kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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cardo por meio do qual corroía reputações contribuíram para que 
fossem formuladas contra ele, ao 70 anos, uma série de acusações 
susceptíveis de conduzirem à pena máxima \u2014 acusações de impiedade, 
de introduzir deuses novos e de corromper a juventude ateniense. 
Platão, que esteve presente no julgamento, escreveu, depois da sua 
morte, uma versão dramatizada do seu discurso de defesa, ou Apolo-
gia. 
 O seu acusador, Meleto, afirma que Sócrates corrompe a juventude. 
Quem são, então, as pessoas que formam a juventude? Em resposta, 
Meleto sugere, primeiro, os juízes, a seguir os membros do conselho 
legislativo, depois os membros da assembleia e, por fim, todos os 
atenienses excepto Sócrates. Que sorte, surpreendentemente, para a 
juventude da cidade! Sócrates pergunta, então, se é melhor viver no 
meio de homens bons ou de homens maus. Qualquer pessoa preferiria, 
obviamente, viver no meio de homens bons, pois é provável que os 
maus lhe façam mal; mas se isto é assim, ele próprio não pode ter 
motivos para, deliberadamente, corromper os jovens; e, se o estiver a 
fazer sem saber, deve ser educado e não acusado. 
 Sócrates concentra-se então na acusação de impiedade. Está ele a 
ser acusado de ateísmo, ou de introduzir novos deuses? As duas acusa-
ções não são mutuamente compatíveis e, de facto, Meleto parece estar a 
confundi-lo com Anaxágoras, que disse que o Sol era feito de pedra e a 
Lua de terra. Quanto à acusação de ateísmo, Sócrates pode replicar que 
a sua missão como filósofo lhe foi confiada pelo próprio Deus e que a 
sua campanha para desmascarar a falsa sabedoria foi levada a cabo em 
obediência ao oráculo de Delfos. Aquilo que seria verdadeiramente uma 
traição a Deus seria abandonar o seu posto por ter medo da morte. Se 
lhe dissessem que podia ir em liberdade sob a condição de abandonar a 
investigação filosófica, ele responderia: «Homens de Atenas, respeito-
vos e amo-vos; mas antes me deixarei convencer por Deus do que por 
vós e, enquanto respirar e for disso capaz, não cessarei de filosofar nem 
de vos exortar, mostrando-vos o caminho.» 
 Sócrates conclui a sua defesa fazendo notar a presença no tribunal 
de muitos dos seus discípulos e das suas famílias, nenhum dos quais 
tinha sido chamado a depor pela acusação. Sócrates recusa-se a fazer 
como outros, apresentando em tribunal os seus filhos em lágrimas, 
como objecto de compaixão; às mãos dos juízes, procura justiça e não 
misericórdia. 
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 Quando o veredicto foi dado, Sócrates foi condenado por uma 
pequena maioria dos 501 juízes. A acusação pedia a pena de morte; 
cabia ao acusado propor uma sentença alternativa. Sócrates conside-
rou a possibilidade de pedir uma pensão por bons serviços, mas mos-
trou-se disposto a aceitar uma multa de valor médio \u2014 demasiado alta 
para ele poder pagar, mas que Platão e os seus amigos estariam dis-
postos a pagar por ele. Os juízes consideraram o valor da multa irrea-
listicamente pequeno e sentenciaram-no à morte. 
 No discurso que fez depois da leitura da sentença, Sócrates disse 
aos juízes que não lhe teria sido difícil construir uma defesa que lhe 
assegurasse a absolvição; mas o tipo de táctica que isso exigiria não 
estaria à sua altura. «Não é difícil escapar à morte, homens, mas é 
muito mais difícil escapar à maldade, que corre mais depressa que a 
morte.» Sócrates, velho e lento, foi alcançado pela mais lenta destas 
duas; os seus joviais acusadores foram alcançados pela mais rápida. 
Durante o julgamento, nem uma única vez a sua voz divina lhe ordena-
ra que se calasse e , portanto, está satisfeito por enfrentar a morte. 
 Será a morte um sono sem sonhos? Um tal sono é mais abençoado 
do que a maior parte das noites e dos dias da vida do mortal mais 
afortunado. É a morte uma viagem para outro mundo? Quão esplêndi-
do é, poder conhecer os defuntos gloriosos e conversar com Hesíodo e 
Homero! «Por mim, muitas vezes hei-de querer morrer, se isto for 
verdade.» Sócrates tem tantas perguntas a fazer aos grandes homens e 
mulheres do passado; e no outro mundo ninguém será condenado à 
morte por fazer perguntas. «Mas já é tempo de partir \u2014 eu para mor-
rer, e vós para viver. Qual de nós terá a melhor sorte, só Deus pode vê-
lo com clareza.» 
EUTÍFRON 
 Depois do julgamento descrito na Apologia, a execução da sentença 
foi adiada. Um navio sagrado partira para a sua viagem cerimonial 
anual à ilha de Delos e, até voltar a Atenas, era proibido tirar vidas 
humanas. Platão registou estes dias que mediaram entre a condenação 
e a execução em dois diálogos inesquecíveis, Críton e Fédon. Ninguém 
sabe quanto destes diálogos é história e quanto é invenção; mas o 
quadro que pintam estimulou a imaginação de muitos dos que viveram 
nos séculos e milénios posteriores à morte de Sócrates. 
 Antes de examinarmos estas obras, devemos voltar a nossa atenção 
para um diálogo curto, o Eutífron, que Platão situa imediatamente 
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antes do julgamento. Por muito ficcional que seja nos pormenores, dá 
provavelmente uma imagem correcta dos métodos de discussão e 
interrogatório que Sócrates de facto usou. 
 Sócrates, aguardando julgamento no exterior do tribunal, trava 
conhecimento com o jovem Eutífron de Naxo, que veio apresentar uma 
queixa relativa a assuntos privados. O pai de Eutífron tinha aprisiona-
do um trabalhador da sua quinta, o qual tinha morto um criado numa 
rixa; enquanto mandava pedir a Atenas uma decisão a quem de direito 
sobre o castigo a dar-lhe, mandou atá-lo e lançá-lo para uma vala, 
onde morreu de fome e de frio. O filho tinha agora vindo a Atenas para 
processar o pai por assassínio . 
 Platão pretende, de modo óbvio, transmitir a ideia de que este é um 
caso difícil: será que o pai matou realmente o trabalhador? Se matou, 
será matar um assassino realmente cometer um assassínio? Se for, 
será um filho o acusador apropriado de seu pai? Mas Eutífron não tem 
dúvidas, considerando a sua acção o cumprimento de um dever reli-
gioso. Este caso motiva uma discussão entre Sócrates e Eutífron acerca 
da relação entre religião e moral. A natureza da piedade, ou santidade, 
interessa sobremaneira a Sócrates, que está, ele próprio, prestes a ser 
julgado por impiedade. De modo que pede a Eutífron que lhe diga qual 
a natureza da piedade e da impiedade. 
 «A piedade», responde Eutífron, «é fazer o que estou a fazer \u2014 
trazer os crimes a julgamento; e, se pensas que não devia levar o meu 
pai a tribunal, lembra-te que Zeus, o deus supremo, castigou o seu 
próprio pai, Cronos». Sócrates mostra algum desagrado por este tipo 
de histórias de conflitos entre os deuses e detém-se por alguns instan-
tes para se certificar de que Eutífron acredita de facto nelas. Mas a 
verdadeira dificuldade que vê na explicação de Eutífron do que é a 
piedade ou a santidade é que ele apenas fornece um exemplo e não nos 
diz qual o padrão segundo o qual as acções hão-de ser classificadas 
como piedosas ou ímpias. Eutífron acede a dar uma definição: a santi-
dade é o que os deuses amam, e a impiedade o que odeiam. 
 Sócrates faz notar que, dadas as histórias de disputas entre os deu-
ses, é capaz de não ser fácil conseguir um consenso acerca do que os 
deuses amam; se algo for amado por alguns deuses e odiado por 
outros, resulta daí que isso será quer piedoso, quer ímpio. E isto pode 
aplicar-se à própria acção de Eutífron de acusar o pai. Mas deixemos 
isto de lado e emendemos a definição de tal modo que ela passe a ser a 
seguinte: o que todos os deuses amam é santo, e o que todos os deuses 
odeiam é ímpio. Surge então outra questão: será que os deuses amam 
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o que é santo porque é santo, ou será que isso é santo porque os deuses 
o amam? 
 Para conseguir que Eutífron compreenda o significado desta per-
gunta, Sócrates oferece alguns exemplos da gramática grega. O seu 
argumento poderia ser formulado em português dizendo que, num 
caso