kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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começara como uma federação deu origem a um Império Atenien-
se. 
 Internamente, Atenas era uma democracia, o primeiro exemplo 
fidedigno dessa forma de organização política. «Democracia» é, em 
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grego, a palavra que significa o governo do povo; e a democracia ate-
niense era um exemplo muito fiel de um tal regime. Atenas não era 
como uma democracia moderna, na qual os cidadãos elegem repre-
sentantes que formam um governo. Em vez disso, cada cidadão tinha 
o direito de participar em pessoa no governo, comparecendo numa 
assembleia geral onde podia ouvir os discursos dos líderes políticos e 
depois dar o seu voto. Para se ver o que isto significaria em termos 
actuais, imagine-se que os membros do governo e da oposição fala-
vam na televisão durante duas horas, após o que era apresentada uma 
moção e tomada uma decisão com base nos votos fornecidos por cada 
espectador ao premir ou o botão do «sim», ou o botão do «não» no 
televisor. Para tornar o paralelo rigoroso, teria de acrescentar-se que 
apenas aos cidadãos do sexo masculino com mais de 20 anos seria 
permitido premir o botão \u2014 mas não às mulheres, nem às crianças, 
escravos ou estrangeiros. 
 Os poderes judicial e legislativo eram, em Atenas, atribuídos por sorteio 
a membros da assembleia com mais de 30 anos; as leis eram aprovadas 
por um painel de mil cidadãos, escolhidos apenas por um dia; e os julga-
mentos mais importantes realizavam-se perante um júri de 501 cidadãos. 
Até os magistrados \u2014 aqueles a quem cabia executar as decisões do gover-
no, quer fossem judiciais, financeiras ou militares \u2014 eram maioritariamen-
te escolhidos por sorteio; apenas cerca de 100 eram eleitos. 
 Nunca antes ou desde então os cidadãos comuns de um Estado 
partic iparam tão activamente no seu governo. É importante ter isto 
presente quando lemos o que os filósofos gregos diziam acerca dos 
méritos e deméritos das instituições democráticas. Os atenienses afir-
mavam que a sua constituição era contemporânea das reformas de 
Clístenes de 508 a. C., e esse ano é muitas vezes considerado o do 
nascimento da democracia. 
 A democracia ateniense não era incompatível com a liderança aris-
tocrática. No seu período imperial Atenas foi, por escolha popular, 
governada por Péricles, sobrinho -neto de Clístenes. Péricles instituiu 
um ambicioso programa de reconstrução dos templos da cidade que 
tinham sido destruídos por Xerxes; ainda nos dias de hoje vêm visitan-
tes dos quatro cantos do mundo para ver as ruínas dos edifícios que 
Péricles erigiu na Acrópole, a fortaleza de Atenas. As esculturas com as 
quais estes templos foram decorados encontram-se entre os objectos 
mais preciosos dos museus pelos quais estão hoje espalhadas. O Par-
ténon, o templo em honra da deusa virgem Atena, foi construído como 
oferenda pelas vitórias nas guerras pérsicas. Os mármores Elgin que 
estão no Museu Britânico, trazidos das ruínas desse templo por Lorde 
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Elgin em 1803, representam um grandioso festival ateniense, o das 
Panateneias, que Parménides e Zenão tinham presenciado na época 
em que se iniciavam as obras de construção. Quando o programa de 
Péricles se completou, Atenas não tinha rival no mundo inteiro no que 
dizia respeito à arquitectura e à escultura. 
 Atenas também tinha a primazia no teatro e na literatura. Ésquilo, 
que tinha combatido nas guerras pérsicas, foi o grande autor na área 
da tragédia; trouxe para o palco os heróis e heroínas da épica homéri-
ca, e a sua reconstituição do regresso e assassinato de Agaménon ainda 
nos fascina e horroriza. Ésquilo levou também à cena as catástrofes 
mais recentes de que o rei Xerxes tinha sido vítima. Dramaturgos mais 
novos, como o conservador e piedoso Sófocles e o mais radical e cépti-
co Eurípedes, estabeleceram os padrões do teatro trágico. As peças de 
Sófocles acerca do rei Édipo, assassino de seu pai e esposo de sua mãe, 
e o retrato que Eurípedes faz de Medeia, assassina de crianç as, não só 
fazem parte do reportório do século XX, como ainda perturbam a men-
talidade contemporânea. A historiografia propriamente dita começou 
também neste século, tendo as Crónicas das Guerras Pérsicas, de 
Heródoto, sido redigidas nos primeiros anos do século, e a narração 
que Tucídides faz da guerra entre os gregos, nos últimos. 
ANAXÁGORAS 
 Também a filosofia chegou a Atenas na época de Péricles. Anaxá-
goras de Clazómenas (perto de Esmirna) nasceu em cerca de 500 a. C. 
sendo, portanto, cerca de 40 anos mais velho que Demócrito. Foi para 
Atenas quando as guerras pérsicas acabaram, tendo-se tornado amigo 
e colaborador de Péricles. Escreveu um tratado de filosofia natural ao 
estilo dos seus antecessores jónios, reconhecendo ter uma dívida 
especial para com Anaxímenes; diz-se que foi o primeiro tratado do 
género a conter diagramas. 
 A explicação que Anaxágoras faz da origem do mundo é extraordi-
nariamente semelhante a um modelo explicativo popular hoje em dia. 
No início, dizia ele, «todas as coisas estavam juntas», numa unidade 
infinitamente complexa e infinitamente pequena, destituída de todas 
as qualidades perceptíveis. Este seixo primevo iniciou um movimento 
rotativo, expandindo-se à medida que rodava e expelindo ar e éter, e 
por fim as estrelas, o Sol e a Lua. Aquando da rotação, o denso sepa-
rou-se do rarefeito, bem como o quente do frio, o claro do escuro e o 
seco do húmido. As substâncias heterogéneas do nosso mundo foram 
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assim formadas, tendo o denso, o húmido, o frio e o escuro confluído 
naquilo que é agora a nossa Terra, e tendo-se deslocado o rarefeito, o 
quente, o seco e o claro para as zonas exteriores do éter. 
 De certo modo, porém, defendia Anaxágoras, «tal como as coisas 
eram no início, assim elas estão agora todas juntas», ou seja, em cada 
coisa há uma porção de tudo o resto; há um pouco de brancura no 
negro e um pouco de leveza no pesado. Isto é sobretudo óbvio no caso 
do sémen, o qual tem de conter cabelo, unhas, músculos, ossos e mui-
tas outras coisas. A expansão do universo, de acordo com Anaxágoras, 
continuou até ao presente, continuará no futuro e talvez esteja neste 
mesmo momento gerando mundos desabitados diferentes do nosso. 
 O movimento que gera o desenvolvimento do universo é desenc a-
deado pelo Espírito. O Espírito é algo completamente diferente da 
matéria a cuja história preside. É infinito e independente e não parti-
cipa no processo geral de mistura dos elementos; se participasse, 
entraria no processo evolutivo e não poderia controlá-lo. 
 Entre 430 e 420, quando a popularidade de Péricles começou a 
diminuir, o seu protegido Anaxágoras foi alvo de ataques. Anaxágoras 
dissera que o Sol era uma bola incandescente, um pouco maior que o 
Peloponeso. Isto foi considerado inconsistente com o culto do Sol 
como um deus e motivou uma acusação de impiedade. Anaxágoras 
fugiu para Lâmpsaco, no Helesponto, e aí viveu exilado até à sua mor-
te, em 428. 
OS SOFISTAS 
 Anaxágoras não teve rival, no período do regime de Péricles, como 
filósofo oficial de Atenas. Mas nesse período a cidade recebeu a visita 
de vários fornecedores itinerantes de conhecimentos, os quais deix a-
ram uma reputação não inferior à dele. Estes professores ou conselhei-
ros itinerantes eram chamados sofistas: estavam dispostos, a troco de 
dinheiro, a ensinar muitos tipos de proficiência e a servir de conselhei-
ros em vários assuntos. 
 Como não havia, em Atenas, um sistema público de ensino supe-
rior, cabia aos sofistas a instrução dos jovens que podiam pagar os 
seus serviços nas artes e no tipo de informação de que precisariam na 
vida adulta. Dada a importância da oratória pública na assembleia e 
nos tribunais, a habilidade retórica era preciosa, e os sofistas eram 
muito procurados para ajudar e ensinar a apresentar uma causa da 
maneira mais favorável possível. Os críticos alegavam que, porque 
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estavam