kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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nem sons, nem imagens, nem dores nem prazeres \u2014, quando se 
afasta do corpo e o ignora tanto quanto possível.» Assim, os filósofos, 
na sua busca da verdade, tentam continuamente manter as suas almas 
afastadas dos seus corpos. Mas a morte é, para a alma, a separação 
completa do corpo; portanto, um verdadeiro filósofo leva a vida, de 
facto, a procurar a morte e a ansiar por ela. 
 A fome, as doenças, os desejos e os medos impedem o estudo da 
filosofia. A culpa das dissensões e das guerras é do corpo, porque as 
suas exigências requerem dinheiro para serem satisfeitas, e todas as 
guerras são causadas pelo amor ao dinheiro. Mesmo em tempo de paz 
o corpo é fonte de agitação e confusão intermináveis. «Para conhecer-
mos com clareza um dado objecto, é indispensável que nos libertemos 
da nossa realidade física e observemos as coisas em si mesmas, pelo 
simples intermédio da alma; e então, sim, ser-nos-á dado, ao que 
parece, alcançar o alvo das nossas aspirações, essa sabedoria que 
dizemos amar \u2014 depois de morrermos, não já em vida, como a lógica 
do argumento pressupõe.» Quem ama verdadeiramente a sabedoria 
deixará, portanto, esta vida com alegria. 
 Até aqui, é justo que se diga, Sócrates esteve a pregar mais do que a 
argumentar. Cebes interrompe-o dizendo que a maior parte das pes-
soas rejeitaria a premissa de que a alma pode sobreviver ao corpo. Elas 
acreditam, em vez disso, que no dia da morte a alma chega ao seu fim, 
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dissipando-se como uma nuvem de fumo. Aí «está uma coisa que 
requer talvez não pequeno esforço: persuadir e provar, nada mais nada 
menos, que a alma existe para além da morte e mantém, de alguma 
forma, o uso das suas faculdades e entendimento». De modo que 
Sócrates passa a oferecer um conjunto de demonstrações da imortali-
dade da alma. 
 Primeiro, há o argumento dos opostos. Se duas coisas são opostas, 
cada uma delas surge a partir da outra. Se alguém adormece, é porque 
estava acordado antes. Se alguém acorda, é porque estava a dormir. E 
se A se torna maior que B, então A era antes menor que B. Se A se 
torna melhor que B, A tem de ter sido pior que B. Assim, cada um 
destes opostos, maior e menor, melhor e pior, exactamente como 
adormecido e acordado , surgem a partir um do outro. Ora, a morte e a 
vida são opostos, de modo que isto tem de ser válido também para 
eles. Quem morre, é óbvio, é quem estava vivo; não devemos concluir 
daqui que a morte é, por sua vez, seguida de vida? Como a vida depois 
da morte não é visível, temos de concluir que as almas vivem noutro 
mundo, voltando talvez à terra algures no futuro. 
 O segundo argumento pretende demonstrar a existência de uma 
alma incorpórea não depois, mas antes da sua vida no corpo. A 
demonstração procede em dois passos: primeiro, Sócrates tenta mos-
trar que o conhecimento é reminiscência; em segundo lugar, faz notar 
que a recordação implica a existência prévia. 
 O primeiro passo do argumento tem o seguinte conteúdo. Vemos 
constantemente coisas que são mais ou menos iguais em tamanho. 
Mas nunca vemos duas pedras ou blocos de madeira ou outras coisas 
materiais que sejam exactamente idênticas umas à outras. Logo, a 
nossa ideia de igualdade não pode ser derivada da experiênc ia. As 
coisas aproximadamente iguais que vemos apenas nos recordam a 
igualdade absoluta, do mesmo modo que um retrato nos pode recordar 
um amante ausente. 
 O segundo passo é o seguinte. Se nos recordamos de alguma coisa, 
temos de a ter conhecido antes. Assim, se nos recordamos da igualda-
de absoluta, temos de a ter encontrado previamente. Mas não o fize-
mos na vida presente, pelos nossos sentidos habituais (a vista e o 
tacto, por exemplo). Portanto, temos de o ter feito por meio do puro 
intelecto numa vida anterior ao nosso nascimento \u2014 a menos que 
imaginemos que o conhecimento da igualdade nos foi inculcado ao 
nascermos, o que é improvável. Se este argumento funciona para a 
ideia de igualdade absoluta, funciona igualmente bem para outras 
semelhantes, tais como a de bem absoluto e a de beleza absoluta. 
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 Sócrates admite que este segundo argumento, apesar de conseguir 
provar que a alma existe antes do nascimento, não é capaz de mostrar 
a sua sobrevivência depois da morte, a menos que seja reforçado pelo 
primeiro argumento. Assim, oferece um terceiro argumento, baseado 
nos conceitos de dissolubilidade e indissolubilidade. 
 Se algo pode dissolver-se e desintegrar-se, como acontece ao corpo 
quando morremos, então tem de ser algo compósito e mutável. Mas os 
objectos aos quais a alma dá atenção, como a igualdade e a beleza 
absolutas, são imutáveis, ao contrário das coisas belas que vemos com 
os olhos do corpo, as quais degeneram e se desvanecem. O mundo 
visível está em constante mutação; apenas o que é invisível se mantém 
inalterado. A alma invisível só é afectada pela mudança quando é 
arrastada, pelos sentidos corpóreos, para o mundo do devir. 
 Nesse mundo, a alma tropeça como um ébrio; mas, quando volta a 
si, passa para o mundo da pureza, da eternidade e da imortalidade. É 
nesse mundo que se sente à vontade. É «ao que é divino, imortal e 
inteligível, ao que possui uma só forma e é indissolúvel e se mantém 
constante e igual a si mesmo, que a alma mais se identifica; [\u2026] pelo 
contrário, é ao que é humano, mortal e não inteligível, ao que possui 
múltiplas formas e está sujeito à dissolução, sem jamais se manter 
constante e igual a si mesmo, que mais se identifica o corpo». Logo, 
conclui Sócrates, o corpo está sujeito à dissolução, enquanto a alma é 
quase totalmente indissolúvel. Se até os corpos, quando são mumifica-
dos no Egipto, conseguem sobreviver muitos anos, é impossível que a 
alma se dissolva e desapareça no momento da morte. 
 A alma do verdadeiro filósofo partirá para um mundo paradisíaco 
invisível. Mas as almas impuras, que em vida estiveram presas ao 
corpo por arrebatamentos de prazer e de dor e ainda estão ligadas a 
preocupações corpóreas no momento da morte, não se tornarão total-
mente imateriais, assombrando os túmulos como fantasmas, até entra-
rem na prisão de um novo corpo, talvez o de um burro lascivo ou o de 
um lobo maldoso \u2014 ou, no melhor dos casos, o de uma abelha sociável 
e trabalhadora. 
 Símias passa então a refutar a premissa do argumento de Sócrates 
oferecendo uma concepção diferente e subtil de alma. Pensemos, diz 
ele, numa lira feita de madeira e cordas. A lira pode estar afinada ou 
desafinada, consoante a tensão das cordas. Um corpo humano pode, 
em vida, ser comparado a uma lira afinada, e um corpo morto a uma 
lira desafinada. Suponhamos que alguém dizia que, apesar de as cor-
das e a madeira serem compostos materiais em bruto, estar afinado ou 
desafinado é algo invisível e incorpóreo. Não seria estultícia argumen-
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tar que esta afinação poderia sobrev iver à destruição da lira e ao 
arrancar das suas cordas? Claro que sim; e temos de concluir que, 
quando as cordas do corpo perdem o tom por causa de ferimentos ou 
doenças, a alma tem de perecer, tal como a afinação de uma lira parti-
da. 
 Também Cebes precisa de ser convencido de que a alma é imortal, 
mas a sua crítica é menos radical do que a de Símias. Cebes está prepa-
rado para conceder que a alma é mais poderosa do que o corpo e que 
ela não se esvai quando o corpo perece. No curso normal da vida, o 
corpo sofre um desgaste constante e necessita de ser constantemente 
restaurado pela alma. Mas não é possível que a própria alma acabe por 
morrer no corpo, tal como é possível que um tecelão , que fez e gastou 
muitos casacos na sua vida, possa morrer antes de o último deles se 
estragar? Mesmo sob a hipótese da transmigração, uma alma pode 
passar de corpo para corpo e todavia não ser imperecível, acabando 
também por encontrar a morte. Assim, conclui Símias, «quando um 
homem encara confiadamente a morte, essa confiança não tem em