essa previsão, a competência 
pertence à Justiça Estadual.1 
 
 
1.3 Definição da competência nacional 
 
E se o crime aconteceu apenas no Brasil, mas em locais diferentes (crimes plurilocais)? 
Como se determina a competência? A resposta a essa indagação é dada, desta vez, pelo 
CPP: 
 
Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que 
se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for 
praticado o último ato de execução.2 
 
§ 1° Se, iniciada a execução no território nacional, a infração se 
consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que 
tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de execução. 
 
§ 2° Quando o último ato de execução for praticado fora do território 
nacional, será competente o juiz do lugar em que o crime, embora 
parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado. 
 
Desta vez, percebe-se que ao contrário do CP, o CPP, se utiliza, para determinar a 
competência, da teoria do resultado, considerando, assim, que o crime ocorre onde o 
resultado se verifica. 
 
1
 PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. APLICAÇÃO DA LEI BRASILEIRA. 
COMPETÊNCIA JURISDICIONAL. CRIME INICIADO EM TERRITÓRIO NACIONAL. 
SEQÜESTRO OCORRIDO EM TERRA. IMPOSSIBILIDADE DE REEXAME PROBATÓRIO. 
CONDUÇÃO DA VÍTIMA PARA TERRITÓRIO ESTRANGEIRO EM AERONAVE. PRINCÍPIO DA 
TERRITORIALIDADE. LUGAR DO CRIME - TEORIA DA UBIQÜIDADE. IRRELEVÂNCIA 
QUANTO AO EVENTUAL PROCESSAMENTO CRIMINAL PELA JUSTIÇA PARAGUAIA. 
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. ORDEM DENEGADA. 
1. Aplica-se a lei brasileira ao caso, tendo em vista o princípio da territorialidade e a teoria da ubiquidade 
consagrados na lei penal. 
(...) 
3. Afasta-se a competência da Justiça Federal, pela não-ocorrência de quaisquer das hipóteses previstas 
no art. 109 da Constituição Federal, mormente pela não-configuração de crime cometido a bordo de 
aeronave. 
(...) 
5. Ordem denegada. 
(STJ, HC 41892 / SP, julgado em 02/06/2005) 
2
 O Juízo Federal competente para processar e julgar acusado de crime de uso de passaporte falso é o do 
lugar onde o delito se consumou (STJ, Súmula 200). Compete ao foro do local da recusa processar e 
julgar o crime de estelionato mediante cheque sem provisão de fundos (STJ, Súmula 244). 
 
E por que essa diferenciação? Porque é no local em que o crime efetivamente se 
consumou é que a justiça e a polícia terão melhores condições de investigar, processar e 
julgar o crime, mesmo porque, geralmente, é lá onde as provas mais importantes se 
encontram (como o corpo de delito). 
 
 
2. Princípio da territorialidade (art. 5°) 
 
O Código Penal enuncia o princípio básico de aplicação da lei penal no espaço, ao 
determinar que \u201caplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras 
de direito internacional, ao crime cometido no território nacional\u201d. Assim, os crimes 
cometidos dentro do espaço onde a República Federativa do Brasil exerce sua soberania 
devem ser julgados pelo Poder Judiciário do País, não importando a nacionalidade do 
autor ou da vítima do crime. 
 
A exceção a que se refere o termo \u201ctratados e regras de direito internacional\u201d são os 
agentes diplomáticos, que somente podem ser julgados pelo governo que representam. 
Porém, as embaixadas e as representações estrangeiras são territórios do país onde estão 
instaladas. 
 
O território nacional, em sentido estraito, inclui o solo, o subsolo, as águas interiores, o 
mar territorial3 e o espaço aéreo. Em sentido amplo, também território nacional inclui 
aeronaves e embarcações brasileiras (§ 1°): 
a) \u201cde natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se 
encontrem\u201d; 
b) \u201cde propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo 
correspondente ou em alto-mar4\u201d. 
A mesma regra é aplicável a embarcações ou aeronaves estrangeiras: 
a) de natureza pública, são consideradas território do País de origem, onde quer que 
estejam; 
b) de natureza privada, são consideradas território do País de origem apenas se 
estiverem em alto-mar ou no espaço aéreo correspondente. 
O Código de Bustamante excepciona essas regras ao determinar que estão isentos das 
leis penais de cada Estado \u201cos delitos cometidos em águas territoriais ou espaço aéreo 
nacional, em navios ou aeronaves mercantes estrangeiros, se não têm relação alguma 
com o país e seus habitantes, nem perturbam a sua tranquilidade\u201d (art. 301). Assim, é 
possível aplicar a lei