kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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princípio razão de ser, a menos que consiga demonstrar que a alma é, 
a todos os títulos, imortal e imperecível». 
 Em resposta a Símias, Sócrates começa por se apoiar no argumento 
da reminiscência, que implica a pré-existência da alma. Isto é comple-
tamente ininteligível se ter uma alma não for senão ter o corpo afina-
do; uma lira tem de existir antes de ser afinada. E, mais importante do 
que isto, estar afinado admite graus: uma lira pode estar mais ou 
menos afinada. Mas as almas não admitem graus; nenhuma alma pode 
ser mais ou menos uma alma do que outra. Poderia dizer-se que uma 
alma virtuosa é uma alma em harmonia consigo mesma; mas nesse 
caso teria de ser a afinação de uma afinação. Além disso, é a tensão das 
cordas que faz com que a lira esteja afinada, mas no caso do ser huma-
no a relação é inversa: é a alma que mantém o corpo a funcionar. Sob 
este arsenal de argumentos, Símias admite a derrota. 
 Antes de responder a Cebes, Sócrates oferece uma longa narrativa 
da sua história intelectual até à sua aceitação da existência de ideias ou 
formas absolutas, como a beleza e o bem absolutos. Uma coisa só pode 
ser bela ao participar na beleza em si. O mesmo se aplica ao alto e ao 
baixo: um homem alto é alto em virtude da altura, e um homem baixo 
é baixo em virtude da baixeza. Isto é assim até no caso de uma pessoa 
como Símias que, por acaso, é mais alto do que Sócrates e mais baixo 
do que Fédon. 
 A relevância destas observações para a questão da imortalidade 
demora algum tempo a tornar-se evidente. Sócrates faz, a seguir, a 
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distinção entre aquilo a que os filósofos posteriores chamariam as 
propriedades necessárias e contingentes das coisas. Os seres humanos 
podem ou não ser altos, mas o número três não pode deixar de ser 
ímpar e a neve de ser fria \u2014 estas coisas têm estas propriedades neces-
sariamente e não apenas contingentemente. Ora, tal como o frio se 
pode transformar em calor, assim também a neve, que é necessaria-
mente fria, tem ou de se afastar ou de perecer à aproximação do calor; 
não pode permanecer onde está e tornar-se neve quente. Aqui, Sócra-
tes generaliza: não só os opostos não admitem os seus opostos, mas 
também nada que traga consigo um oposto admitirá o oposto daquilo 
que traz consigo. 
 Sócrates tira agora a sua conclusão. A alma traz consigo a vida, tal 
como a neve traz o frio. Mas a morte é o oposto da vida, de modo que é 
tão impossível a alma admitir a morte como a neve o calor. Mas aquilo 
que não admite a morte é imortal e, portanto, a alma é imortal. Há, 
porém, uma diferença entre a alma e a neve: quando o calor chega, a 
neve perece, pura e simplesmente. Mas uma vez que o imortal é tam-
bém imperecível, a alma, à aproximação da morte, não perece, reti-
rando-se antes para outro mundo. 
 Não é de todo em todo claro de que modo é isto uma resposta à tese 
de Cebes de que a alma poderia ser capaz de sobreviver a uma ou mais 
mortes sem ser sempiterna e imperecível. Mas, no diálogo, a conclusão 
de Sócrates segundo a qual a alma é imortal e imperecível e existirá 
noutro mundo é adoptada por aclamação, e a audiência passa então a 
escutar a narração que Sócrates faz de uma série de mitos acerca das 
viagens da alma pelo Hades. 
 Finda a narrativa, Críton pergunta a Sócrates se tem algum último 
desejo e como pretende ser enterrado. É-lhe dito que tenha presente a 
mensagem do diálogo: eles apenas enterrarão o corpo de Sócrates, não 
o próprio Sócrates, que acederá às alegrias dos bem-aventurados. 
Sócrates toma o seu último banho e despede-se das mulheres e das 
crianças da sua família. O carcereiro chega com a taça do veneno, 
cicuta, que era dado em Atenas aos prisioneiros condenados à morte 
como meio de execução. Depois de dizer uma piada ao carcereiro, 
Sócrates bebe a taça e prepara-se serenamente para a morte, ao mes-
mo tempo que os seus membros perdem gradualmente sensibilidade. 
As suas últimas palavras são enigmáticas: «Críton, devemos um galo a 
Asclépio\u2026 Paguem-lhe, não se esqueçam!» Asclépio era o deus da 
saúde. Talvez as suas palavras signifiquem que a vida do corpo é uma 
doença e que a morte é a sua cura. 
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 O Fédon é uma obra-prima; é uma das mais belas obras da prosa 
grega e mesmo em tradução arrebata e maravilha o leitor. Põem-se 
duas questões: o que nos diz o diálogo no que respeita a Sócrates? E 
que nos diz acerca da imortalidade da alma? 
 O ambiente narrativo proporcionado pela prisão e morte de Sócra-
tes é consensualmente aceite pelos especialistas como autêntico; e foi 
certamente a descrição que Platão fez destas últimas horas que inspi-
rou a imaginação de escritores e artistas pelos séculos fora. Mas alguns 
dos discursos a favor da imortalidade da alma são formulados numa 
linguagem mais apropriada ao sistema filosófico do próprio Platão do 
que às técnicas de interrogação do Sócrates histórico. A confiança na 
sobrevivência da alma expressa no Fédon contrasta claramente com o 
agnosticismo atribuído a Sócrates na Apologia do mesmo Platão. 
 É improvável que os argumentos a favor da imortalidade, abstrain-
do dos padrões mitológicos da antiguidade a que estão intimamente 
ligados, convençam o leitor moderno. Mas mesmo na antiguidade 
facilmente se poderiam apresentar contra-exemplos. Será verdade que 
os opostos surgem sempre dos seus opostos? Não mostrou Parménides 
que o Ser não podia surgir do Não-Ser? E, mesmo quando os opostos 
surgem dos seus opostos, será que o ciclo tem de continuar infinita-
mente? Mesmo que o sono tenha de se seguir à vigília, não é possível 
que uma última vigília seja seguida por um sono eterno? E, por muito 
que seja verdade que a alma não tolera a morte, por que razão tem ela 
de se retirar para outro lugar quando o corpo morre, em vez de perecer 
como a neve derretida? 
 Os assuntos mais interessantes do diálogo são o argumento da 
reminiscência e a crítica à ideia de que a alma é a afinação do corpo. 
Ambos estes temas têm atrás de si uma longa história. Mas a discussão 
do primeiro beneficiará da análise prévia do seu lugar no sistema 
platónico da maturidade, e a avaliação do segundo beneficiará da 
análise das teses de Aristóteles, sucessor de Platão , acerca da alma. 
 Ao longo dos séculos, o nome «Sócrates» ocorre em muitas páginas 
de obras de filósofos. Na maior parte dos casos, porém, não é em refe-
rência ao ateniense que bebeu a cicuta. Vulgarizou-se antes como um 
nome fantoche na formalização de argumentos, como no silogismo 
 
 Todos os homens são mortais. 
 Sócrates é um homem. 
 Logo, Sócrates é mortal. 
 
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 Na Idade Média, sobretudo, o nome era usado diariamente por 
autores que sabiam muito pouco da história contada na Apologia, no 
Críton e no Fédon. Foi assim, e de outras maneiras mais solenes, que a 
mortalidade e a morte de Sócrates encontraram eco na bibliografia 
filosófica do Ocidente. 
 
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A filosofia de Platão 
VIDA E OBRA 
LATÃO NASCEU NO SEIO de uma família abastada, na época em 
que o Império Ateniense se aproximava do seu fim. Quando as 
guerras do Peloponeso terminaram, em 405, Platão tinha pouco mais 
de 20 anos, mal tendo idade para ter combatido nela, como os seus 
irmãos certamente fizeram. Os seus tios Crítias e Cármides foram dois 
dos Trinta Tiranos. A execução de Sócrates, em 399, sob uma demo-
cracia restaurada, provocou em Platão uma desconfiança pelos dema-
gogos que o acompanhou até ao fim da vida, tal como a aversão a 
prosseguir uma carreira política em Atenas. 
 Quando tinha 40 anos, Platão foi para a Sicília e associou-se a 
Díon, cunhado do rei Dionísio I. De volta a Atenas, fundou uma escola, 
a Academia, num pequeno bosque privado ao lado de sua casa. Foi 
constituída segundo o modelo das comunidades pitagóricas de Itália, 
um grupo de pensadores com interesses afins, designadamente em 
matemática, metafísica, moral e misticismo. Aos